Por Tuca Munhoz *

Minha homenagem à Marisa do Nascimento Paro

Faleceu nossa querida amiga Marisa.

Militante combativa e dedicada, desde a primeira hora, do movimento das pessoas com deficiência, Marisa foi cofundadora do Núcleo de Integração de Deficientes – NID (1980) e do Centro de Vida Independente Araci Nallin – CVI-AN (1996). Marisa era tradutora formada pela PUC e tinha uma deficiência física em decorrência de uma doença genética e degenerativa.

A Lia, também cofundadora do NID e do CVI-AN, tomou a iniciativa de fazer realizar uma Missa de Sétimo Dia, em homenagem à Marisa, uma amizade de mais de 30 anos. A missa  aconteceu no dia 29 de abril, às 10 horas da manhã de um domingo frio e cinzento, na Igreja de Santa Cecília, aqui pertinho de casa.

Quando me dirigia para a Igreja, optei por ir pelo lado par da Rua das Palmeiras, pois já tinha visto que o buraco na calçada em frente ao Banco do Brasil[1] estava em reforma e poderia ser difícil passar com minha cadeira de rodas motorizada.

Fui sozinho, quis antes dar um passeio pela feira, fumar uma cigarrilha e conversar com o Rafael, o rapaz com deficiência que faz ponto nessa feira como pedinte. Para variar a cadeira motorizada dele estava com problemas. Essas cadeiras da marca Freedom são mesmo uma porcaria.

Mas, no caminho, ainda por chegar à feira, uma desagradabilíssima surpresa: um carro, acho que uma Saveiro, parado na faixa exatamente em frente à guia rebaixada, impedindo, portanto minha passagem.

As pessoas que estavam por perto e os passantes perceberam que eu fiquei indignado, e fiz questão de não esconder isso. Logo, o flanelinha veio querer me ajudar a descer o degrau da calçada, mas tive certeza de que ele sabia quem era o dono do carro e que havia sido cúmplice nesse desrespeito. Não aceitei sua ajuda e tive que dar uma volta de cerca de cem metros para encontrar o rebaixamento de uma garagem e ainda andar por um trecho pela rua.

Graças à sugestão de um senhor que observou a cena, fui ao posto policial comunitário próximo e fiz a denúncia. Em poucos minutos, a polícia estava lá e o carro foi multado por três diferentes motivos.

Segui meu caminho e encontrei com a Ana, uma moça, também com deficiência, que pede esmolas na esquina da Palmeiras com o Largo Santa Cecília. Ela me pediu um pastel, de palmito, como sempre.

Ao voltar, atravessando a rua com o farol aberto para pedestres, quase fui atropelado, juntamente com outros pedestres, por um táxi que passou em alta velocidade e, para minha surpresa, parou logo ali no ponto de táxi do Largo. Não deixei por menos. Entreguei o pastel para a Ana e fui falar com o motorista, que deu uma de bacana e ainda escarneceu de mim.

Voltei ao posto policial e registrei um Boletim de Ocorrência. Enquanto o fazia, o motorista apareceu e ficou me olhando com cara feia. Quando o soldado Guido terminou de redigir o Boletim de Ocorrência que  assinei, o motorista teve o atrevimento de dizer que me conhecia e que sabia que eu tomava o Metrô frequentemente. Perguntei aos soldados se aquilo constituía uma ameaça ao que eles me responderam que não. Mas se eu quisesse, poderia procurar a delegacia mais próxima.

Já estava cansado e tinha que ir para a missa da Marisa. Não fui à delegacia.

Procurar e afirmar nossa cidadania dá trabalho, é cansativo e perigoso. Nossa homenagem aos que lutaram é continuar lutando.

Esta é minha homenagem à Marisa, que lutou também por um direito tão simples e básico como  é o de atravessar a rua. Atravessar a rua é ir além, é ir mais adiante, chegar a algum lugar, conquistar alguma coisa. Vamos em frente!


[1] Mesmo com a nova Lei das Calçadas o buraco estava por lá há mais de dois meses. Uma cartinha para a seção Reclama SP do Estadão fez resolver o problema.

* Tuca Munhoz é presidente do Instituto MID – para a participação social das pessoas com deficiência