MARA SARTORETTO, Consultora da Federação Brasileira das Associações de Síndrome de Down e Diretora do Centro da AFAD, DE Cachoeira do Sul, RS

Existe em grego uma palavra que significa a possibilidade de ver e analisar uma figura de todos os seus lados, sob todos os seus ângulos. A palavra é épora. Esse termo está sendo usado para definir a concepção essencial da inclusão escolar, isto é, a possibilidade de que a escola não esgota sua tarefa na mera transmissão de informações.

A primeira evidência que surge desse modo de ver a escola, desse tipo de análise, é o fato de muito além. Mais do que nunca, torna-se claro que é necessário uma educação voltada para os valores humanos, uma educação que permita a transformação da sociedade, uma escola que acredite nas diferentes possibilidades e nos diferentes caminhos que cada um traça para a sua aprendizagem, que possibilite a convivência e o reconhecimento do outro em todas as suas dimensões.

Muitos argumentos, porém,são utilizados para combater os que lutam pela inclusão escolar, acusados, inclusive, de irresponsabilidade.

Se consultarmos o dicionário, verificamos que a palavra incluir significa compreender, abranger, fazer, parte, pertencer, processo que pressupõe, necessariamente e antes de mais nada, uma grande dose de respeito. A inclusão só é possível lá onde houver respeito à diferença e, conseqüentemente, a adoção de práticas pedagógicas que permitam às pessoas com deficiências aprender e ter reconhecidos e valorizados os conhecimentos que são capazes de produzir, segundo e na medida de suas potencialidades. Qualquer procedimento, pedagógico ou legal, que não tenha como pressuposto o respeito à diferença e a valorização de todas as possibilidades da pessoa deficiente, não é inclusão.

Sabemos que o processo de transformação da escola comum é lento e exige uma ruptura com o modelo que está presente nas práticas pedagógicas vigentes. Mas sabemos também que em muitas escolas especiais os alunos lutam para aprender as mesmas coisas que as escolas comuns tentam lhes ensinar,por tempo indefinido e indeterminado, sem que esses conhecimentos lhes possibilitem construir habilidades e competências para a vida.

Se acreditamos que o papel da escola é construir cidadania através do acesso ao conhecimento, isto só será possível se dentro da escola tivermos uma verdadeira representação do grupo social que está fora da escola: pessoas com diferentes credos, de raças diferentes, com saberes diferentes, pessoas sem deficiência (existem?) e pessoas com deficiências. A experiência de conviver com a diversidade, tão necessária para a vida, nunca será exercida num ambiente educacional segregado. As escolas especiais têm um papel muito importante a cumprir. Pedagogicamente – e constitucionalmente! – elas existem para oferecer atendimento educacional especializado, e não educação especial. E o atendimento educacional especializado tem por escopo garantir aos alunos com deficiências especiais a possibilidade de aprenderem o que é diferente do ensino comum e aquelas habilidades de que eles necessitam para poderem ultrapassar as barreiras impostas pela deficiência.

Mas, para que o processo de inclusão realmente aconteça, precisamos abandonar o comodismo decorrente das nossas práticas homogeneizadoras, meritocráticas, paternalistas e corporativistas, sobretudo, e particularmente, quando trabalhamos com pessoas com deficiência mental.

Como bem diz a Profa. Maria Teresa Mantoan,”resistimos à inclusão escolar porque ela nos faz lembrar que temos uma dívida a saldar em relação aos alunos que excluímos, por motivos muitas vezes banais e inconsistentes, apoiados por uma organização pedagógica escolar que se destina a alunos ideais, padronizados por uma concepção de normalidade e de deficiência arbitrariamente definida.

Alunos com e sem deficiência são excluídos da escola há muito tempo, sem que mudanças efetivas sejam adotadas para resolver esse problema. As medidas até agora implantadas não passaram de paliativos.

Agora, porém, são os alunos com deficiência que freqüentam as escolas comuns que estão impondo a nós professores uma reflexão mais séria acerca da nossa concepção de escola e das nossas práticas pedagógicas. E já existem, no país todo, tanto em escolas comuns quanto em escolas especiais, inúmeras experiências bem sucedidas de pessoas e entidades, que, com responsabilidade, sem oba-oba e com fundamentação científica sólida, estão abrindo o caminho da educação inclusiva e eliminando as velhas e bolorentas práticas excludentes.

Há muitas escolas regulares que abriram as suas portas para alunos com deficiências especiais e tentam, seriamente, fazer uma escola de qualidade, com respeito a todos os alunos, deficientes ou não. E há também muitas escolas especiais que optaram por atender seus alunos no turno oposto ao que freqüentam na escola comum, com resultados altamente positivos.

O argumento do despreparo dos professores não pode continuar sendo álibi para impedir a inclusão escolar de pessoas com deficiências. Se não estamos preparados, precisamos urgentemente nos preparar. E uma verdadeira preparação começa com a possibilidade e pelo desafio de acolher as diferenças na sala de aula e pela busca de novas respostas educacionais. Nesse processo, a responsabilidade é de todos – pais, diretores, supervisores, orientadores educacionais, professores, alunos – e, principalmente,das autoridades, responsáveis pela definição e implementação das políticas educacionais.

Discutir e propor alternativas para a consolidação de uma escola inclusiva é direito e dever de todos os que acreditam que a escola é o local privilegiado, e muitas vezes único, onde,de fato, os sujeitos de sua própria educação, quaisquer que sejam as suas limitações, podem fazer a experiência fundamental, e absolutamente necessária, da cidadania, em toda a sua plenitude.