Descrição do logotipo: palavra inclusive escrita à mão, em verde, entre parênteses laranja, com os pingos dos “is” laranja.
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A utilização de Gingko Biloba, Fluoxetina e Dexmetilfenidato
como “tratamento” para a síndrome de Down

Declaração elaborada por
Down Syndrome Education International

Traduzido e adaptado para o português para a Inclusive – agência para promoção da inclusão por Lucio Carvalho


Uma combinação de fármacos que são originalmente prescritos para o tratamento da depressão e do TDAH – transtorno de déficit de atenção e hiperatividade vem sendo promovida e recomendada, de forma muito extensa, como uma espécie de “tratamento” para a síndrome de Down. Não há respaldo científico algum para a utilização deste protocolo por parte das pessoas com síndrome de Down. É muito importante que tanto famílias quanto profissionais de saúde estejam conscientes da carência de dados científicos sobre os perigos e benefícios que podem advir da prescrição e utilização deste protocolo.


Introdução

Somos um grupo de profissionais da área da saúde, ciência e organizações de apoio que atendem a pessoas com síndrome de Down. Desejamos oferecer às famílias informações sobre este “tratamento” que está cada vez mais sendo oferecido às pessoas com síndrome de Down. Reconhecemos, sem dúvida alguma, que todos os pais desejam melhorar as condições de vida de seus filhos com síndrome de Down e estão fortemente interessados nos tratamentos, terapias e intervenções que podem lhes servir de ajuda. Respeitamos estes desejos mas, ao mesmo tempo, nos preocupa muito o fato de que estes “tratamentos” são potencialmente perigosos.

Estamos conscientes dos avanços que estão sendo realizados nas questões referentes às condições de memória e cognição nos modelos animais de síndrome de Down e confiamos que estes estudos podem conduzir-nos a melhorar as condições de vida das pessoas com síndrome de Down.

Os médicos e investigadores da Biomedicina têm desenvolvido possíveis intervenções sobre a base de seguranaça/risco e dos benefícios aos pacientes destes estudos e terapêuticas. Como descreveremos a seguir, os “tratamentos” que a Changing Minds Foundation (Fundação para a Transformação das Mentes*) recomenda não tem passado por nenhum tipo de comprovação, nem no que se refere à segurança nem a sua eficácia terapêutica. Não há informação em que se possa basear a respeito destes compostos no que se refere a segurança para o uso humano, principalmente se feito por crianças. Além disso, não existem dados que respaldem as afirmações que vem sendo feitas e difundidas sobre seus benefícios.

Tendo em vista que seus filhos são objeto de nossa preocupação, alertamos às famílias que tenham em conta esta informação ao considerar os benefícios propagados em favor deste “tratamento”.

O protocolo

Uma organização chamada Changing Minds Foundation está promovendo um “novo tratamento para a síndrome de Down” que produz resultados “que transformam a vida”. O protocolo inclui doses regulares de Fluoxetina (Prozac), Dexmetilfenidato e Gingko Biloba, Fosfatidilcolina, ‘Body Bio Balanced Oil’ e ácido fólico. Algumas destas substâncias encontram-se associadas a efeitos secundários potencialmente prejudiciais, sendo algumas de particular preocupação no caso das pessoas com síndrome de Down e das crianças menores.

A Fluoxetina (Prozac) é utilizada para tratar a depressão, os transtornos obsessivo-compulsivos, a bulimia nervosa e os transtornos de pânico. O Dexmetilfenidato é utilizado para o tratamento do transtorno de déficit de atenção e hiperatividade. Seu uso deve ser iniciado e controlado por um médico adequadamente qualificado e necessita restringir-se a aplicações e tratamentos que tenham sido formalmente revisados e aprovados pelas agências reguladoras de uso de fármacos tanto de caráter administrativo como médico.

Comprovação de dados sobre efeitos e segurança

Não existem dados científicos que respaldem a utilização dos produtos deste protocolo para as pessoas com síndrome de Down de qualquer idade com o objetivo de melhorar a memória ou qualquer aspecto relacionado às capacidades cognitivas. Assim como tampouco há estudos sobre a segurança de seu uso rotineiro para as pessoas com síndrome de Down.

Os poucos estudos que são citados em apoio a este protocolo são estudos realizados em modelos animais (ratos trissômicos). Estes animais são manipulados para conter cópias-extra de alguns genes, similares aos genes que se encontram no cromossoma 21 humano (as pessoas com síndrome de Down possuem uma cópia adicional deste cromossoma). Estes estudos podem ser, ou não, bons indicadores de alguns aspectos relativos à memória e aprendizagem nas pessoas com síndrome de Down. Porém os estudos com modelos animais não são suficientes para respaldar o uso deste (o de qualquer outro) protocolo em crianças ou adultos com síndrome de Down.

