Nos anos 1970 e 1980, quando a Central Única das Favelas nem sonhava existir, alguns estudiosos advertiam: quando a favela descer para o asfalto, não haverá como conter uma revolta social! A previsão, para muitos, significava uma grande catástrofe.

Por Sandra Almada | Fotos Fernanda Moraes/Divulgação


Formatura de alunos da CUFA na quadra da Escola de Samba Império Serrano, em Madureira

Nos idos anos 1970 e 1980, quando a Central Única das Favelas (Organização nãogovernamental que ficou nacional e internacionalmente conhecida com a sigla CUFA) nem sonhava existir, alguns estudiosos advertiam: quando a favela descer para o asfalto, não haverá como conter uma revolta social! A previsão, para muitos, significava uma grande catástrofe. Para outros, justamente o contrário.

Na opinião destes últimos, a revolução dos pobres seria uma espécie de “vingança da história”, uma tomada de atitude, que, enfim, mudaria as condições socioeconômico-educacionais de milhões de brasileiros. Aqueles considerados “cidadãos de segunda classe”. Aquela porção do país que, por viver as tensões mais extremas produzidas pela concentração de renda e injustiça social, se tornaria heroicamente responsável por promover a ‘virada’.

OS NÚMEROS E AS MUDANÇAS

Pois bem, de lá para cá, muita coisa mudou. Embora tenhamos entrado no século 21 ainda exibindo uma dívida social enorme, cresceu, significativamente, no Brasil, o número de integrantes das classes C. Os recém-chegados são uma parcela dos pobres de outrora, aqueles mesmos que compunham as classes D e E. Ou seja, quando a Cufa nascia há 10 anos, os dados do IBGE sinalizavam: éramos cerca de 54 milhões de pobres, entre os quais, a maioria de negros! Hoje, parte deles já pode saborear bens de consumo antes inimagináveis: eletrodomésticos, computadores, cursos de aperfeiçoamento em suas áreas profissionais, viagens, planos de construção da casa própria, entre outros itens.

As cotas nas universidades também vieram ajudar a mudar o cenário. Em 2010, foram computadas cerca de 91 instituições públicas de ensino superior no país, nas quais estão reservadas uma parcela de vagas para negros, indígenas, mulheres, entre outras minorias. Na área educacional, o governo Lula ficou com o mérito, ainda, de ter criado cerca de 210 escolas técnicas em vários estados. São elas que acolhem 105 mil jovens brasileiros e os preparam para o mercado de trabalho, em diferentes áreas. Já o Prouni, outra iniciativa do governo federal, cobre, através de empréstimo financeiro, as despesas de mais de 700 mil estudantes universitários pobres dentro das faculdades privadas.

Mas, apesar de tantos indícios de que ser pobre hoje é diferente de ser pobre há 10 anos, a grande desigualdade racial ainda mancha a rota de sucesso do país. E continua sendo nas favelas e nas áreas periféricas que a exclusão negra encontra sua face mais radical. Portanto, vale a pena perguntar: A aposta na atuação dos excluídos para mudar a estrutura da sociedade brasileira, ficou pra trás? A favela não precisa mais descer para dizer a que veio ao asfalto? Quem ainda acredita na revolução dos pobres?

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Leia a íntegra da reportagem na Raça Brasil.