Uma série de declarações da diretora de teatro e colunista, Aninha Franco, tem causado polêmica entre os internautas baianos desde o começo de março. A dramaturga postou um texto na página pessoal do Facebook sobre uma oficina de palhaços para adultos com deficiência mental, que ganhou um edital de cultura do Fundo de Cultura da Bahia e Funarte. Depois do post, Aninha fez diversos comentários sobre o fato e, pelo teor das críticas e das comparações, foi acusada de discriminação.

“É de verdade. Não é piada”, escreveu antes de colocar a informação sobre a oficina. Logo em seguida, já no espaço dedicado aos comentários, soltou o verbo: “Deve ser oficina para políticos. Os eficientes da cultura estão sem trabalho. A cultura assumiu os palhaços com deficiência intelectual”.

Aninha também aproveitou para atacar o prefeito de Salvador, João Henrique, afirmando que a cidade não tinha políticas para a área: “Não tem política cultural. A Fundação Gregório de Mattos devolveu muito dinheiro de projetos soteropolitanos porque não tinha projetos”. Completando a discussão, ela falou sobre o edital e a oficina.

Post de Aninha Franco virou polêmica no Facebook

“Que objetivo pode ter a destruição da cultura? Só deficientes intelectuais são capazes de tal coisa. A palhaçada é exclusiva dos Editais do Fundo de Cultura da Bahia.A Funarte, por enquanto, não tem nada a ver com ela”, disparou.

Assim que as informações começaram a ser compartilhadas pela rede, outras pessoas comentaram no post e questionaram o suposto desrespeito e preconceito contido nas declarações. “Fazer uma comparação cretina como essa, colocando o deficiente e o político num mesmo lugar, é de um mau gosto, de um preconceito, um de desrespeito que me faz perder qualquer consideração a quem disse isso. É assustador constatar – em tempos em que o discurso e a luta pela inclusão, acesso e igualdade de direitos – como o ser humano pode ser tão estúpido”, escreveu um internauta.

Internautas questionaram a associação entre os políticos e os deficientes

Em outra resposta, um internauta desabafou: “Tô indignado. Esses seus comentários e de seus “amigos” parecem comentários de quem não tem criatividade ou iniciativa para pensar em algum projeto de ação e fica criticando quem tem”, relata.

Outras pessoas aproveitaram a oportunidade para destacar o valor dos palhaços. “Eu estou com vergonha de tudo que li. Viva a arte do palhaço. Viva a Justiça de ser artista”, “Às vezes é melhor perder a piada”, “Adjetivar qualquer coisa como Palhaçada, que não seja a arte milenar da comicidade, é sempre uso de um clichê de baixa criatividade palhaçada é séria e digna” , “Adjetivar qualquer coisa como Palhaçada, que não seja a arte milenar da comicidade, é sempre uso de um clichê de baixa criatividade”.

Diante da repercussão negativa dos comentários, a diretora voltou a comentar no post, mas não rebateu nenhuma das acusações de discriminação. Ela se limitou apenas a questionar o caráter do projeto: “Uma Oficina Para Palhaços é Arte. Uma Oficina Para Palhaços Para Deficientes Mentais é Saúde”.

Organizadoras da Oficina rebatem declarações
As organizadoras e professoras da oficina, Laili Flórez, palhaça, pesquisadora e professora, e Renata Berenstein, atriz, psicóloga e também palhaça, responderam às declarações de Aninha Franco. Em carta direcionada à diretora e à comunidade, elas defenderam o projeto e ressaltaram a necessidade de enfrentamento ao preconceito contra os deficientes.

“O projeto ao qual você se referiu, Aninha Franco, não foi criação oportunista para se aproveitar de verba pública.Ele começou em 2006, foi tema de conclusão de curso, é meu tema da dissertação de Mestrado e se manteve ativo e totalmente sem incentivo financeiro (do setor público ou privado) até o final de 2011, quando foi contemplado com o edital de Demanda Espontânea do Fundo de Cultura e o Prêmio FUNARTE/Petrobrás Carequinha de Estímulo ao Circo. Essa oficina não tem o caráter excludente de limitar a associação da figura do palhaço à pessoa com deficiência intelectual, mas apenas destinar um curso com metodologia especificamente preparada para trabalhar com tal grupo”, explicou.

As professoras acusaram a dramaturga de alimentar a discussão no Facebook em tom discriminatório e excludente. “A figura do palhaço foi tratada de forma pejorativa e a pessoa deficiente intelectual foi claramente comparada com os políticos de nossa cidade. A senhora deveria tomar os devidos cuidados e pronunciar-se de forma mais ética a respeito do palhaço e da deficiência e entender de uma vez por todas que atitudes que compartilhem cultura, arte e/ou palhaçaria à pessoa deficiente não representam uma afronta às políticas públicas em cultura, nem descaso com a classe artística, mas uma oportunidade de democratizar, incluir e valorizar a diferença”, finalizou.

A oficina deverá acontecer normalmente entre os dias 12 de março e 13 de abril, no Espaço Xisto Bahia. As aulas serão realizadas às segundas, quartas, e sextas, das 14h às 16h. As inscrições são gratuitas e podem ser feitas no local.

Fonte: Correio 24 horas