Pessoa em cadeira de rodas (não se pode ver o rosto), passa por calçada esburacada. Vê-se as pernas de mais duas pessoas atrás dela.
Pessoa em cadeira de rodas (não se pode ver o rosto), passa por calçada esburacada. Vê-se as pernas de mais duas pessoas atrás dela.

ANDREI BASTOS

Vida de cadeirante é uma merda! Ooops! Não é educado nem politicamente correto falar assim. Diz a boa regra afirmativa que devemos sempre ressaltar o aspecto positivo de quem vive a dificuldade imposta pelo mundo à pessoa com deficiência ou com mobilidade reduzida.

Mas como evitar a expressão chula se o apartamento não tem portas largas o suficiente nem banheiro com espaço para manobras; se o prédio, ao cumprir determinação legal de acessibilidade, construiu uma rampa estreita e que não vai até a porta da rua, onde restou degrau de altura considerável; se as calçadas são esburacadas e não têm rampas em todas as esquinas, com a louvável exceção de onde fizeram reforma urbanística assessorada por especialistas; se os edifícios que abrigam escritórios ou consultórios são inacessíveis; se a maioria dos ônibus não é adaptada ou acessível, o que seria o correto, e mesmo os que dispõem de elevadores funcionam precariamente; se a maioria das estações do metrô não oferece acessibilidade adequada, expondo cadeirantes (pessoas que usam cadeiras de rodas) ao risco de quedas ao serem carregados pelas escadarias por seus funcionários; se, enfim, o mundo em que vivemos tem a deficiência de não enxergar a si mesmo com os olhos da acessibilidade e rejeita as necessidades específicas dos que lhe são “invisíveis”?

É impossível conter o desabafo agora, grosseiro ou refinado, porque, apesar de já ser muletante (pessoa que usa muletas) há oito anos, fui obrigado, por uma cirurgia no ombro, a substituir temporariamente muletas por cadeira de rodas. Eu era feliz e não sabia.

Eu também não sabia, embora milite e me envolva com pessoas com todas as deficiências há dez anos, qual era exatamente a razão de ser a cadeira de rodas o símbolo universal da acessibilidade. Agora eu sei.

Agora sei também que a “invisibilidade” do deficiente chega ao ponto de me colocar em disputa com um andante (pessoa que não usa muletas ou cadeira de rodas) quando desembarcava de um trem do metrô, para ver quem daria passagem ao outro. O apreço que tenho pela vida me fez aceitar a derrota, tendo ainda que suportar a passagem do “adversário” quase que pelo meu colo.

O que eu não sabia e continuo sem saber é quando o Estado vai assumir sua responsabilidade nessa história, sem que as iniciativas que ocorram possam ser creditadas à demagogia, ao clientelismo ou ao assistencialismo.

Mas sei e tenho certeza de que a discussão das questões referentes à pessoa com deficiência estará longe de acabar se não se der prioridade total à inclusão da criança com deficiência, na primeira infância e no ensino fundamental, ao mesmo tempo em que se realiza a inclusão dessas pessoas no mercado de trabalho. Como é de fato, este deve ser o início do processo de inclusão, que tem no emprego seu final, e num futuro menos distante a discussão poderá ter acabado, assim como a falta de acessibilidade e as disputas nas portas de trens do metrô.

ANDREI BASTOS é jornalista e integra a Comissão de Direitos Humanos da OAB/RJ.