Fita vermelha, símbolo da AIDSPor Tiago Pereira da Costa

Sou portador do HIV e trabalho como educador social em uma ONG/Aids. Confesso que não é fácil desenvolver um bom trabalho, principalmente quando não se tem o apoio dos órgãos de primeiro setor, responsáveis pela promoção de vida aos já infectados e a prevenção da população. Antes, porém, de falar das dificuldades financeiras que as ONGs/aids passam para se manter, é preciso entender o que é uma ONG, e em quais circunstâncias elas surgiram e a importância de sua atuação.

As ONGs – Organizações não governamentais – são órgãos sociais tão recentes quanto importantes na história da sociedade. A denominação que as caracteriza foi cunhada na Ata de Constituição da ONU – Organização das Nações Unidas – datada há mais de 65 anos, onde são definidas como “Entidades civis sem fins lucrativos, que realizam trabalhos em benefício de uma coletividade.” As ONGs visam atender diversos setores (raça, religião, sexualidade, classe social), que se veem oprimido-abandonados por um sistema. As ONGs possuem um papel extremamente importante na formação de novas políticas de inclusão.

Pode-se dizer que hoje, as ONGs executam mais que a metade dos trabalhos de promoção da saúde, inclusão social, combate à criminalização; qualidade de vida e a prevenção/conscientização da população sobre doenças como DST/HIV/Aids. Estes trabalhos, porém, não se mantêm sozinhos. É necessário pagar contas, funcionários, fazer manutenção de projetos, reformas etc. Sendo entidades sem fins lucrativos, necessitam de apoio para arcar com todas estas despesas.

Vamos analisar um primoroso trabalho que, por um período longo de tempo, tem tido suas atividades ameaçadas devido à interpretação equivocada de “autoridades” que não têm nenhum conhecimento de causa, e nem provavelmente de movimento social.

O Grupo VHIVER (www.vhiver.org.br) é uma instituição existente há 19 anos, reconhecida pela UNICEF E UNAIDS, e que possui o objetivo central de promover a vida das pessoas vivendo com HIV e aids, sendo hoje, o único Centro de Convivência de Belo Horizonte e Região Metropolitana de Belo Horizonte, e talvez do Brasil, que funciona de segunda à sexta, das 9h às 21h, tendo uma média de 13 mil atendimentos mensais. Desenvolvemos as seguintes atividades: atendimento a mais de 49 municípios de Minas Gerais, entre o Vale do Mucuri, Vale do Jequitinhonha e Zona da Mata Mineira; Projeto Comida no Prato, que fornece quatro refeições diárias (café-da-manhã, almoço, lanche e jantar) a todos os atendidos, gratuitamente e que são essências para quem faz o uso dos ARVs e sua consequente adesão aos mesmos; Academia Corpo Posithivo, para combate aos efeitos da lipodistrofia, com o acompanhamento de profissionais preparados e de alta qualificação e treinamentos específicos para melhores resultados; Oficinas terapêuticas e de geração de renda (Yoga, teatro, grupos de convivência, artesanatos, bordado, pintura, bijuterias etc), possibilitando, desta forma, que os atendidos da instituição tenham um meio de conseguirem se sustentar e de desenvolverem suas capacidades criativas. A produção dos materiais são vendidos pela instituição em feiras e espaços conveniados e toda a verba é revertida para os produtores; Distribuições de cestas básicas, pois muitos não possuem renda própria e nem o que comerem em casa aos finais de semana; Entrega de vale-transporte, para que os atendidos que não possuem condições de pagar o transporte, possam frequentar a instituição e fazer um tratamento mais eficaz; Acompanhamentos psicológico, jurídico e fonoaudiólogo; Grupos de jovens vivendo e convivendo com HIV e aids, onde são formados através de abordagens filosóficas e pela prática da educação de pares, sendo preparados para posteriormente terem condições de ocuparem espaços políticos e de participação social, assim como multiplicarem e formarem novas lideranças; desenvolvimento de palestras e oficinas voltadas para a prevenção das DST/aids, ao uso de drogas, e formação de multiplicadores; Núcleo de comunicação e arte, responsável por desenvolver todo o conteúdo adaptando à linguagem específica de nosso público e transmitir nossos conhecimentos de forma compreensível à população em geral.

