por Leonardo em Em Trânsito

Vida fácil para quem?

Na primeira (e única) vez em que fui a uma reunião do Fórum LGBT de Pernambuco, lembro de um fato ter-me causado certo estranhamento. Chegando ao local acompanhado de uns veteranos, já havia uma pessoa lá. Uma mulher de seus 40 e poucos anos sentada, esperando. Um colega falou bem alto, gesticulando com os braços: “Tem puta aqui, tem?” – num cumprimento bem humorado.

Automaticamente pensei: “Prostitutas? Profissionais do sexo?” – e sim, era sim. Minhas suspeitas tornaram-se verdadeiras e passei boa parte da reunião pensando no porquê de uma ong de profissionais do sexo estar dentro do Fórum. De certa forma faz sentido. “Diversidade sexual” também inclui diferentes formas de lidar com a sexualidade, inclusive comercializando. E, de alguma forma, os profissionais do sexo dentro do meio LGBT também precisam da realização de políticas públicas.

Sauna lésbica não tem. Mas gay tem e é muito comum. Onde os “boys” se prostituem a quem pagar pelo serviço. Outro caso, o das travestis. Ninguém nunca viu uma travesti atendendo numa loja de shopping, ou como secretária ou como gerente de alguma coisa. Ninguém lhes dá emprego, acabam partindo para o caminho da prostituição. E a grande maioria das travestis se prostituem. Desta forma os profissionais do sexo estão dentro da comunidade LGBT e precisam de apoio.

Apoio? É. Já perceberam que a atividade funcional relacionada ao sexo não se faz somente porque precisa? Tem gente que gosta, tem jeito para a coisa e faz porque quer? E mais: não é que tem muita gente por aí que acha mesmo que vida de prostituita é vida fácil? Fácil transar com um desconhecido e ter de estar apto ao sexo todo santo dia que precisar de dinheiro? Fácil correr o risco de pegar doenças ou sofrer maus tratos, algum tipo de violência? Uma profissão que não é regularizada (não completamente), não tem FGTS, décimo terceiro, férias? Não parece nem um pouco fácil, verdadeiramente.

A prostituição é uma das profissões mais antigas existentes e provavelmente ainda a vemos como algo sujo, imoral por conta de nossa cultura cristã. Sexo é sujo, logo se prostituir também é sujo. Há quem diga: “mas não se vende o próprio corpo, é sagrado, isso é errado”. Eu pergunto: e um ator ou atriz que está vendendo seus momentos e emoções para fazer uma cena? E o psicólogo que vende sua capacidade de compreensão e um pouco da sua alma (sim, porque é necessário sentir o paciente)? Um massagista que vende seus movimentos manuais para os outros? Cada trabalhador vende um pedaço da sua rotina, da sua pessoalidade, da sua paz até. Todas estas coisas intrínsecas ao indivíduo e, sagradas ou não, são vendidas em troca do pagamento do fim do mês.

Pior seria, não restam dúvidas quanto a isso, se estivessem roubando, matando, cometendo crimes, causando prejuízos à sociedade. Mas a realidade é de exclusão social, desvalorização. Bruna Surfistinha e Alexandre Frota são casos incomuns, a grande maioria deles são marginalizados, sofrem preconceito. Daí haver tanta gente que não se valoriza nesse meio profissional, é quase que um processo automático. Apesar de que são seres humanos iguais, com aspirações, pensamentos, gostos, sentimentos, que assistem novela, escutam música, saem pra dançar e beber como todo mundo.

Termina a reunião naquele dia e me apresentam à senhora sentada lá desde o início: “Muito prazer, eu sou a representante das putas, viu?!”, e estende a mão para um cumprimento. Respondo, apertando-lhe a mão: “Foi, eu percebi que a senhora é…” – e provoco reação imediata naquela pessoa tão simpática: “Senhora?! Aí é foda, né… Me chame Nanci mesmo!”. E dei um sorriso. Ficou Nanci. Independente da cultura, do jeito de ser, do tipo de profissão, acima de tudo é um ser humano. E digno de respeito.
_______________________

Fonte: Portal Parada Lésbica