Fita com peças de quebra-cabeças coloridas, símbolo do autismo

Por Marcos Weiss Bliacheris Xixa

Um adolescente autista americano escreveu uma carta para a Polícia local que viralizou na Internet. Se você tem coração, é impossível ficar indiferente à carta de Gordy, de 16 anos. O que torna ainda mais preciosa a carta é o fato de Gordy ser um autista não-verbal que, com o auxílio da tecnologia, conseguiu se expressar e fazer seu pedido por respeito ecoar mundo afora.

Para quem convive com autistas não-verbais, é uma tarefa difícil saber como eles compreendem a realidade e do que são capazes. Diagnosticado com autismo aos 17 meses, foi somente a partir do fevereiro do ano passado que seus pais descobriram as opiniões de Gordy, expressas quando ele digita letra por letra no seu iPad.

O uso de tecnologias assistivas, que permitem a comunicação mesmo sem a fala, vem permitindo abrir uma janela neste mundo. Vem permitindo que pessoas falem suas vontades e seus desejos de forma clara e mostram o grau de compreensão que têm da realidade. Foi o que a carta de Gordy Baylison mostrou, surpreendendo e emocionando a todos que conviviam com ele.

A única vez que o adolescente havia verbalizado anteriormente foi em seu bar mitzvah, cerimônia judaica da maioridade religiosa, quando após seis meses de preparação, recitou a primeira fase da principal oração judaica (Shemá Israel), emocionando a todos.

O menino, que vive na cidade de Potomac, estado de Maryland, viu o panfleto de uma atividade da Polícia local, chamada “Autism Night Out”, que une policiais e pessoas com autismo. Este programa aproxima policiais e pessoas com autismo, buscando que os policiais as tratem com empatia, respeito e compaixão. Laurie Reyes, a idealizadora do programa, ensina seus comandados a nunca subestimar uma pessoa autista e que não esperem que a pessoa, por não se comunicar verbalmente, não seja inteligente.

Não podemos esquecer que o fato de alguém não poder expressar seus sentimentos e idéias não quer dizer que não tenha sentimentos e idéias ou que não esteja entendendo o que acontece a seu redor. E a carta abaixo nos mostra isso de modo notável.

Incentivado por sua terapeuta, Gordy escreveu uma carta ao policial responsável pelo programa pois já tinha ouvido várias histórias trágicas causadas devido à falta de conhecimento das autoridades responsáveis de como lidar com  a situação. Suas palavras nos fazem  entender mais sobre o autismo e o que pensa um autista de forma clara e sensível.

Não deixem de ler a carta de Gordy:

Prezada Oficial Reyes:

Meu nome é Gordy, e sou um adolescente com autismo não verbal. Eu prefiro esta expressão a de “baixo funcionamento”, porque se eu estou escrevendo a vocês esta carta, o que de fato estou, eu sou claramente funcional. Eu me senti altamente motivado para escrever a vocês hoje, para dar um pequeno insight extra sobre os links desconexos que supostamente deveriam fazer meu cérebro e corpo trabalharem juntos em harmonia. Mas eles não o fazem e isto está OK. Veja, a vida para mim e outros como eu é um jogo diário, apesar de não divertido, de cabo de guerra. Meu cérebro, que é muito parecido ao de vocês, sabe o que quer e como deixar isso claro. Meu corpo, que é muito assemelhado a um bebê bêbado de quase um 1,80m, resiste.

Esta carta não é um pedido de piedade, piedade não é o que eu procuro. Eu gosto de mim mesmo do jeito que eu sou, com o corpo de bebê bêbado e tudo mais. Esta carta é, todavia, um grito por atenção, reconhecimento e aceitação. Com a atenção de vocês, eu os poderei ajudar a reconhecer os sinais do autismo não verbal. Se você puder reconhecer esses sinais, então você será capaz de reconhecer as nossas diferenças o que então levará ao entendimento destas diferenças, o que nos conduzirá às maravilhas da aceitação. Com estes simples ingredientes, juntos poderemos criar um ambiente seguro, acolhedor e feliz tanto para autistas como neurotípicos.

Os sinais físicos a se observar são as mãos agitadas (flap) ou outros movimentos, palavras, ruídos ou comportamento em geral socialmente não aceitável. Isto é incontrolável. Com a mente e sentimentos muito semelhantes aos de qualquer outra pessoa, você sinceramente acredita que nós gostamos de agir assim? Eu não, com certeza.

Se alguém se torna agressivo, mordendo ou batendo, por exemplo, obviamente proteja-se, mas não há razão de usar agressão em resposta. Lembre-se que essa agressão é uma reação não controlável que provavelmente foi causada por medo.

Nada é mais importante para pessoas como nós do que o respeito. Posso te dizer com quase 100% de certeza que a situação será mais fácil se souberes isso.

Eu tenho muito respeito por vocês e por tudo que fazem. Se não fosse por vocês, eu nunca teria essa oportunidade de falar por mim ou pelos outros autistas. Espero encontrá-los em breve,

Cordialmente,

Gordy