Inclusive - diversidade.

As infâncias do mundo. Reflexões sobre diversidade e perspectivas de inclusão, por Irene Rizzini e Malcolm Bush. Revista Inclusão. Brasília – DF, v.1, n.2.

Resumo/Abstract

Este artigo examina as oportunidades e tensões que emergem das diferenças presentes no cotidiano de vida da população infantil e juvenil no contexto de um país ou em diferentes países. Negar estas tensões, na tentativa de pensar a inclusão de forma superficial ou retórica, apenas as exacerba. Os autores argumentam que há medidas a serem consideradas para enfrentar o desafio da diversidade.

Sobre os autores

Irene Rizzini
Professora e pesquisadora da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro – Brasil e diretora do Centro Internacional de Estudos e Pesquisas sobre a Infância (Ciesp).
E-mail: rizzini@hexanet.com.br

Malcolm Bush
Presidente do Woodstock Institute (Chicago, USA), organização dedicada à pesquisa e políticas na área de desenvolvimento econômico, comunitário e acesso a recursos financeiros.
E-mail: oliveirap@oitbrasil.org.br

DIVERSIDADE E PERSPECTIVAS DE INCLUSÃO

A noção de inclusão pressupõe a existência de exclusão. Esta normalmente resulta de diferenças, reais ou percebidas, entre pessoas de diversos contextos ou segmentos. Entretanto, algumas destas diferenças acabam criando tensões que podem conduzir à discriminação e à intolerância, fenômenos que estão na origem de diversos conflitos presentes na sociedade contemporânea. Neste artigo, examinamos as oportunidades e tensões que emergem das diferenças existentes no cotidiano de vida da população infantil e juvenil.

Há muito que se compreender na atual conjuntura política internacional sobre as condições de vida da população jovem 1 em um mundo sujeito a tão rápidas transformações. A idéia datransformação não significa dizer que as mudanças em grande escala sejam uma experiência inteiramente nova, ainda mais se considerarmos que o fenômeno de ondas migratórias, conquistas e trocas comerciais sempre estiveram presentes ao longo de toda a história da humanidade. E esses fenômenos sempre impactaram a vida das crianças e dos adolescentes.

No entanto, a experiência contemporânea da globalização apresenta características quantita-tivamente distintas em relação às experiências pregressas. As economias nacionais tornaram-se cada vez mais interdependentes com a dinamização dos fluxos comerciais e a integração dos mercados. Uma das conseqüências perversas deste sistema é a exclusão de número considerável de crianças oriundas de países pobres e que se encontram à margem do processo de globalização econômica e do desenvolvimento tecnológico e industrial.

1 Neste texto, nosso foco é a população infantil e juvenil, cobrindo os primeiros 18 anos de vida, mesmo que por vezes utilizemos apenas o termo criança (ou infância). Agradecemos o trabalho cuidadoso de tradução de Mariana Menezes Neumann, da equipe do Ciespi.

Porém, cabe ressaltar que o fenômeno da globalização também apresenta aspectos positivos para a melhoria das condições de vida da população jovem. Nós devemos celebrar o fato de que muitas crianças não estão mais abaixo da linha da pobreza e que a Índia e a China experimentam um processo de crescimento econômico acelerado. Ao mesmo tempo, não podemos esquecer que as disparidades entre os países pobres e ricos se acentuaram e que as chances de os países pobres participarem da economia de mercado globalizado tende a ser cada vez menor, em função das diferenças no nível de escolaridade, capacitação profissional e investimento.

As conseqüências trágicas das guerras, como a fome e as doenças, continuam a afetar a vida de inúmeras crianças. E a questão da pobreza não se limita exclusivamente à renda. Como ressaltado pelo reverendo Rowan Williams, ela se refere também à estabilidade doméstica, à educação e ao acesso a fontes de água limpa. E acrescenta, lançando mão de uma expressão que reflete sua sensibilidade: a pobreza se relaciona com a familiaridade com certas práticas e linguagens que possibilitam a compreensão humana2.

O que podemos dizer para as crianças e adolescentes que não encontram alternativas para participar ativamente da sociedade? E o que dizer para as crianças que têm perspectivas auspiciosas para o futuro em relação àquelas que nada têm? A essas perguntas, gostaríamos de acrescentar uma outra que afeta profundamente a vida das crianças e que, a nosso ver, com freqüência, passa despercebida. Ou seja, o poder exercido pela diferença ou diversidade na capacidade de provocar encantamento ou perturbação, alimentar a nossa imaginação ou destruir a nossa capacidade de viver em harmonia. O que dizer das perspectivas de inclusão política, social e econômica dos jovens cidadãos de hoje na sociedade de amanhã?

Muitos países admitem a recorrência de atitudes discriminatórias e violentas por parte daqueles que detêm algum tipo de poder, em função de diferenças raciais, étnicas, religiosas ou de gênero. No Brasil, até pouco pouco tempo acreditávamos ser referência de uma sociedade diversificada racialmente convivendo de forma harmoniosa. No entanto, a realidade se mostra diferente, levando-nos a confrontar os desafios relacionados à raça e oportunidades de vida.

