Luta de classes (médias)
Por Bruna Ventura
no Ibase

A pesquisa já está um pouco antiga, mas o sentimento é atual e latente. Um levantamento do instituto Data Popular mostrou que boa parte das classes A e B se sente incomodada por ter que dividir lugares e serviços com a nova classe média. A pesquisa é do ano passado, mas a polêmica provocada por um texto do blog de Artur Xexéo sobre o mesmo assunto é destes dias. O colunista chegou a publicar um artigo sobre a repercussão do seu post no espaço semanal dele em O Globo.

Xexéo, no dia 13 de abril, no seu blog afirmou se orgulhar da ascensão de seus conterrâneos, que agora podem viajar de avião em “voos comerciais pagos em 17 vezes”, mas ao mesmo tempo indagou: “Alguém já perguntou se a velha classe média gosta de barrinha de cereal? Eu não gosto. Dá pra sair um sanduíche de queijo com suco de laranja?”.

“Pensem no trauma que vem sofrendo a velha classe média. Cresci aprendendo que profissão para valer era engenheiro, médico ou advogado. Agora, todos gritam no meu ouvido: empreendedorismo!”, disse o colunista.

O post circulou pelas redes sociais e dividiu opiniões. Na sua coluna no Globo, Xexéo reproduziu duas opiniões, opostas, enviadas para ele. “Você representa e legitima o discurso da classe média medíocre e ressentida, principalmente os intelectuais de mídia”, dizia um dos comentários. “Se tudo agora é pensado e feito para agradar à nova classe média, eu, que sou da velha, terei que me mudar para outro planeta onde possa ser mais bem aceita?”, afirmava outro.

Segundo levantamentos, as políticas de crescimento da renda, de ampliação do crédito e os ventos econômicos favoráveis para o Brasil dos últimos anos levaram 20 milhões de brasileiros da base para o miolo da pirâmide social. No entanto, a ascensão social da nova classe C tem se revelado mais fácil do que a sua aceitação social pela classe média tradicional.

O Instituto Data Popular realizou no segundo trimestre de 2011 uma pesquisa que ouviu 18.365 pessoas da classe média tradicional em todo o país. Mais da metade dos entrevistados afirmou que os produtos à venda em mercados deveriam ter versões para ricos e para pobres. Metade atribuiu a piora em alguns serviços e a ocorrência mais comum de filas à nova classe média. Cerca de 25% se mostraram reticentes a estações de metrô em bairros nobres.

A mentalidade casa-grande-e-senzala no Brasil permanece firme e forte.

Fonte: Ibase