Por Marcos Weiss Bliacheris

 

A exposição “Diálogo no Escuro” nos convida a passar quarenta e cinco minutos no escuro, fazendo um trajeto pela cidade como se fossemos cegos, permitindo-nos colocar no lugar de outro.

Quem se dispõe a enfrentar este teste de se colocar no lugar de uma pessoa com deficiência visual, um cego, vive uma rara experiência. Uma experiência que continua muito além do curto espaço de tempo em que a vivemos.

A mostra itinerante, que está aberta à visitação em São Paulo e no Rio de Janeiro, foi criada na Alemanha e visitada por mais de 8 milhões de pessoas em todo o mundo, em mais de 30 pela Europa, Ásia, Oriente Médio, África e América. É permanente na Alemanha e em Israel. Também é responsável por gerar empregos para pessoas com deficiência visual por todos os lugares onde passa.

Em São Paulo, estará até julho no UNIBES Cultural. Não foi a primeira vez que fui a este local. Já havia estado lá antes, quando ainda sediava o Centro de Cultura Judaica. Gosto da bonita estação de metrô que lhe dá acesso, o prédio é muito bonito, estou familiarizado com o local. Mas, dessa vez, a visita e as sensações vividas eram tudo, menos familiares.

Na exposição, também chamada de mostra sensorial, vamos entrando gradualmente em um ambiente escuro. Vamos nos ambientando em um grupo guiado por um deficiente visual. Em uma sala pouco iluminada, começamos aprendendo a lidar com um instrumento vital nesta caminhada: a bengala. Todos nós reconhecemos um cego por sua bengala. Logo, passamos a confiar na bengala. É explicada a posição em que a bengala deve ficar para evitar acidentes. Inútil, ainda que nada grave tenha ocorrida: algumas bengaladas e muitos esbarrões são de praxe.

Como algumas pessoas me perguntaram: não, não há máscaras para evitar a entrada de luz. O ambiente é que escuro e sem luz. Não se vê nada mesmo. Deixamos todos os objetos que poderiam trazer luminosidade no armário da entrada (inclusive os onipresentes celulares).

A primeira sensação que nos toma é a vulnerabilidade. É um sentimento intenso. Quando a escuridão torna-se completa, só tenho a bengala e a voz do simpático guia Carlos para me ajudar. Nesta hora, os deficientes somos nós. Na escuridão, os papeis se invertem. Carlos esbanja bom humor e agilidade, está em seu ambiente. Nós não. Andamos em grupo, próximos um dos outros, demorando a entender o que está acontecendo. Não estamos preparados para interpretar os sinais desse ambiente. Cada passo demora. Será que vou cair em um buraco? (Não, o trajeto é totalmente seguro).

A escuridão é pesada, oprime. No início, sinto um pouco de falta de ar. Mas Carlos está lá, simpático, fazendo piadas sobre sua vida. Em meio às bengaladas, vamos avançando em um trajeto que aguça os sentidos (sons, cheiros) e simula um pequeno passeio por uma cidade. Tateamos números de casas, tocamos campainhas. Esperamos o sinal sonoro para atravessar a rua. A cidade real é difícil para Carlos, a cidade fictícia e escura é difícil para nós.

Enquanto rimos nervosos do quadragésimo terceiro esbarrão, do banco para sentar que não achamos, da escultura que não entendemos (nosso guia explica e, shazam, vemos com as mãos), Carlos preocupa-se com o estrangeiro do grupo, se ele está entendendo tudo. Se não estamos nos perdendo.

O passeio acaba em um bar. Todo no escuro. Podemos comprar salgadinhos, chocolates, refrigerantes. Nesta última parada, Carlos nos conta de seus programas preferidos. Ficamos assombrados ao saber que em uma cidade como São Paulo não chega a meia dúzia o número de semáforos com aviso sonoro. Rimos quando Carlos nos diz que na frente das agências do banco que tem conta sempre tem uma banca de jornal, que quando sente o cheiro de jornal sabe que está perto. E diz tudo que a tecnologia assistiva lhe dá de autonomia. Ficamos sabendo que um cego depende mais de seu celular que um adolescente, que adoram gravar mensagens no whatts app. Claro que cometo uma gafe, ao pedir a opinião de Carlos, pergunto “como ele vê” determinada questão. Nada que abale o bom humor dessa manhã bem diferente.

É uma longa conversa sobre barreiras e autonomia. Vamos sabendo quais são as barreiras que ele tem que vencer a cada dia e como isso diminui sua autonomia. Sua e de outros, pois ali Carlos é a voz dos deficientes visuais. No escuro, a invisibilidade das pessoas com deficiência some à nossa frente. Somos forçados a enxergar Carlos, mesmo que não o vejamos.

E essa é uma lição sem preço. Vemos como o espaço público expulsa, segrega aquela pessoa que está conosco. Que quer as mesmas coisas que a gente. Um quase adolescente, que está no seu primeiro emprego e está adorando a experiência. Que gosta de passear com a namorada nos locais mais acessíveis e com mais opções para ele em São Paulo.

E assim nos colocamos no lugar do outro, coisa que é muito difícil. Quem vive a deficiência ou com ela convive, seja a física, intelectual ou sensorial, sabe disso. Para quem não possui a deficiência é quase impossível imaginá-la. Para quem convive com ela diariamente, a vida torna-se um exercício de observação dos obstáculos que a sociedade impõe às pessoas com deficiência, em um mundo tomado pela padronização, onde tudo é mais prático e mais barato quando feito em série, sem prestar atenção às diferenças.

À pessoa com deficiência sempre se pede compreensão. A cada situação de exclusão, lhe é pedido um pouco mais de compreensão. Compreensão pela falta de rampa, compreensão pela impossibilidade de um surdo estar lá por faltar um intérprete de LIBRAS ou de um cego atravessar a rua. Compreensão, pois o comportamento de um autista pode não ser adequado e não sabemos como lidar com ele. Compreensão com tanta coisa que nem dá para listar. À pessoa com deficiência sempre é pedido que compreenda nossas limitações. Difícil é encontrar quem compreenda a pessoa com deficiência e suas limitações. Ou pelo menos tente compreender. E os Diálogos no Escuro nos levam a compreender radicalmente estas limitações.

Mais que compreensão, a pessoa com deficiência precisa de políticas públicas adequadas, de serviços adequados. Nem toda boa vontade do mundo fará um cadeirante subir uma escada, cegos não vêem sorrisos, surdos não ouvem palavras amáveis se não forem acessíveis a eles.

Quando estamos nos preparando para entrar na escuridão, alguns perguntam: falamos lá? Temos que ficar quietos? E nos respondem: na escuridão, quem não fala, é invisível.

Para tirarmos as pessoas com deficiência da invisibilidade é preciso falar. Que eles falem, que suas famílias falem, que suas vozes sejam ouvidas. Para afastar a escuridão, para afastar a invisibilidade.

Mais informações:

https://www.facebook.com/dialogonoescuro/timeline

http://www.dialogonoescurorio.com.br/

 

 

Marcos Weiss Bliacheris é advogado e autor dos livros “Sustentabilidade na Administração Pública” e “Panorama de Licitações Sustentáveis  – Direito e Gestão Pública”.