Um homem diante de uma gigantesca pilha de papel

Por Andrei Bastos *

Hoje, muito a contragosto, requeri a renovação da minha “Autorização Especial de Estacionamento para Portadores de Necessidades Especiais” (sic). Resolvi fazê-lo por receio de protagonizar “um dia de fúria” anti-burocrática ao enfrentar alguma obtusa postura da Guarda Municipal.

Tirei o cartão de estacionamento para deficientes, que tem o pomposo e equivocado nome acima, quando amputei a perna em 2003 e ele tinha a absurda validade de um ano. Depois, indignado pela falta de sentido em provar periodicamente que não havia me crescido outra perna, deixei essa coisa de maluco pra lá.

Mas é difícil ser feliz com discernimento entre pessoas que vivem de carimbar papéis. O máximo que conseguiram avançar foi aumentar a validade do cartão para três anos (!).

Como de outras vezes que usei os ônibus adaptados “para inglês ver” da máfia do transporte coletivo carioca, consegui embarcar e seguir viagem apenas no terceiro veículo, pois nos dois primeiros os elevadores não funcionaram.

Fui até a repartição da prefeitura na Rua Dona Mariana, em Botafogo, o que já se constitui na primeira idiotice. Afinal, se tal serviço é destinado a pessoas com deficiência, por que não é oferecido em todas as subprefeituras? Se assim fosse, eu só precisaria ir até a esquina na minha cadeira de rodas.

Mas vamos às demais incongruências: para requerer o famigerado cartão, os barnabés pedem Comprovante de Residência, Carteira de Identidade, CPF, Carteira Nacional de Habilitação, Certificado de Registro e Licenciamento do Veículo e atestado médico.

A deficiência de discernimento da burocracia não percebe que Identidade, CPF e atestado médico já constam na Carteira Nacional de Habilitação, o que dispensaria a apresentação dos três primeiros documentos. No meu caso, por exemplo, as letras A e G nas observações da minha carteira de motorista querem dizer, respectivamente, que sou obrigado a usar lentes corretivas (óculos) e a dirigir veículos sem embreagem (não tenho a perna esquerda).

Mas a deficiência burocrática não acaba aí e continua na exigência do Certificado de Registro e Licenciamento do Veículo, o que vincula o sempre famigerado cartão a um veículo e não à pessoa com deficiência. Isto significa que terei que voltar à repartição se trocar de carro ou quiser dirigir o automóvel automático que meu filho poderá comprar.

Por último, embora o aumento do prazo de validade dê um sinal, apesar de fraco, de que existe alguma vida inteligente na repartição, será que daqui a três anos terá me crescido uma nova perna esquerda? Será que a prefeitura sabe de alguma conquista tecnológica ou científica que neste prazo me devolverá aos bailes da Estudantina? Torço por isso!

* ANDREI BASTOS é jornalista e integra a Comissão de Direitos Humanos da OAB/RJ.

____________

Fonte: O autor