varias pessoas em uma sala, algumas de pe, outras sentadas no chao, com banners da abraça e do I encontro de pessoas autistas.

Por Argemiro de Paula Garcia Filho

Mariene Martins Maciel

Gabriel Maciel de Paula Garcia

O EBA aconteceu em Fortaleza, entre os dias 22 e 24 de setembro de 2016, no Hotel Praia Centro.

Participamos do Encontro Mariene, Argemiro e Gabriel, nosso filho autista de 23 anos. Chegamos na véspera, dia 21, para Gabriel se adaptar. Gabriel tinha uma certa dificuldade de se situar como pessoa autista, por se perceber diferente da maioria das pessoas com quem convive, em especial por causa da sua dificuldade de se expressar e do estranhamento que percebe nelas. Como é bom leitor, percebeu os cartazes que divulgavam o Encontro e mostrou uma certa expectativa.

No dia 22, convidamos Gabriel para descer ao salão, e ele nos acompanhou. Oferecemos a ele para colocar um crachá e perguntamos que nome preferia, se Gabriel Maciel ou Gabriel Garcia – ele optou pela primeira alternativa. Como de hábito, ele olhava para as pessoas e, depois de receber o nosso “sinal verde”, perguntava seu nome, recebendo boa acolhida. Logo, dispensou nossa intervenção e passou ele mesmo a perguntar a todos:

– “Qual é seu nome?” – respondendo, a cada pessoa,

– “O seu é Gabriel.” Mostrava o crachá e repetia: – “Gabriel Maciel!”

Havia apresentações de obras feitas por pessoas autistas em várias formas de expressão: escultura (Obi Almeida), desenho (Mateus Gonçalves, Carolina Monteiro, Fernanda Sazuki), fotografia (Leonardo Gonçalves) e história em quadrinhos (Fúlvio Pacheco), literatura: (Alexandre Braga, Cristiano Camargo e Victor Mendonça), artesenato (Wilson Marx).

Na mesa de abertura, se fizeram presentes Ana Lucia Arellano (Equador), Presidente da Rede Latino-Americana de Organizações não Governamentais das Pessoas com Deficiência e suas Famílias – RIADIS; Fernanda Santana (PR), estudante de arquitetura autista; Mariene Martins Maciel (BA), jornalista, psicopedagoga e mãe; Renato Roseno (CE), deputado estadual pelo PSOL e presidente da Comissão de Direitos Humanos da Assembléia Legislativa; Alexandre Mapurunga (CE), Presidente da ABRAÇA; Fátima Dourado (CE), Presidente da Casa da Esperança; Glauciane Costa Santana, da Federação Brasileira das Associações de Síndrome de Down, representando o CONADE – Conselho Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência – e Marileide Luz presidente do Conselho Estadual de Direitos Humanos do Ceará.

Alexandre saudou a todos na figura da Dra. Fátima, e lembrou que os idealizadores do EBA foram Gustavo Medeiros, jornalista autista baiano que, infelizmente, não pôde omcparecer, e Mariene Martins Maciel, jornalista e mãe do jovem autista Gabriel, presente na mesa. Alexandre salientou que as pessoas autistas, como pessoas que são, têm direitos humanos inalienáveis. O autista faz parte da diversidade humana e, sendo assim, devem ser reconhecidos como uma riqueza da Humanidade. Ao se negar às pessoas participarem e serem protagonistas de suas vidas, se estará negando parte da riqueza do Mundo.

A abertura do EBA se encerrou com uma saudação da Presidente RIADIS, Ana Lucia Arellano, e uma intervenção de Eric Lucas, autista francês, que narrou sua história e de como, após o diagnóstico, dado na sua idade adulta, e uma internação compulsória por cerca de 18 meses, ele se engajou na luta pelos direitos das pessoas autistas.

O dia seguinte, 23 de outubro, teve duas mesas redondas pela manhã.

