Imagem aérea de crianças brincando no chão
Foto: Jornal da Baixada

“O essencial é invisível aos olhos – repetiu o principezinho, para não se esquecer.” Em O Pequeno Príncipe, livro famoso de Antoine de Saint-Exupéry, a raposa é cativada pelo menino viajante, mas eles têm de se despedir, para que ele continue sua jornada. Então, ela conta seu maior segredo para ele: “só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos”.

Vistos com o coração é que 733 alunos com deficiência são tratados diariamente nas escolas da Prefeitura Guarujá por educadores, colegas e pela equipe da Educação Especial, que conta com dois profissionais atendendo os deficientes auditivos, quatro para intelectuais, um para deficiente visual e uma psicóloga. Ao todo, 405 alunos estão matriculados no Ensino Fundamental, 77 na Educação Infantil, 119 na Educação de Jovens e Adultos (EJA) e 132 nos centros comunitários.

“A nova Política Nacional de Educação Especial, publicada em 2007, da qual somos signatários, respalda todo trabalho desenvolvido no Município de Guarujá pela Divisão de Educação Especial. Nossas ações e diretrizes são pautadas pela busca de uma ‘Educação para Todos’. Os nossos serviços oferecidos aos alunos com deficiência visam à complementação de sua formação e não a substituição do ensino regular”, explicou a coordenadora da equipe, Ana Maria Lopes da Nova.

De acordo com a psicóloga da equipe, Maria Estela Conte, dentro da inclusão social, em que se incluem o acesso à cultura e ao esporte, por exemplo, está a inclusão escolar. “Na rede municipal, do ensino infantil, passando pelo ensino fundamental e na EJA garantimos o acesso à educação.”

Carinho

O carinho com os alunos da rede municipal é visível até com as diferentes necessidades dos alunos, seja de pontinho em pontinho, para os deficientes visuais, com o tradutor-intérprete de Língua Brasileira de Sinais (Libras), para quem possui surdez ou cuidando para que os autistas estejam sempre integrados. Existem serviços de apoio conforme cada caso.

“Os cuidadores auxiliam os que apresentam potencial pedagógico, porém não obtêm sucessos sozinhos em sala de aula, devido a algumas particularidades. Os professores cooperativos orientam os professores convencionais e dão apoio suplementar ao aluno com deficiência, individualmente ou em pequenos grupos, oportunizando a melhor maneira de atendê-los”, contou a coordenadora.

Ana Maria explicou também que há as salas de recursos multifuncionais, onde “há equipamentos, materiais e recursos pedagógicos específicos à natureza das necessidades especiais dos alunos, com frequência no horário contrário de aula, com professor especializado de duas a quatro vezes por semana, não ultrapassando duas horas diárias. Temos dois tipos de salas de recursos multifuncionais, a que atende a todas as deficiências e a específica para deficiência visual”.

“O professor de apoio orienta e supervisiona pedagogicamente os professores especializados e tem como atribuições, nas escolas de Educação Infantil e Ensino Fundamental, o acompanhamento do Plano de Atendimento Educacional Especializado aos alunos com deficiência por meio de visitas sistemáticas às escolas, avaliação pedagógica, reunião com os professores, orientadores pedagógicos e gestores, além do atendimento aos pais e do mapeamento de toda a região”, frisou a coordenadora.

Confiança

“Este trabalho é importante para mostrar que, além de cumprir o que pede o Ministério da Educação e Cultura (MEC), temos uma política séria de inclusão. E as famílias podem ficar despreocupadas ao mandar os filhos com alguma deficiência para a escola”, ressaltou, emtusiasmada, a coordenadora de autismo da equipe, Tânia Regina Ferreira Schumacher, que deu aula em sala de recurso.

No caso da Educação Especial, tudo serve como bom exemplo. E na escola Hermínia Neves Vitiello, no Santa Rosa, não é diferente. A diretora Valquíria Frederico Rodrigues de Matos contou que lá, este ano, serão seis crianças com algum tipo de deficiência no período da manhã e duas, à tarde. “É possível! É uma criança por sala, sendo que, na sala em que ela está, temos o cuidado de colocar cinco crianças a menos, no total. E é tão gratificante. Com os cuidadores e cooperadores o professor fica mais seguro.”

Alegria

A dona de casa Lourdes Luzia Rita Ferreira também está feliz com o resultado do trabalho desenvolvido na Hermínia. Seu filho Andrew, de cinco anos, foi diagnosticado com autismo. “O Andrew não falava nada, só mamãe e papai, isso com dois anos. Eu o levava ao médico e ele dizia que ele falaria. Mas foi à escola e não falava nada, ficava embaixo da carteira e tinha medo dos outros. Fiquei apavorada. Chorava. Então diagnosticaram autismo, na escola, onde agora ele tem uma tutora. Ele melhorou e se desenvolveu. Ele se socializou. Estou tão satisfeita! Agora tem amiguinhos, fala até o nome deles, tem o Guilherme e a tia Eliana. Ele acaba de almoçar e pede para ir à escola, mesmo nas férias”.

Já Selma Gabriel de Sá, professora da rede há 21 anos, conta que recebeu um autista ano retrasado, em sala de aula, e outro ano passado, de quem ela conta a história. “Conversamos com os amiguinhos, para tratarem eles como os outros e eles nos ajudaram muito. Procuramos dar o mesmo conteúdo, dentro das suas limitações. O trabalho foi maravilhoso, no meio do ano passado ela brincava com os outros, ficou independente e de palavras passou a dizer frases. Se chegar outro este ano, vou receber com coração aberto. Vou ficar muito feliz”.

Vida

O Pequeno Príncipe também conhece uma rosa, durante sua jornada, e, para protegê-la, colocava-a sobre uma redoma de vidro, privando-a até mesmo que o vento lhe tocasse as pétalas. Mas Silvia Mara dos Santos não fez isso com o seu filho João Vitor, de cinco anos, que é deficiente auditivo, e o levou para a Hermínia, onde o menino encontrou todo o apoio.

“Ele estudava em uma escola particular e tinha dias que não queria ir. Quando mudou para a escola municipal, foi muito bem recebido, pois todos estão empenhados em fazer o melhor. Ele ainda não fala, mas ouve bem. Estão falando a língua dele lá. Está até mais à vontade, começando a soltar algumas palavrinhas. O pessoal do Hospital das Clinicas de São Paulo disse que a Prefeitura está fazendo um bom trabalho. Tentamos criar nossos filhos dentro de uma redoma, com medo. Mas eles não podem ficar naquele mundinho, uma hora vão ter de sair. E eu aconselho os pais a deixá-los sair”, contou feliz.

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Fonte: Jornal da Baixada