Vista do Pão de Acúcar na década de 40

Por Andrei Bastos

Era uma vez uma moça de 20 anos, favelada, negra, que ganhava menos de um salário mínimo como vendedora de loja no subúrbio. Diante da oferta de R$ 2.000,00 mensais para empacotar cocaína, ela ficou tentada. Com sorte por ter amigos esclarecidos da classe média, procurou conselhos e decidiu por uma vida longa, filhos etc. O que podemos fazer para que essa história deixe de ser exceção?

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Era uma vez um moço de idade e cor indefiníveis, pequeno e magro, nascido e criado entre as ratazanas das palafitas da Maré, que nos metralhava com olhos fixos e palavras da Constituição que carregava embaixo do braço. Diante da mão pequeno-burguesa oferecida, vociferou recusas e impropérios e saiu do recinto com seus liderados. O que podemos fazer para dialogar com ele?

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Era uma vez uma princesa, de cabelos ruivos e olhos azuis, que vivia na torre do castelo de seu pai e nada lhe faltava. Sempre viajando a negócios, um dia o pai foi preso pelos guardas do imperador, pois traficava cocaína no atacado. Mergulhada em tristeza profunda, a jovem fugiu para viver com os porcos de uma aldeia distante. O que podemos fazer para evitar a infelicidade de outras princesas?

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Era uma vez um jovem gladiador em seu cavalo de aço que, justo, abordou meu veículo sem vistoria. Ao me perceber deficiente, propôs acerto pecuniário, que recusei por princípio e falta de fundos, aceitando a pena cabível. Disposto a fechar negócio, o garboso oficial regateou até esmola não recebida. O que podemos fazer para dignificar gladiadores?

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Se junto com esse circo todo, o Estado não cortar sua própria carne podre, vagabundo vai acabar comprando bagulho com vapor fardado.

ANDREI BASTOS é jornalista e integra a Comissão de Direitos Humanos da OAB/RJ.