A primeira mesa, Mulheres Autistas e Questão de Gênero, moderada por Fátima Dourado (CE), quatro mulheres autistas discutiram o respeito à diversidade. Maiara Barbosa (CE), Isadora Fredrich (RS), Amanda Paschoal (DF) Rita Louzeiro (DF) salientaram as diferenças que há entre homens e mulheres autistas. Amanda discorreu sobre como as pesquisas médicas se concentram nos homens, em qualquer situação, seja para definir padrões, seja para analisar efeitos de medicações, desconsiderando as diferenças entre os organismos masculinos e femininos. Salientou, ainda, que já há estudos que apontam para a relação de 3 homens autistas para cada 2 mulheres autistas, diferentemente do que afirma o conhecimento consagrado, de que seriam 5 homens autistas para cada mulher autista. Se Maiara afirmou o direito à assexualidade e recomendou que cada pessoa seja como é; afinal, as pessoas que se incomodam, não importam, e as pessoas que importam, não se incomodam. Isadora e Rita salientaram o direito à individualidade. Rita lembrou das dificuldades de ser mulher, negra, moradora da periferia no Distrito Federal – e deixou claro que só conseguia se manter no seu emprego pela estabilidade de ser funcionária pública concursada, pois suas limitações para entender o discurso subjacente às falas das pessoas lhe trazem muita dificuldade de relacionamento.

A segunda mesa, Direito de ser Criança e de ser Autista, foi moderada por Cristina Dias (AP), e foi composta por Bruno Dantas (AM), Carol Roos (SP), Luan Alejandro (SP), João Carlos Chastinet (CE), Marcelo Ribeiro (CE) e Max Moreira (MG). Todos deixaram claro que não estranharam ao receber de seus familiares a explicação de que são diferentes por serem autistas. Carol disse que, ao saber que é autista, disse, apenas: “Legal!” e João Carlos reforçou: -“É isso mesmo!” Já Luan relatou como interviu na discussão para aprovação da Lei 12.674/2012, quando cobrou da deputada relatora, Mara Gabrilli, o seu direito de participar da escola regular.

A terceira mesa, moderada por Sônia de Oliveira (CE), O Protagonismo na Família, contou com Fúlvio Pacheco (PR), autista e pai; Giovani Ragazzon (RS), autista e pai; Carolina Monteiro (RJ), autista; Muciana Campos (RJ), esposa do artesão autista Wilson Marx, com quem tem três filhas neurotípicas; e Priscilla Siomara Gonçalves (SP), mãe de autista. Fúlvio e Giovani relataram como, através do autismo dos filhos, vieram a descobrir sua própria condição de ser autista. Carolina discorreu sobre a relação com sua família e a sociedade. Muciana elogiou o marido e salientou suas qualidades. Priscilla falou sobre sua história de apoio para que o filho Leonardo viesse a se integrar à sociedade – ele, hoje com 24 anos frequenta faculdade de Pedagogia em sua cidade natal.

A quarta mesa, Autismo e Vida Adulta, foi moderada por Mariene Martins Maciel (BA) e contou com Cristiano Camargo (SP), autor de oito livros; Fernanda Santana (PR), estudante de Arquitetura; Hélio Sales (CE), que trabalha na Casa da Esperança; e Wilson Marx (RJ). Todos discutiram as dificuldades e as alternativas para participar da sociedade predominantemente neurotípica.

No dia 24, reuniram-se pela manhã seis Grupos de Trabalho, com seus respectivos moderadores: Educação Inclusiva (Renata Bonotto – RS); Cultura e Lazer (Maurício Moreira – MG); Mercado de Trabalho (Beatriz Xavier – CE); Sexualidade e Relacionamento (Manuel Vazquez Gil – SP); Saúde e Qualidade de Vida (Argemiro Garcia – BA); Identidade Autista e Direitos Civis (Maristela Lugon – ES).

À tarde, houve a mesa redonda sobre Pessoas Autistas e seus Talentos, com os artistas plásticos Fernanda Sazuki (SP) Mateus Gonçalves, (CE); o tecladista e cantor Miguel Fernandez (Peru); o poeta e escritor Pedro de Lucena, jovem de 15 anos, autista não verbal, que se comunica usando o computador (PE), e com os escritores Victor Mendonça, estudante de jornalismo (MG), e Alexandre Braga (CE).

Ao final da tarde, os Grupos de Trabalho apresentaram os resultados das discussões.

O encerramento contou com uma apresentação musical do jovem peruano Miguel Fernandez.

Como encerramento, as pessoas autistas presentes gravaram depoimentos de como se sentiram no EBA. Um dos mais marcantes foi de Wilson Marx:

– “Tenho 46 anos e nunca me senti tão bem!” – a avaliação de Wilson foi eco dos demais participantes: todos foram unânimes sobre a importância do evento e como se sentiram à vontade, um local onde ninguém era analisado, nem se estava ouvindo “profissionais” discorrerem sobre eles. Ali, eles eram os protagonistas.

Todos os presentes pediram para realizar o evento anualmente.

Veja mais fotos e relatos sobre o encontro em: https://www.facebook.com/AUTISMO.BR/?fref=ts

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