Josiane Mayr Bibas e Maria Izabel Valente

Quando se fala em avaliação, devemos pensar em dois momentos distintos:

avaliação inicial: delineia o perfil de aprendizagem do aluno

avaliação durante o processo de ensino-aprendizagem

  1. Avaliação inicial:

Avaliação realizada no início do ano letivo pela professora do ensino regular, contando com a cooperação da família e dos outros profissionais envolvidos com a criança. Ao professor cabe identificar as Necessidades Educacionais Especiais (NEEs) de seu aluno, pela sua proximidade e por ser o mediador e organizador de sua aprendizagem.

A participação dos pais traz dados de realidade vivenciados pela criança em outros âmbitos, que contribuem para traçar um perfil pautado em suas competências, mais que em ineficiências. Pais que participam do processo compreendem melhor as necessidades do filho e os objetivos educacionais do professor, e tomam consciência da importância de seu papel e de sua capacidade de expandir os conhecimentos trazidos da escola.

O parecer dos profissionais que fazem o suporte educacional ou terapêutico da criança também deve fazer parte da avaliação inicial.

Uma minuciosa observação das habilidades e dificuldades do aluno com NEEs vai possibilitar a construção de objetivos de aprendizagem a serem alcançados, entrelaçando informações, metas e prioridades, baseados no currículo da série em questão. Nesta reflexão, novos critérios são levantados, de acordo com a dificuldade de cada criança (por exemplo, a criança com baixo nível de atenção, terá o tempo de permanência em atividades definido como critério, e portanto como índice de aprendizagem), e de suas competências (se ela ainda não sabe ler, mas se interessa muito por histórias, por exemplo).

A definição das NEEs possibilita conceber um projeto educativo de uma maneira aberta e flexível, como um instrumento para promover o desenvolvimento do aluno. Deve ser adaptado às suas características – educacionais, sociais, culturais – bem como ser referência para suas diversidades, capacidades e dificuldades. O currículo tem de ser um instrumento verdadeiramente útil, que responda à inevitável diversidade dos alunos, quanto ao interesse, ritmo de aprendizagem e experiências anteriores.

A definição das competências do aluno deverá ser mais importante que a definição de suas limitações, pois é partindo do que se sabe que chegamos ao que não se sabe. Exemplos de estratégias adaptativas:

  • mudança da temporalidade dos objetivos, conteúdos e critérios de avaliação: considerar que o aluno com NEEs pode alcançar os objetivos comuns ao grupo, mas pode requerer um período maior de tempo.

  • priorizar objetivos, conteúdos e critérios de avaliação, para dar ênfase aos objetivos que contemplem as altas habilidades do aluno, suas condutas típicas e suas dificuldades. Essa priorização não implica abandonar os objetivos definidos para seu grupo, mas acrescentar outros, concernentes com suas NEEs.Os critérios de priorização são o significado dos conteúdos, se são básicos, fundamentais e pré-requisitos para aprendizagens posteriores.

  • prevalência da tendência a promover o aluno, e não a dificultar seu percurso. Para alcançar este objetivo, é importante dar mais valor às competências que às dificuldades, às conquistas que aos prejuízos, tendo como parâmetro seus próprios ganhos em relação a si mesmo.

A avaliação inicial é investigativa e leva à determinação dos objetivos, conteúdos, estratégias e condutas para cada aluno. Mas, ao mesmo tempo, tem caráter altamente dinâmico, uma vez que pode e deve ser constantemente revista e modificada. A partir desta avaliação inicial o professor terá um parecer real e individualizado de seu aluno bem como os parâmetros necessários para identificar seus avanços.

B) Avaliação no processo ensino-aprendizagem :

A avaliação do desenvolvimento dos alunos também muda para ser coerente com as demais inovações propostas. O processo ideal é o que acompanha o percurso de cada estudante, do ponto de vista da evolução de suas competências, habilidades e conhecimentos. A meta é mobilizar e aplicar conteúdos acadêmicos e outros meios que possam ser úteis para se chegar a realizar tarefas e alcançar os resultados pretendidos pelo aluno. Apreciam-se os seus progressos na organização dos estudos, no tratamento das informações e na participação na vida social.

Desse modo, muda-se o caráter da avaliação que, usualmente, se pratica nas escolas e que tem fins meramente classificatórios. Para alcançar sua nova finalidade, a avaliação terá, necessariamente, de ser dinâmica e contínua, mapeando o processo de aprendizagem dos alunos em seus retrocessos e progressos.

Vários são os instrumentos que podem ser utilizados para avaliar, de modo dinâmico, os caminhos da aprendizagem, como: os registros e anotações diárias do professor, os chamados portfólios e demais arquivos de atividades dos alunos e os diários de classe, em que vão sendo colecionadas as impressões sobre o cotidiano do ensino e da aprendizagem. As provas também constituem opções de avaliação desejáveis, desde que haja o objetivo de analisar, junto aos alunos e seus pais, os sucessos e as dificuldades escolares.

