Por Flavia Maia
no Correio Braziliense

A imagem do aluno carregando uma mochila cheia de livros começa a ser redesenhada no Brasil e no mundo. Na figura moderna, a mochila permanece, o que muda é o conteúdo. Não significa que as obras sumirão da cena. Elas simplesmente começam a ser compactadas em arquivos virtuais e armazenadas em um tablet — equipamento portátil sensível ao toque. O aparelho chegou recentemente ao mercado e tem conquistado espaço entre educadores e escolas.

Em Brasília, não é diferente. Várias unidades de ensino usam o equipamento como ferramenta pedagógica e uma delas, o Sigma, já está exigindo o aparelho na lista de material escolar. Isso porque, a partir do próximo ano, o colégio substituirá os 16 livros didáticos por versões digitais. Outras escolas ainda acham precoce colocar um computador na mão de cada aluno.

O colégio decidiu apostar em uma tendência mundial, que vê no tablet a modernização das tradicionais aulas movidas a quadro-negro e giz. Na Coreia do Sul, por exemplo, a partir de 2014, o material didático não será mais impresso. Pequenas tiragens serão publicadas apenas para abastecer bibliotecas. Em Taiwan, os livros já foram substituídos por versões digitais. Até mesmo o ato de escrever com uma caneta está ameaçado de desaparecer. Em alguns estados americanos, o ensino da letra cursiva deverá ser opcional a partir de 2011.

A inserção desse tipo de aparelho nas salas de aula brasileiras veio poucos meses depois do lançamento do primeiro modelo de iPad, em novembro de 2010. A inédita experiência ocorreu no início deste ano em um pré-vestibular da cidade paulista de Campinas, quando todas as apostilas foram trocadas por versões para tablet.

No modelo candango, a princípio, as turmas de 1º ano do ensino médio serão as pioneiras. As demais continuarão com o método tradicional. Apesar de a maioria das correntes de educadores apostar nos tablets como revolução nas ferramentas de ensino, a extinção do livro de papel tem suscitado dúvidas em pais e alunos sobre a real eficiência do novo modelo e o peso da inovação no bolso, além do perigo de assaltos. “Sem tablet eu já fui assaltada, imagina se souberem que todos os alunos têm um?”, questiona a estudante do 2º ano do ensino médio Gabriela Macedo, 16 anos.

Configurações

A escola autoriza que cada aluno adquira o próprio aparelho, desde que tenha as configurações míninas exigidas. A média de preço é de R$ 1,5 mil. Hoje, a lista de livros para o 1º ano custa, em média, R$ 1,6 mil. A questão é que os estudantes terão que pagar pelos livros digitais e pelas atualizações, o que vai custar cerca de R$ 1, 1 mil. Isso significa que, neste primeiro momento, os pais terão de arcar com um aumento de 62,5% na despesa com o material. “Por ser um livro eletrônico, achei o valor das atualizações muito alto. Eles deveriam sair mais em conta para compensar o que gastaremos para adquirir o aparelho”, reclama a funcionária pública Sandra Macedo, 46 anos. Ela tem dois filhos no colégio e um deles fará parte do projeto.

Além da questão financeira, o que mais aflige Sandra e outras mães diz respeito ao controle dos professores sobre o acesso a redes sociais e a sites de conteúdo impróprio. “Vamos ter que conscientizar dentro de casa”, afirma Sandra. Professor do Sigma e um dos idealizadores do projeto do tablet na escola, André Frattezi acredita que a aula ficará tão interessante com o equipamento que os alunos não terão tempo de acessar outras páginas na internet. “Os livros digitais não vão precisar de rede wi-fi. Mesmo assim, vários alunos têm acesso à tecnologia 3G e a escola oferece conexão sem fio. Decidimos não bloquear nada, uma vez que eles já entram nas redes sociais pelo celular. Não é o tablet que mudará isso”, defende.

A diretora presidente do grupo Galois, Dulcinéia Marques, tem um ponto de vista diferente. “Um jovem é capaz de se distrair com uma borracha e uma lapiseira, imagine com um tablet cheio de opções? Isso é uma arma. O professor não vai conseguir controlar, ele não está preparado para isso”, argumenta. O colégio passará a utilizar lousas eletrônicas, uma espécie de computadores gigantes sensíveis ao toque. Dessa forma, os estudantes terão acesso à tecnologia, mas o controle ficará com o professor.

Para o diretor do programa de mestrado e doutorado em educação da Universidade Católica de Brasília, Afonso Galvão, os docentes realmente ainda não estão capacitados para lidar com essa nova ferramenta pedagógica, seja porque o aparelho é recente ou porque os cursos superiores ainda têm lacunas no ensino de uso de tecnologia. “O tablet é uma tecnologia muito boa para a educação. O que está acontecendo é uma evolução natural. Os professores só aprenderão a trabalhar com esses recursos se eles testarem em sala de aula”, defende. Em relação ao desvio de atenção, Afonso argumenta que o problema primário é o desinteresse do estudante. “Se o aluno não se interessar pelo que está sendo exposto, ele vai se distrair com qualquer outra coisa.”