À medida que estas questões se tornam alvo de críticas, corremos o risco de mais uma vez perder o foco e passarmos a uma celebração superficial da diversidade. Isso poderia nos impossibilitar de identificar os problemas prementes que temos dificuldade de assimilar e, acima de tudo, aqueles que desestabilizam o nosso sistema de crenças e valores. Assim, identificamos a existência de uma tensão dialética entre celebrar a diversidade que as crianças de contextos socioculturais distintos trazem para as nossas vidas e, ao mesmo tempo, conviver com diferenças difíceis de serem aceitas.

O poeta sufi Hafiz3, do século XIV, celebra a diversidade a partir da música:

Cada cidade é uma cítara 4

Que entoa o seu canto aos nossos ouvidos.

Em outro poema, Hafiz ressalta a emergência da música onde há vida:

Em qualquer lugar

Em que Deus dirige o seu olhar

A vida se inicia

Batendo palmas.

As miríades de criaturas

Pegam os seus instrumentos

E o auxiliam na composição

Da música5.

Onde quer que existam pessoas e comunidades, independentemente do lugar, cada um terá uma forma particular de expressar felicidade e contentamento, contribuindo para o caleidoscópio de músicas. O antropólogo Clifford Geertz percebe que a diferença e a diversidade fazem parte da realidade que devemos enfrentar para evitar graves conseqüências. Primeiramente, Geertz insiste em pontuar que a idéia de vivermos em uma “aldeia global” não reduz as diferenças:

2 Reverendo Dr. Rowan Williams, Arcebispo de Canterbury, “Christianity, Islam and the Challenge of Poverty”, discurso proferido no Instituto Bosniak, Sarajevo, maio, 2005. www.archbishopof canterbury.org/sermons_speeches . Acesso em 19 de junho de 2005.

3 Hafiz, “Every City is a Dulcimer” in The Gift. Poems by Hafiz, the Great Sufi Master. Tradução Daniel Ladinsky, New York: Arkana, penguin Putman inc, p.315.

4 A palavra no original é “dulcimer”. De acordo com o dicionário, significa “cítara”, que é “um antigo instrumento de cordas semelhante à lira, mas maior (www.priberam.pt, acesso em 3/03/2006).

5 Hafiz, “Life Starts Clapping”, ibid. p.85.

Todos sem exceção – socialistas, positivistas, sikhs e irlandeses – não irão perceber de forma semelhante o que é aceitável, justo, bonito ou razoável, nem agora, e provavelmente, nunca o farão6.

Pense nos inimigos ancestrais do seu país ou região e pergunte a você mesmo se Geertz está certo. No entanto, a visão do autor não é pessimistaper se. Ele percebe a diferença e a diversidade como parte da essência do ser humano. E essas diferenças não existem somente no vilarejo vizinho, ou região ou mesmo país. Citando Geertz novamente, “o sentimento de estranhamento (ou estrangeirismo) não se inicia no limite do rio, mas sim no da pele”7. A grande diferença é na verdade identificar o que nos torna diferentes (você e eu) de todo o resto.

Esta percepção nos dá esperança e, ao mesmo tempo, nos desafia, pois reside na existência de diferenças que transcendem a esfera do cotidiano e do familiar. Assim sendo, não estaríamos legitimados a concentrar-nos justamente nestes desafios? Neste caso, ficaríamos tomados pela exasperação, ao compararmos a enorme disparidade entre as condições de vida de uma criança em Ruanda e a que se encontra na Nova Zelândia.

Mais uma vez Geertz confronta as nossas ilusões:

O que poderia ter sido, e o que gostaríamos que ocorresse, se empobrece na soberania do que é familiar: a tal nível que o futuro torna-se obscuro. Não significa que devemos nos amar ou morrer (a exemplo de árabes e judeus, negros e africaners, pois, neste caso, estamos todos condenados, creio eu). Significa que devemos nos conhecer uns aos outros, e convivermos com essa sabedoria, ou iremos terminar, de acordo com Beckett, em um mundo de solilóquios8.

Abordaremos alguns pontos que devemos considerar a respeito de nossas diferenças, se efetivamente objetivamos melhorar as condições de vida e ampliar as oportunidades de inclusão social e econômica da população infantil e juvenil no mundo. A título de exemplo, podemos começar com o episódio que aconteceu recentemente em Paris, relativo às divergências que ocorreram entre estudantes muçulmanas e as autoridades francesas. De acordo com a religião muçulmana, a modéstia é expressa por meio do uso de véus. No entanto, as autoridades governamentais francesas defendem que as crenças religiosas não devem ser ostentadas na escola. Esta visão de mundo coaduna-se com o ideário da Revolução Francesa. Como as escolas são mantidas fundamentalmente com recursos estatais, prevalece o princípio que as escolas não devem promover o culto religioso, tornando-as acessíveis para qualquer criança. Algumas famílias, confrontadas por esse dilema, optam por enviar seus filhos para escolas vinculadas à sua tradição religiosa. No entanto, na tentativa de solucionar um problema, geram outro, ou seja, crianças que não sabem lidar com diferentes visões de mundo.