É importante também que os alunos se auto-avaliem e nesse sentido o professor precisa criar instrumentos que os exercitem/auxiliem a adquirir o hábito de refletir sobre as ações que realizam na escola e como estão vivenciando a experiência de aprender.

Para ensinar a turma toda, parte-se da certeza de que as crianças sempre sabem alguma coisa, de que todo educando pode aprender, mas no tempo e do jeito que lhe são próprios. É fundamental que o professor nutra uma elevada expectativa pelo aluno. O sucesso da aprendizagem está em explorar talentos, atualizar possibilidades, desenvolver predisposições naturais de cada aluno.

As dificuldades e limitações precisam ser reconhecidas, mas não devem conduzir ou restringir o processo de ensino, como habitualmente acontece.

Independentemente das diferenças de cada um dos alunos, temos de passar de um ensino transmissivo para uma pedagogia ativa, dialógica e interativa, que se contrapõe a toda e qualquer visão unidirecional, de transferência unitária, individualizada e hierárquica do saber.

O professor deixa de ser um palestrante. Para ensinar a turma toda, o professor partilha com seus alunos a construção/autoria dos conhecimentos produzidos em uma aula, restringindo o uso do ensino expositivo. Em sua sala de aula os alunos passam a interagir e a construir ativamente conceitos, valores e atitudes.

Esse professor arranja e explora os espaços educacionais com seus alunos, buscando perceber o que cada um deles consegue apreender do que está sendo estudado e como procedem ao avançar nessa exploração.

Certamente um professor que engendra e participa da caminhada do saber com seus alunos, como nos ensinou Paulo Freire (1978), consegue entender melhor as possibilidades e dificuldades de cada um e provocar a construção do conhecimento com maior adequação.

O professor, neste contexto, não procurará eliminar as diferenças em favor de uma suposta igualdade do alunado. Antes, estará atento à singularidade das vozes que compõem a turma, promovendo a exposição das idéias e contrapondo-as todo tempo, provocando posições críticas e enfrentamentos próprios de um ensino democrático.

Sem estabelecer uma referência, sem buscar o consenso, mas investindo nas diferenças e na riqueza de um ambiente que confronta significados, desejos e experiências, o professor garante a liberdade e a diversidade das opiniões dos alunos. Ele deverá propiciar oportunidades para o aluno aprender a partir do que sabe e chegar até onde for capaz de progredir. Aprendemos quando resolvemos nossas dúvidas, superamos nossas incertezas e satisfazemos nossa curiosidade.

Algumas dúvidas freqüentes:

São válidas as retenções entre um ciclo e outro, ou entre uma série e outra, para quem não alcançou notas mínimas?

O simples fato de existir avaliações, em que uma nota mínima é exigida para a promoção, já reflete que a escola continua adotando padrões conservadores de avaliação. Isto porque a nota mínima representa a intenção que alguma padronização é necessária naquela escola e um rendimento mínimo é esperado de todos os alunos. Nesse momento, começam as exclusões e não apenas de crianças com deficiência.

Assim, as avaliações com o fim de reter o aluno devem ser repensadas pelos sistemas de ensino, pois deveriam refletir as habilidades alcançadas para o aluno seguir em frente, e não o contrário.

Para seguir em frente, o aluno precisa encontrar sempre práticas de ensino adequadas à diversidade. Por outro lado, ainda que não se altere o sistema de avaliação, é indispensável que mude o olhar do professor ao corrigir as provas, levando sempre em conta as peculiaridades de cada criança que compõe a sua turma.

Mas não é importante que um mínimo de aprendizado seja exigido para se passar adiante?

É necessário que se espere o máximo de aprendizado dos conteúdos curriculares ministrados, mas com respeito às limitações naturais de todos os alunos. A forma tradicional de se fazer avaliações não leva em conta esses limites e faz com que a criança fique retida porque não aprendeu certos conteúdos. A experiência demonstra que não é a repetência que vai fazer com que o aluno aprenda, mas sim o estímulo contínuo e a valorização de suas potencialidades. Cada série/ciclo é uma nova oportunidade de aprendizado e deve oferecer os conteúdos de forma rica e plural, para que todos os alunos se identifiquem e aprendam a seu modo.

Referências Bibliográficas:

– O Acesso de Alunos com Deficiência às Escolas e Classes Comuns da Rede Regular/ Ministério Público Federal -Eugênia Augusta Gonzaga Fávero, Luisa de Marillac P. Pantoja, Maria Teresa Eglér Mantoan/2004

– Parâmetros Curriculares Nacionais / Documento Avaliação na Educação Especial

– Necessidades Educacionais Especiais – Como Avaliá-las? – Sahda Marta Ide/2001

– Atuando em Contexto: O Processo de Avaliação numa Perspectiva Inclusiva – Denise Meyrelles de Jesus/2004