Rua movimentada

Por Andrei Bastos *

Ontem fui dormir deixando minha cadeira de rodas motorizada (elétrica) carregando as baterias durante a noite, e hoje cedo, com as ditas cujas carregadas, participei de uma passeata na orla para festejar a atuação do STF no julgamento do mensalão.

Encontrei meus amigos, comprei minha máscara de Joaquim Barbosa, peguei um bolo de panfletos e saí distribuindo-os para as muitas pessoas saudáveis e bem vestidas, ou bem equipadas, que patinavam, caminhavam ou simplesmente passeavam na pista transformada em calçadão.

Os participantes de fato eram poucos, diante de uma sociedade ali representada, como em geral, por cidadãos acima de qualquer participação, mas seu entusiasmo sincero e fantasiado com máscaras e capas pretas do novo herói nacional contagiava e ganhava alguns corações e mentes.

Eu, velho frequentador de eventos desse tipo, fiquei feliz como pinto no lixo e pouco liguei para quem recusou meus panfletos, seguindo em frente com meu sorriso e meus bons-dias cívicos.

Sou um ativista dos direitos humanos e estou cansado de dar esses bons-dias cívicos em passeatas pelos direitos das pessoas com deficiência, pela igualdade racial ou liberdade religiosa, assim como em manifestações contra a corrupção e pela ética na política, como a de hoje. Na verdade, vou para a rua protestar desde a adolescência, no movimento estudantil contra a ditadura de 64.

Quase no fim da caminhada, olhei para o relógio e o horário de verão me surpreendeu com meu atraso para outro compromisso, o que me fez dar meia volta e acelerar os motores para ir embora.

Quem conhece minha cadeira motorizada, sabe que ela é poderosa e deixa os pobres andantes na poeira. Por isso, quando estou “pisando” no seu acelerador, dirijo com atenção ampliada muitos metros à frente para evitar acidentes.

Em determinado momento, vi, em meio àquela gente bronzeada e cheia de valor, um homem muito sujo, magro e maltrapilho, certamente morador de rua, que cambaleava como um bêbado, mas que fixou seu olhar em mim. A essa altura, eu já tinha traçado minha rota me distanciando o mais possível dele, competentemente considerando suas oscilações e a circulação dos outros.

Passei pelo homem como um bólido, mas ouvi que ele disse “aí, dotô, só passeando…”, talvez introduzindo o pedido de uns trocados para mais um trago ou mais uma pedra. Reduzi bruscamente e ia me voltar quando o ouvi novamente, então dizendo “sem uma perna, fodido, e continua arrogante”.

* Jornalista. Atua na Comissão de Direitos Humanos da OAB/RJ.

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