O professor da Faculdade de Educação da Universidade de Brasília Gilberto Lacerda acredita que o bloqueio às redes sociais não é o melhor caminho. “Novas tecnologias demandam novas pedagogias e os docentes precisam buscar alternativas. Estamos em uma sociedade conectada o tempo inteiro. Isso não será diferente em sala de aula”, analisa.

A possibilidade de estudar disciplinas de conteúdo abstrato, como química e física, em uma plataforma mais interativa como o tablet tem animado os estudantes. “Vai ficar melhor de entender, por exemplo, a tabela periódica”, acredita Filipi Teles da Silva, 17 anos, estudante do 3º ano do ensino médio. Victor Lemos Gimenes, 17 anos, também no 3º ano, acha que as aulas vão melhorar, mas confessa que ainda não sabe como será o desafio de estudar sem escrever no livro. “Terei que me adaptar.” Apesar da exigência do tablet, os exercícios continuarão a ser feitos em papel.

Inovador

O iPad foi o primeiro modelo de tablet a ser apresentado no mercado. O aparelho foi anunciado em janeiro de 2010 pela Apple em uma conferência para a imprensa na cidade de São Francisco, nos Estados Unidos. Em 30 de novembro do ano passado, o equipamento chegou às lojas brasileiras e vendeu cerca de 64 mil unidades. Para 2011, a previsão é que 400 mil pessoas comprem um iPad no Brasil.

Mais integração

“O uso do tablet na educação pode ser avaliado em diferentes perspectivas. Na abordagem ecológica, ele é muito bom. Vamos economizar muito papel por causa dos livros e das atualizações constantes. Na perspectiva educacional, o computador vai integrar mais a escola com os jovens, porque é uma mídia de que eles gostam. Os livros não podem simplesmente ser transformados em arquivos de PDF, cópias genuínas dos livros. Isso é lastimável. O tablet é um novo meio e uma nova linguagem, ele não pode ser uma migração do papel para a tela. A migração deve ser benfeita, os critérios didáticos precisam continuar prevalecendo, mas com atrativos de som e de imagem inovadores. Tudo em prol do aprendizado. No início, os educadores não saberão trabalhar da melhor maneira com essa ferramenta, estamos em um período de adaptação e isso deve ser levado em conta.”

Fim da letra cursiva?

Um memorando do Departamento de Educação de Indiana, nos Estados Unidos, enviado às escolas em junho deste ano, causou polêmica ao sugerir que os professores abandonem o ensino da letra cursiva para focar em áreas mais importantes. Com a edição desse documento, o Estado deixou com os colégios a responsabilidade de decidirem se abolirão a milenar prática. O argumento é que as crianças praticamente não necessitam mais escrever utilizando papel, lápis e caneta. Como usam computadores desde muito pequenas, o ideal é que aprimorem a digitação. Os opositores dessa corrente alegam que o ato de escrever faz parte da tradição e que a letra revela a personalidade da pessoa. Além disso, faz parte do desenvolvimento motor dos pequenos aprenderem a segurar objetos como o lápis, por exemplo. Mesmo com a polêmica, há fortes indícios de que a medida será adotada em outros estados americanos porque o Commom Core Stated Standards Initiative (Iniciativa para um Padrão Comum de Currículo, em tradução livre) defende abertamente a abolição do ensino da letra cursiva nos colégios americanos.

Mercado em expansão

A demonstração de interesse de educadores e de escolas no uso dos tablets fez as empresas e de tecnologia iniciarem uma corrida para o desenvolvimento de aparelhos e softwares voltados ao segmento educacional. A Intel saiu na frente e lançou na semana passada um protótipo de um aparelho voltado exclusivamente a estudantes. O dispositivo faz parte da linha Intel Learning Series e é o primeiro da categoria direcionado a essa área.

De acordo com Fabio Tagnin, diretor de Expansão de Mercado da Intel Brasil, desde 2006, a empresa tem se dedicado a desenvolver linhas de computadores para uso em sala de aula, já que a educação caminha, em ritmo acelerado, para a convergência com o meio digital. Em relação ao modelo de tablet apresentado na última semana, ele explica que as diferenças em relação ao aparelho tradicional podem parecer pequenas, mas são relevantes. Como o equipamento será manuseado por criança ou adolescentes, ele resiste melhor ao contato com líquidos. Além disso, o aparelho é revestido por borracha, o que impede danos caso ele caia da altura de uma mesa, por exemplo. Como os pequenos podem escrever no tablet com a caneta especial, o modelo ignora o pulso e funciona apenas com o toque dos dedos.

O protótipo roda diferentes sistemas operacionais e a interface foi criada para ajudar a interação do aluno com o professor. A aparelho apresenta também um dispositivo antifurto. Caso seja roubado, o dono pode bloqueá-lo, impedindo uso por outra pessoa. “É muito mais fácil um professor dar uma boa aula com um tablet na mão do que com um livro. O Brasil precisa adotar a inclusão digital rapidamente. Estamos perdendo em competitividade e em produtividade com os outros países”, analisa Tagnin. A Intel faz o desenho de referência e outras empresas montam o equipamento. O modelo apresentado deve chegar ao mercado brasileiro no fim deste ano ou no início de 2012.

Fonte: Correio Braziliense