Podemos ainda mencionar outro exemplo, que se refere às profundas diferenças socioeconômicas na cidade do Rio de Janeiro. As crianças residentes nas áreas privilegiadas da cidade podem facilmente ter acesso às melhores praias durante o carnaval. No caso das crianças que moram no morro Santa Marta em Botafogo, ao contrário, correm o risco de serem removidas em caminhões de lixo, “para limpar o cenário para os turistas”. Depois do carnaval, parte destas crianças freqüentará as escolas particulares, enquanto as outras, se tiverem sorte, irão para escolas públicas sucateadas e desaparelhadas. E como não há um entrosamento real entre os dois grupos, acabamos fortalecendo o sentimento de discrimi-nação e intolerância. Ou se voltarmos novamente para o caso europeu, como as crianças ciganas em Portugal, taxadas de “sujas, feias e más” conseguirão ter acesso às mesmas oportunidades que as demais?

Estes exemplos demonstram diferenças existentes nos países de forma isolada. E, se ampliarmos este diagnóstico para uma comparação entre os países, veremos que as crianças e os adolescentes de classe média alta nos subúrbios norte-americanos vivem em um universo completamente antagônico ao das crianças órfãs e contaminadas pela Aids no meio rural no Quênia.

6 Geertz, Clifford. Available Light: Anthropological Reflections on Philosophical Topics. Princeton: princeton University Press, 2000, p.73.

7 Geertz, 2000, p.76.

8 Geertz, 2000, p.84.

Enquanto celebramos a diversidade de experiências das crianças em nossos países, não podemos nos furtar em perceber o lado perverso desta realidade – aquele que produz e alimenta a contínua desigualdade no acesso às oportunidades de vida. Podemos sugerir quatro etapas que contemplam medidas a serem consideradas para enfrentar o desafio da diversidade.

Em primeiro lugar, confrontarmos a crescente desigualdade entre os países e a incapacidade de os países pobres superarem a estagnação econômica e a pobreza sem o auxílio dos países desenvolvidos. Vejamos alguns exemplos. O Produto Interno Bruto (PIB) da Noruega é de US$ 43.000, o brasileiro é de US$ 3.000, enquanto o PIB da República Democrática do Congo é de US$ 100,00. Um dos nossos grandes desafios é identificar que tipo de auxílio realmente faz diferença.

A segunda etapa é reconhecer que as diferenças entre as condições de vida das crianças também estão presentes dentro de nossos países por meio da desigualdade econômica, das políticas públicas inadequadas, da indiferença e da hostilidade em relação às crianças marginalizadas. Dados, como os apresentados aqui, devem servir como um chamado à realidade. No Brasil, 20% da população detém 2,5% do rendimento nacional. Na República tcheca, esse número se reduz para 14%, enquanto, na Índia, é de 9%. Defendemos, como muitos outros, o perdão da dívida externa para os países pobres, mas não podemos nos furtar em reconhecer que o nível de corrupção e incompetência reduz drasticamente as oportunidades para a população jovem.

Como se sabe, em 2000 a Organização das Nações Unidas estabeleceu metas ambiciosas para a redução das desigualdades. No entanto, como o ministro do Tesouro inglês Gordon Brown apontou, semanas antes do encontro do G-8 na Escócia, nas condições atuais, as metas estabelecidas para 2015 só poderiam ser concretizadas em um período de 150 anos 9.

A terceira etapa diz respeito a aprender a ver com bons olhos as diferenças que nos questionam, nos provocam raiva ou nos incomodam. Não devemos ignorar estas diferenças, fingindo que elas não existem, ou por meio do “politicamente correto”, que acaba gerando mais discriminação e intolerância.

Por último, devemos lidar com os aspectos positivos e com os perigos da diferença aos olhos da criança, o alvo das nossas preocupações. As crianças podem não saber sobre a dívida do Terceiro Mundo, sobre as diferenças na balança comercial ou a devastação causada pela pandemia da Aids. No entanto, podem facilmente identificar, a partir da sua experiência individual, as diferenças que enriquecem as suas vidas e aquelas que trazem sofrimento. Essa dança eterna é tão intricada e complexa para a criança quanto para o adulto.

O objetivo deste texto é abordar o tema da diferença como algo que vai além de um exercício acadêmico – algo capaz de fomentar o confronto com a realidade complexa que reside fora do nosso universo pessoal como uma condiçãosine qua non para nos dedicarmos à pesquisa e à formulação de políticas públicas. Não nos esquivamos da responsabilidade de investigar, analisar e debater questões relativas às condições de vida das crianças. Mas a oportunidade (e a responsabilidade) que se apresenta é enfocarmos e concentrarmos as nossas energias nas crianças e nos adolescentes que enfrentam a exclusão e a intolerância. Esta é uma realidade que pode roubarlhes o futuro.

9 Website Guardian Unlimited Politics www.politics.guardian.co.uk/ development/story Acesso em 19 de junho de 2005.

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