por Fábio Adiron e Marco Antonio Queiroz

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Quando alguém diz para uma pessoa que enxerga que “você é cego?” ou “você está cego?” o que esta pessoa está querendo dizer que não possa atingir um cego de verdade ? Se chama um ouvinte de surdo, isso por acaso é um elogio à causa das pessoas surdas de fato ? Quando um moleque chama outro de retardado ou de mongolóide é uma prova de carinho pelo amigo ?

O uso desses termos, substantivos quando se referem às pessoas com deficiência, como adjetivos para se referir às pessoas que não o são, implica em perpetuar um preconceito histórico e cultural. Parte-se do princípio que a deficiência de alguns é algo que tem um efeito de propagação em toda a sua personalidade.Cego vira sinônimo de alienação, ignorância, falta de percepção, falta de luz. Surdez se transforma em símbolo de desatenção, de pouco caso. Retardo é a mesma coisa que estupidez, infantilidade, burrice

Sendo assim, estamos, cada qual com sua deficiência, levando com ela o peso histórico do pensamento coletivo e fantasioso do que cada deficiência implica. As pessoas, em geral, pensam que a pessoa com deficiência, por não poder realizar determinadas ações, é uma pessoa alienada, sem cultura, incapaz de tudo, por vezes até de pensar!

Não existe a desculpa de ser carinhoso, complacente ou misericordioso. Isso só perpetua a idéia negativa e equivocada que a deficiência traz às pessoas que realmente as possui.

Eu convivo com várias pessoas com deficiência, a começar do meu filho, continuando por uma coleção de bons amigos que encontrei no movimento de defesa dos direitos das pessoas com deficiência, o MAQ, meu colega de autoria desse texto, é um deles. Todos tem qualidade e defeitos como pessoas mas, certamente, não são alienados.

Usar as palavras que definem as deficiências como adjetivos sempre estará ligado a algo negativo e não somente a uma característica pessoal. Pessoas que querem como eu e você, com suas deficiências e características específicas, serem eles mesmos e aceitos, amados, incluidos e nunca “en passant”, mas para sempre.

A má utilização das palavras torna-se tão natural e comum que” en passant” não é percebida ou levada a mal, acostuma-se. Entretanto, o sentido que elas carregam não se perde, é o mesmo, é o significado das palavras, não tem jeito.

Algumas pessoas sempre vão achar que isso tudo é apenas um blá-blá-blá “politicamente correto” e que as pessoas com deficiência que se sentem atingidas estão apenas sendo chatas ou suscetíveis. O que não podemos esquecer é que as palavras constróem comportamentos. Qualquer discurso sempre é intencional,conforme a função que desempenha e, nesses casos, sempre tem a função de desmerecer alguém.

Não há contexto que justifique esse tipo de fala, exceto o de diminuir as pessoas com deficiência, como se fossem seres humanos de qualidade inferior.

O MAQ tem uma prática, ao mesmo tempo irônica e educativa. Quando alguém fala “Diz ao ceguinho ao seu lado que o laço de seu sapato está solto”. Ele responde pela pessoa que o está acompanhando: “diz para a pessoinha à nossa frente que o cegão aqui agradece”.

Se você prestar um pouco mais de atenção nas suas falas, todos nós agradeceremos.

Esse é mais um texto escrito em parceria com o MAQ (Marco Antonio Queiroz), da Bengala Legal e do Acessibilidade Legal, sobre o pseudodiscurso da generalização da deficiência.