Por Paula Ayub

Zica, com C,  é um termo, uma gíria,  bem brasileiro que implica em dizer que algo deu errado, que há um problema e, dependendo da região do país pode significar ainda outras coisas, como por exemplo, o estado de ânimo de uma pessoa bem humorada. Hoje, o presente artigo vem tratar do termo designado ao vírus, com K, transmitido pelo mosquito Aedes aegypti  que, às mulheres grávidas, pode afetar o desenvolvimento neurológico do bebê.

O bebê infectado pelo vírus Zika, ainda no útero, poderá desenvolver a microcefalia, uma malformação congênita promotora de diversas consequências à vida do bebê e de sua família. Ao nascer, a criança com medida do perímetro encefálico, segundo a Organização Mundial de Saúde, inferior a 33 cm, tem seu diagnóstico de microcefalia.

Acredito que até este ponto, todas as manchetes de jornais e periódicos estão de acordo e noticiam todos os meios de se evitar a picada do mosquito, os esforços em exterminar poças d´água, o uso de roupas de mangas longas para grávidas, além das estatísticas relacionando o mosquito e o zika vírus. E o que acontece depois de nascido o bebê com perímetro encefálico menor que 33 cm? Sabe-se, também pelos noticiários, que muitos pais abandonaram suas famílias assim que o diagnóstico foi dado. Fomos testemunhas de centenas de jovens mães com seus bebês nos braços, resignadas aos seus futuros incertos.

O que acontece depois? Qual é o capítulo que a imprensa fala do que está por vir nas vidas destas mães e crianças? Quais os caminhos a serem seguidos para que este bebê possa ter minimizadas as consequências advindas da malformação? Sim, porque elas existem e podem variar dependendo dos estímulos e desenvolvimento especificamente no primeiro ano de vida da criança.

Estão os centros de atendimento preparados para oferecer a estas crianças o tipo de estimulação adequada para que as convulsões, rigidez musculares, paralisias, déficit intelectual, entre outros, possam ser controladas ou minimizadas? Estão os centros de atendimento recrutando profissionais de todas as áreas da saúde para enfrentarmos o crescimento de milhares de crianças com algum transtorno do desenvolvimento advindo da Zika?

Estou aqui falando do futuro. Falando de crianças que crescerão com algum tipo de deficiência e que necessitarão, ou necessitam desde já, dos mais avançados tipos de terapias. Não há extermínio de mosquito que inverta esta situação, não há campanha que lute contra a Zika que fará com que estes bebês deixem de ter a malformação. O Ministério da Saúde criou um “Protocolo de Atenção à Saúde e Resposta à Ocorrência de Microcefalia Relacionada à Infecção pelo Vírus Zika”, de 15 de dezembro de 2015, onde prevê entre outros recursos, exames e acompanhamentos até a estimulação precoce.

Em princípio, toda criança diagnosticada com microcefalia estará inserida no protocolo de atenção e receberá o atendimento necessário para seu desenvolvimento.  Onde buscar por este atendimento é a questão.

Os sites de saúde divulgam hospitais da rede SARAH , mutirões de atendimento no Piauí, projetos no Ceará… Quanto tempo mais estas crianças terão que perder para que possam ter atendimentos? Quanto tempo, precioso no primeiro ano de vida, uma criança diagnosticada com microcefalia necessitará para receber cuidados que beneficiarão seu desenvolvimento e serão decisivos em sua vida toda?

A microcefalia é para a vida toda. Estas crianças vão crescer e logo também terão o direito à educação. Que futuro estará garantido para estas crianças? Que sejam organizados congressos, encontros, cursos de aperfeiçoamento para profissionais, que capacitem pessoas em caráter de urgência para atendimentos de  hoje e  amanhã das milhares de crianças que necessitam de atenção especializada.

O tempo de uma criança com um transtorno no desenvolvimento não é o nosso tempo, não há espera para um cérebro que necessita de estimulação e desenvolvimento. Não há distinção de classe social quando o tema é neurológico, não há classe social quando o tema é infância. As crianças com microcefalia necessitam hoje de atenção.