Artista de rua cego, tocando acordeon

Por Andrei Bastos *

“A cidade é moderna, dizia o cego ao seu filho”, ouvimos Milton Nascimento cantar. Em todas as esquinas, da vida ou das cidades, modernas ou não, ouvimos que o mundo deve ser para todos, sem distinção de cor, credo, idade, características físicas, sensoriais ou intelectuais etc. É o mantra do politicamente correto, do que a sociedade deve construir para a cidadania.

Paradoxalmente, a modernidade, consumista, nos impõe a inversão de valores em que somos avaliados pelo que temos, ou parecemos ter, e não pelo que somos. Como fazer com que o mantra da igualdade de oportunidades vá além das políticas públicas atuais e atinja o coração das pessoas?

Este é o problema maior de quem vive o preconceito e a discriminação por ser pobre, negro, idoso, ter alguma deficiência etc. Como fazer para que olhares de espanto e comentários jocosos deixem de acontecer? Como falar aos corações das pessoas e não apenas às suas mentes?

Apesar de serem grandes conquistas, as leis e a obediência a elas não refletem o que vai pelos sentimentos, embotados pela compreensão equivocada da vida. Mais do que qualquer desrespeito a leis de cotas, de direitos civis, de acessibilidade, o que fere verdadeiramente a alma é o sorriso sarcástico diante de casais formados por brancos e negros, deficientes e não deficientes, pessoas do mesmo sexo, pobres e não pobres ou das pretensões e realizações na vida desses chamados “diferentes”.

Estamos aí para lutar, no campo da conquista de direitos, mas, acima de tudo, estamos aí para amar, no campo das relações humanas e pessoais. É com essa idéia de que “só o amor constrói” que fica fácil perceber a importância da promoção da inclusão nos primeiros anos de vida, na primeira infância.

Talvez por sofrer influência prejudicial do meio, os movimentos de emancipação dos excluídos não priorizam a infância e se dedicam à conquista de direitos de efeito aparentemente imediato. No entanto, se considerarmos que a ação focada na infância tem o poder de antecipar em gerações conquistas trabalhadas apenas no mundo dos adultos, logo entenderemos que uma política pública com tal direção pode desmitificar tal imediatismo e, o que mais importa, pode construir um novo olhar para o amor dos diferentes e uma nova forma de viver e amar.

O sonho da inclusão tem na atenção à primeira infância o passo fundamental para se tornar realidade. Nós e o cego dos versos da música de Milton e Ronaldo Bastos precisamos dizer tudo aos nossos filhos. E, ao governo que se inicia, apresenta-se a oportunidade de efetivar essa atenção que, em feliz acaso, tem tudo a ver com uma mulher na Presidência.

* Andrei Bastos é jornalista e integra a Comissão de Direitos Humanos da OAB/RJ.

P.S.: Eu dedico este texto à jornalista Gleusa Santos.

_____________

Fonte: O Autor
Artigo publicado originalmente em O Globo, Opinião, 10/11/2010.