Os vídeos de promoção da Changing Minds Foundation não demonstram os pretendidos benefícios deste protocolo. Mesmo que as pessoas que aparecem neles procurem mostrar-se funcionalmente “bem” e com aptidões bem desenvolvidas, nenhum dos indivíduos chega a fazer nada além do amplo espectro de aptidões que observamos em outros com esta mesma síndrome. As mudanças que se apresentam como benefícios e resultados do “tratamento” poderiam ser o resultado de muitos outros fatores. Assim, somente os estudos realizados em ensaios controlados podem provar com a clareza necessária os efeitos do tratamento proposto.

Progresso científico

A investigação científica melhorou consideravelmente nossa compreensão da síndrome de Down nos últimos 30 anos. Isto é o que ocasionou que atualmente muitas pessoas com síndrome de Down estejam recebendo melhores cuidados médicos e melhores condições de educação. Muitos cientistas e organizações continuam a trabalhar para melhorar nosso conhecimento e compreensão quanto a meios eficazes para melhorar a qualidade de vida das pessoas com síndrome de Down.

Ainda que o ritmo de um maior progresso seja ainda lento e isto possa ser de algum modo frustrante, somente a pesquisa cuidadosa e os ensaios rigorosamente controlados podem oferecer os dados objetivos necessários para demonstrar que uma terapia seja útil e segura.

Mais informação

Ginkgo Biloba

Ainda que se tenha demonstrado que o bilobalide, componente do Ginkgo Biloba, seja um antagonista GABA, sua atividade tem sido provada apenas em células isoladas e em somente um subtipo de receptores GABA. Não foi realizado estudo algum em modelos animais ou seres humanos para estabelecer-se a segurança das doses ou para comprovar os benefícios pretendidos.
http://www.nlm.nih.gov/medlineplus/druginfo/natural/patient-ginkgo.html

Fluoxetina (Prozac)

A ação da fluoxetina sobre o crescimento de novas células nervosas observado em uma parte do cérebro dos modelos animais Ts65Dn não foi ainda replicada em cérebros de seres humanos. Alguns estudos de caso sugerem que medicamentos como o Prozac, quando utilizados durante o período gestacional, podem ser prejudiciais ao feto. É desconhecido seu impacto potencial sobre a mente em desenvolvimento de bebês e crianças pequenas. O aumento geral, ou não controlado, sobre o crescimento de células nervosas não é necessariamente um efeito benéfico, especialmente se realizado duarente longos espaços de tempo.
http://www.nlm.nih.gov/medlineplus/druginfo/meds/a689006.html

Dexmetilfenidato

Deve-se ter especial atenção em relação a utilização de uma medicação estimulante quando administrada a crianças com estruturas cardíacas alteradas, o que ocorre em cerca da metade das crianças com síndrome de Down. Uma vez mais, seu uso não está recomendado para bebês ou crianças muito pequenas.
http://www.nlm.nih.gov/medlineplus/druginfo/meds/a603014.html

Ácido fólico

Tem sido demonstrada que a aplicação suplementar de ácido fólico a bebês e crianças com síndrome de Down não exercem efeito significativo em várias escalas e aspectos do desenvolvimento.
http://www.nlm.nih.gov/medlineplus/druginfo/natural/patient-folate.html
http://www.bmj.com/cgi/content/full/336/7644/594

Utilização ‘off label’ (a margem das prescrições oficialmente adotadas)

As famílias e os profissionais da saúde hão de compreender que a utilização deste protocolo no momento presente é puramente experimental e carece dos benefícios que podem relatar um ensaio clínico controlado. Será responsabilidade do médico que o prescreva vigiar as reações adversas, não havendo niguém que recolha a informação com o fim de determinar os riscos reais do tratamento. Da mesma forma, tampouco os resultados positivos poderiam ser sistematizados com a credibilidade necessária a uma utilização posterior para os profissionais que desejassem analisar o valor efetivo dos tratamentos.

Não estando demonstrada, ainda, a eficácia deste tratamento para as pessoas com síndrome de Down, sabemos que existem importantes riscos de que os resultados de sua aplicação possam resultar nocivos.