O Grupo VHIVER corre o risco de parar de funcionar, pois para mantermos estas atividades em andamento, antes é necessário que as contas de LUZ, ÁGUA, TELEFONE, GÁS, FAXINEIRAS, COZINHEIRAS, RECEPCIONISTAS, EDUCADORES, e outras despesas básicas para funcionamento da instituição sejam pagas. Até o momento, estas despesas estavam sendo arcadas por um convênio de R$12 mil, firmado entre a Secretaria Municipal de Saúde de Belo Horizonte e o Grupo VHIVER, mas que foi cancelado. Apenas isto para se desenvolver tanto. É importante ressaltar que até janeiro deste ano/2011, o PAM – Programa de Ações e Metas – tinha em conta um saldo de 3.700.000,00, para desenvolver os trabalhos de assistência do setor referente às ações da AIDS. DIZEM QUE ESTE RECURSO JÁ ESTÁ COMPROMETIDO, MAS COMO ESTÁ COMPROMETIDO SE CONSTA NO SITE DO MINISTÉRIO DA SAÚDE.

Todo este trabalho acima mencionado está sujeito a decisões de pessoas com nenhum conhecimento de causa, sensibilidade ou vontade de contribuição, ao contrário, dificultam ao máximo o apoio a esta instituição com sua visão retrógrada e normativa, pois até o momento, o convênio utilizado para arcar com todas as despesas do Grupo VHIVER não foi renovado, não por problemas internos da instituição, mas por que a Coordenação Municipal DST/Aids de Belo Horizonte se nega a renová-lo, POIS DELIBERADAMENTE SÃO CONTRÁRIOS A REPASSES PARA INSTITUIÇÕES. Mas fornecem quantias exorbitantes para uso em passagens e hotéis, afirmando ser apoio legítimo às mesmas. MUITO DIFÍCIL DE ENTENDER UMA COORDENAÇÃO DE AIDS QUE DECLARA SER UM EQUÍVOCO O REPASSE DE RECURSOS PARA ONGs/AIDS.

O Grupo VHIVER deixando de funcionar, fará com que milhares de pessoas, que dependem deste acolhimento, fiquem desorientadas, sem perspectivas e resultando em abandono do tratamento, ou seja, um número de MORTES SEM PRECEDENTES.

Em contrapartida, o que nos mantém vivos e com esperanças ainda hoje, são as parcerias que mantemos com o Estado de Minas Gerais, a Coordenação Estadual de DSTs/AIDS de Minas Gerais – que hoje se encontra sob a administração da Dra. Fernanda Junqueira, que tem se mostrado o oposto de algumas autoridades relacionadas à AIDS – e alguns políticos que tem demonstrado grande afeição à causa da AIDS. MAS O ESTADO NÃO TEM COMO BANCAR TODAS AS AÇÕES, ATÉ PORQUE O VHIVER LOCALIZA-SE NO MUNICÍPIO DE BELO HORIZONTE.

Diante de todo este descaso, não nos restam senão a luta, a revolta e a manifestação. Enquanto parte do movimento social legítimo, aquele que não se vendeu à tutela, às “honrarias” e às conversas para boi dormir, convoco às outras lideranças a repensarmos com empenho o contexto em que vivemos hoje e as posturas que devemos tomar, assim como o que queremos e precisamos, tendo em consciência que não é por nós mesmos, jamais, mas por aqueles que não possuem mais forças para lutar ou prosseguir.

Tiago Pereira da Costa é educador social do grupo VHIVER
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Fonte: Agência de Notícias da AIDS