Criolo Doido através de cano de esgoto

Por Daniel Brasil
da Revista Música Brasileira

Não sou um fã de rap, confesso. Gosto demais de música pra gostar de rap, que originalmente nasceu como poesia ritmada (Rhythm and Poetry). Nada contra rimas e ritmos, mas na origem do gênero faltavam alguns elementos básicos para minha fruição, como melodia ou harmonia. Também não sou fã de poesia declamada, mas respeito quem faz e curte. Na Rússia é arte nacional, cultuada por milhões de pessoas, em escolas, botecos e saraus.

Acompanhei o surgimento do movimento hip hop na periferia de São Paulo e do ABC, há mais de vinte anos (gravei um vídeo com Nelson Triunfo em 91!), e sempre vi como socialmente interessante e musicalmente pobre. Claro que surgiram alguns bons poetas no meio, e os Racionais foram um marco cujo impacto é definitivo. Gente como Thaide, Rappin’ Hood, Gog ou MV Bill são mentes inquietas que ampliam os caminhos do rap. Alguns “brancos espertos” surfaram na onda, como Gabriel o Pensador ou Fausto Fawcett, deixando sua marca.

Gosto muito do filme Antônia (2007), de Tata Amaral, que levou Negra Li ao estrelato e mostra o lado feminino do rap. O que sempre me incomodou foi a submissão acrítica ao modelo americano de rap. A imitação dos trejeitos, dos scratches, dos passos de break, das roupas, colares e óculos escuros.

Há alguns anos ouvi falar de Criolo Doido. Ativista do rap , criou a bem sucedida Rinha dos MC’s, em São Paulo, que virou circuito em todo o estado. Lançou um disco em 2006 (Ainda Há Tempo), e entortou a cabeça do pessoal com Nó na Orelha, de 2010. [Nota da Inclusive: Criolo Doido disponibilizou seu novo disco na íntegra, de forma livre, na internet. Visite e baixe neste link.]

Gostei de umas faixas, menos de outras. Espiei alguns vídeos na rede, e a cara de Criolo (que não é literalmente um crioulo) foi ficando familiar. Até que topei com este vídeo, gravado em condições precárias, num bar, sem playback, em que o poeta faz uma homenagem à canção Cálice, de Gilberto Gil e Chico Buarque.

Na verdade, ele canta outra letra, sobre a mesma melodia, sem respeitar muito a métrica. E me arrepiei do mesmo jeito que havia acontecido quando ouvi a canção original pela primeira vez. A voz embargada de Criolo, cantando a cappella, transmite tudo. E o fato de citar Milton, e não Gil, se deve ao fato da interpretação do mineiro (junto com o carioca) ter se tornado a referência auditiva para esta grande, imensa canção.

Criolo a tornou ainda maior.

Fonte: Revista Música Brasileira