Esta declaração é endossada pelos seguintes cientistas e médicos:

  • Roel Borstlap, Paediatrican n.p., Stichting Downsyndroom, The Netherlands.
  • Sue Buckley OBE. Director of Science and Research, Down Syndrome Education International and Emeritus Professor of Developmental Disability, University of Portsmouth, UK.
  • William I Cohen, MD. Developmental-Behavioral Pediatrician, Director, Down Syndrome Center of Western PA Children’s Hospital of Pittsburgh of UPMC, Professor of Pediatrics and Psychiatry, University of Pittsburgh School of Medicine, USA.
  • Sindoor S Desai, BDS, Cleveland, New York, USA.
  • Jesús Flórez, MD, PhD. Professor of Pharmacology, University of Cantabria School of Medicine, Santander, Spain.
  • Sallie Freeman, Ph.D. Professor Emeritus. Down Syndrome Clinic Advisor, Department of Human Genetics, Emory University School of Medicine, Georgia, USA.
  • Edward J Goldson, MD. Pediatrician, The Children’s Hospital, Aurora, Colorado, USA.
  • Lilliam Gonzalez de Pijem, MD. Pediatric Endocrinologist. Puerto Rico Down Syndrome Association, San Juan, Puerto Rico.
  • Joan E Guthrie Medlen, RD, LD. Vice President Down Syndrome Education USA, Director, Disability Compass, Publisher, Phronesis Publishing, Author, The Down Syndrome Nutrition Handbook.
  • Rob Hanson, MD, PhD. Pediatric Cancer and Hematology Center, St. John’s Mercy Medical Center, St. Louis, Missouri, USA.
  • Michael M Harpold, PhD, Chief Executive Officer, Down Syndrome Research and Treatment Foundation, USA.
  • Jacqueline London, Professor of Molecular and Pathological Biochemistry, University Paris-Diderot, Paris, France.
  • Acisclo M Marxuach, MD. Fundación Puertorriqueña Síndrome Down, San Juan, Puerto Rico.
  • Philip J Mattheis, MD. Associate Professor, Cincinnati Children’s Hospital Medical Center, Ohio, USA.
  • William C Mobley MD, PhD. Professor, Department of Neurology and Neurological Sciences and Director, Center for Research and Treatment of Down Syndrome, Stanford University, California, USA.
  • David Patterson, PhD. Professor, Department of Biological Sciences, Eleanor Roosevelt Insitute, University of Denver, Colorado, USA.
  • Alberto Rasore-Quartino, Professor, Unit of Neonatology, Galliera Hospital, Genoa, Italy.
  • David S Smith, MD. Program Director, Down Syndrome Clinic of Wisconsin Children’s Hospital, Wisconsin, USA.
  • Dr Renaud Touraine, CHU-Hôpital Nord, Service de Génétique, Saint Etienne, France
  • Jeannie Visootsak, MD, FAAP. Assistant Professor, Developmental-Behavioral Pediatrics, Department of Human Genetics & Pediatrics, Emory University School of Medicine, Georgia, USA.
  • Patricia White, MD, Chair, Board of Directors, Down Syndrome Research and Treatment Foundation, USA.

Esta declaração é endossada pela seguintes organizações internacionais:

  • Association Française pour la Recherche sur la Trisomie 21, France.
  • Association of Parents and Friends for Children with Down Syndrome. Prague. Czech Republic.
  • Deutsches Down-Syndrom InfoCenter, Hammerhöhe, Lauf, Germany.
  • Down Syndrome Education International.
  • Down Syndrome Education USA.
  • Down Syndrome International
  • Down Syndrome New South Wales, Australia.
  • Down Syndrome Research and Treatment Foubdations, USA.
  • European Down Syndrome Association.
  • Fundación Iberoamericana Down21, Spain.
  • Fundación Síndrome de Down de Cantabria, Spain.
  • National Down Syndrome Congress, USA.
  • Stichting Downsyndroom, The Netherlands.
  • Trisomie 21, France.

Retransmissão desta declaração (e respectiva tradução para o português)

A presente declaração em seu original em inglês ‘The use of Ginkgo, Prozac and Focalin as a “treatment” for Down syndrome’ está protegida sob a licença de uso ‘Creative Commons Attribution-No Derivative Works 3.0 Unported License’  (http://creativecommons.org/licenses/by-nd/3.0/).

Em resumo, significa que se pode compartilhar, distribuir e retransmitir a declaração, desde que seu conteúdo não seja alterado. Para sua reutilização ou distribuição, devem ficar claras estas condições.

* A versão em espanhol traduziu como “Fundación para el Cambio de las Mentes”

+ informações

Original em inglês:
http://www.down-syndrome.org/statements/2106/

Assista abaixo os vídeos da Changing Minds Foundation no YouTube
http://www.youtube.com/watch?v=Zd8Q_3jmTUE
http://www.youtube.com/watch?v=M_vHGmPUhQ0
http://www.youtube.com/watch?v=FzKbalIqROY