Por Lucio Carvalho

Às vezes, muitas vezes, quando conheço pessoalmente escolas ou iniciativas educacionais “inclusivas”, tenho uma sensação estranha e até certo ponto repetitiva. É como se estivesse sendo jogado numa sala de espelhos. E, ali, apresentado a uma suposta realidade, posso conhecer apenas uma imagem distorcida que me desejam mostrar.

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É mais ou menos um jogo de aparências a proposta de um acerto (que não tem nada de pedagógico) no qual os papeis educacionais são redistribuídos de forma a silenciar as demandas excludentes mais graves e tornar ao menos funcional a dinâmica escolar tradicional atropelada pelo trem da história e pelas demandas sociais contemporâneas.

Na verdade, muitas das vantagens apresentadas são soluções extraídas como minério de uma furna, isto é, estão muito longe de compor um projeto pedagógico consistente. Talvez a cultura brasileira, marcada por uma aparentemente inesgotável criatividade, tenha mesmo transformado a ação pedagógica num laboratório de boas improvisações e boa vontade. Pensar além disso é, como boa parte da clientela inclusiva sabe bem, muitas vezes um devaneio inútil.

Tais soluções, em sua maioria, residem na mera transposição para o ambiente “inclusivo” de práticas consagradas justamente nas escolas especiais. Grupos de pais formados exclusivamente por familiares de alunos “de inclusão” (neste grupo cabem não apenas crianças com deficiência, mas inúmeras outras desadaptadas ou em processo de diagnóstico) são divulgados como ilhas de redenção. Salas de reforço pedagógico sem as menores condições de acessibilidade e recursos desconexos são a praxe nestes estabelecimentos. E, para não dizer que não há sinal de inovações, realmente estou sendo injusto. Também as há: boa parte delas dizem respeito à profusão disfuncional de burocracia “inclusiva”, via de regra desencavada da mentalidade de gestores, professores e uma gama indistinguível (e ainda à margem da lei) de auxiliares e profissionais contratados pelas próprias famílias.

Se é difícil muitas vezes organizar uma conversa com consequências nestes ambientes e encontros, que dirá então organizar um ano letivo?

Bem, diante da promessa de uma vaga entre os alunos (afinal o fantasma da recusa de matrícula, apesar dos pesares, não foi completamente debelado deste universo) e do empenho subjetivo (e real, não estou acusando absolutamente a ninguém de fingimento) das partes, é hora de preparar a mochila, os estados de espírito e o material escolar.

O carnaval passou, as férias acabaram, mas, como diz poema de Drummond, a vida não se perdeu.

Bora lá.

PS: Em 2018 completa-se a primeira década de vigência da “Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva”. Não é uma boa data para colocar na mesa um balanço honesto dos avanços, dificuldades e realidades (principalmente estas, porque de propaganda todo mundo já está cheio) deste projeto, inclusive dando voz aos seus clientes e beneficiários (para não ficar só – como quase sempre – pela versão dos burocratas e experts)?