A atriz Joana Mocarzel, num ba;lanço, ao lado de Regina Duarte.

Nínguém tem dúvida de que as imagens que vemos diariamente na mídia são responsáveis pela construção de conceitos e têm relação direta com a atitude das pessoas. Tampouco que a representação de personagens na mídia não é um retrato fiel da população brasileira. É fácil ver, por exemplo, que os mais da metade de negros e pardos contados pelo IBGE no Censo populacional não correspondem ao mesmo número de atores afro-descendentes presentes em novelas, filmes e na publicidade.

Visivelmente essa situação vem mudando de uns tempos para cá, a partir da cobrança de grupos que são subrepresentados na mídia e um reconhecido esforço por parte de vários autores, produtores e exibidores para incluir maior diversidade, especialmente no audiovisual. Na série brasileira produzida para o Netflix, 3%, dirigida por Cesar Charlone,há quase tantos atores negros quanto brancos, além de personagem com deficiência e mulheres em posições de liderança. Mas isso só não é suficiente – os números ainda são muito baixos e muitos personagens tendem reforçar estereótipos pré-concebidos, o que, para a construção da imagem muitas vezes é pior do que se não existissem.

Há décadas as novelas brasileiras abordam causas sociais. Já houve várias representações de casais homossexuais, pessoas com deficiência, personagens soropositivos, entre muitos outros incluídos nas tramas vistas diariamente por milhões de brasileiros. Um bom exemplo do avanço foi o beijo gay, do primeiro selinho, em Mulheres Apaixonadas, em 2003, de Manoel Carlos, ao beijo apaixonado da novela Liberdade, Liberdade, de Mario Teixeira, exibida no ano passado.

Outro marco foi a novela Páginas da Vida, também de Manoel Carlos, onde pela primeira vez uma atriz com deficiência foi uma das personagens principais. A presença de Clarinha, vivida por Joana Mocarzel, que tem síndrome de Down, na novela, trouxe a questão do direito à inclusão escolar para o grande público. Especialistas acreditam que a visibilidade dada ao assunto teve papel fundamental para promover a inserção de alunos com deficiência em escolas regulares. Exibida em 2006, a novela alcançou mais de 50 pontos no IBOPE, chegando às casas de milhões de pessoas, e ainda foi vendida para outros 90 países, levando a onda da inclusão ainda mais longe.

O impacto de enredos como estes pode ser poderoso. Positiva ou negativamente. A abordagem que os autores dão aos personagem viram discussão na mesa de jantar,no trabalho, na escola. Mas a vida não é feita apenas de temas polêmicos. “A diversidade é parte de nosso cotidiano, mas ela não aparece nas telas. Ou aparece muito pouco e de forma estereotipada”, diz a jornalista Patricia Almeida, ativista do movimento pelos direitos das pessoas com deficiência e criadora da GADIM Brasil – Aliança Global para Inclusão das Pessoas com Deficiência na Mídia e no Entretenimento.

Mãe de uma menina com síndrome de Down, há anos ela observa a presença de pessoas com deficiência em novelas e na publicidade. Ela defende que as pessoas estejam representadas na mídia na mesma proporção em que estão presentes na população. Para Patricia, caso “pessoas de verdade” estivessem presentes com maior naturalidade nas imagens que consumimos no dia a dia, isso ajudaria a formar uma cultura de maior entendimento e respeito às diferenças. “É natural que você estranhe o que não conhece, e se a novela é um retrato da sociedade, que seja um retrato mais fiel.”, diz ela.

Na opinião da jornalista, a mídia, especialmente a dramaturgia, tem em suas mãos uma ferramenta poderosa. “Se você retrata um homem negro como executivo de multinacional, uma pessoa com deficiência intelectual usando o caixa automático de um banco, uma mulher como comandante de um navio ou uma família homoafetiva fazendo piquenique, você está mandando mensagens visuais que vão ficar registradas na mente dos espectadores, ajudando a formar um imaginário mais inclusivo de todas as pessoas. Esses temas viram discussão e isso é tudo o que precisamos para combater o preconceito – falar sobre isso”.  A jornalista afirma que o poder dessas imagens inclusivas vão mais além : “é fundamental que as próprias pessoas dos grupos subrepresentados se reconheçam nas representações midiáticas. Isso ajuda a melhorar a auto-estima e dá esperança de que cheguem a lugares que antes não poderiam imaginar. É comum as pessoas pensarem – se essa pessoa parecida comigo conseguiu, eu também posso”.

No ano passado ela lançou a ideia de uma iniciativa global para promover a presença de pessoas com deficiência na mídia no Forum Social da ONU, a GADIM, no Conselho dos Direitos Humanos em Genebra, que foi muito bem recebida. “Fiquei feliz com a repercussão, mas uma coisa sempre me incomodava, porque sei que a invisibilidade prejudica vários outros grupos discriminados. Então pensei, se vamos lutar por isso, porque não fazermos todos juntos?”.

A ativista, que faz mestrado em Estudos da Deficiência na City University of New York, decidiu então procurar pessoas interessadas em mídia de outros movimentos sociais para propor medidas que pudessem acelerar o processo de inclusão. “Podemos chamar de ação afirmativa, incentivo, indução do politicamente correto, mas o fato é que esse tipo de iniciativa não custa nada e geralmente é recebida com muita simpatia pelos criadores”, afirma.

Para começar o processo, ela sugeriu que o grupo criasse um observatório que realizasse o monitoramento de personagens nas novelas da TV aberta com o objetivo de publicar um relatório que mostrasse os números da diversidade. Surgiu o ODIMÍDIA, Observatório da Diversidade na Mídia. “Em minhas pesquisas conheci o GLAAD que promove um levantamento dos personagens LGBT na TV americana desde 2005 e nos últimos anos passou também a contabilizar personagens de outras minorias. Já entramos em contato com os responsáveis que se prontificaram a colaborar conosco neste projeto.”

O primeiro relatório será o ODIMÍDIA Novelas, previsto para ser divulgado no final de 2017, mas a ideia é também monitorar outras formas de mídia como séries, filmes, notícias, programas de tv, publicidade, youtubers, literatura, livros infantis, animações, redes sociais, etc.

O Observatório, que é uma iniciativa apartidária e voluntária, será abrigado no site da agência de notícias Inclusive – Inclusão e Cidadania. Os organizadores convidam outros colaboradores interessados em inclusão através da mídia a participarem do projeto. Contatos pelo email: inclusive@inclusive.org.br

odimidia

Observatório da Diversidade na Mídia – ODIMIDIA

Missão: Promover levantamentos anuais quantitativos e qualitativos da representação da diversidade humana na mídia brasileira para identificar personagens de grupos subrepresentados, considerando a intersecção de múltiplas identidades.

Objetivo: Produzir um retrato da representação da diversidade humana na produção midiática brasileira de modo a mobilizar criadores, patrocinadores e exibidores para promoção de ações e parcerias visando aumentar e melhorar essa representação, de forma mais realista e igualitária, reforçando o combate à discriminação e promovendo uma cultura inclusiva na sociedade.

Fonte: Inclusive – Inclusão e Cidadania

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