Homem em cadeira de rodas cruzando a faixa de pedestres em rua, entre outras pessoas.

Por Manoel Negraes *

Outro dia recebi por e-mail mais um texto do meu amigo Tuca Munhoz, onde ele chama a atenção para as péssimas condições das calçadas. O texto relata bem este problema que prejudica a locomoção de todos, principalmente de quem tem alguma deficiência física ou visual.

Além disso, meu companheiro de luta cita em seu texto a Campanha “Esta vaga não é sua nem por um minuto”, que surgiu aqui em Curitiba, cidade onde eu moro, por iniciativa da minha outra amiga e companheira de luta Mirella Prosdócimo. Tuca sublinha a importância desta ação, mas ressalta a necessidade de uma campanha maior, com o objetivo de buscar a efetivação das leis que garantem calçadas em boas condições para todos os pedestres. E o argumento do meu amigo é legítimo: a maioria das pessoas com e sem deficiência não utilizam carro e sim andam a pé ou utilizam o transporte público.

Eu, com minha baixa visão, também encontro muitas dificuldades nas calçadas por onde passo – no meu bairro, por exemplo, nem calçadas em péssimas condições eu encontro – e, com isso, mesmo considerando importante a campanha da Mirella, compartilho da opinião do Tuca. Porém, neste texto pretendo ir mais além.

Com certeza, melhores condições de acessibilidade, nas calçadas e nos meios de transporte, são fundamentais, já que garantem o direito de ir e vir, tão importante para que as pessoas com deficiência exerçam seus outros direitos: ao trabalho, à educação, ao lazer etc. Mas, uma campanha que atingiria todas estas questões de uma vez só seria uma campanha por uma mudança de atitude ou, também, por uma tomada de atitude.

Esta seria a melhor campanha, na minha opinião, e venho neste texto convidar o Tuca, a Mirella e quem mais estiver interessado a construir comigo esta idéia. Afinal, se a calçada é ruim, falta atitude. E de quem? De todas as partes envolvidas. Do dono do estabelecimento ou da residência, que deveria oferecer uma calçada em boas condições; do poder público, que deveria fiscalizar o cumprimento das leis; e das pessoas com deficiência prejudicadas, que deveriam se unir e procurar os caminhos legais e os meios de comunicação para cobrar ambas as atitudes descritas acima.

A mudança de atitude – ou o surgimento de uma nova – está na base da construção de um mundo democrático que respeite a diversidade humana. Provavelmente, muitos donos de estabelecimentos ou de residências que não apresentam calçadas em boas condições enxergam as pessoas com deficiência como incapazes, improdutivas, como pessoas que não podem andar sozinhas. E informação veiculada em uma campanha como esta pode fazê-los mudar de pensamento e, com isso, tomar uma atitude: arrumarem suas calçadas.

Provavelmente, muitas pessoas com deficiência não conhecem a força que possuem juntas e imaginam que não adianta cobrar e buscar seus direitos de forma coletiva. No dia a dia, na luta por uma vida digna, garantem por muitas vezes o que precisam individualmente, mas juntas poderiam garantir muito mais. E a informação veiculada em uma campanha como esta poderia trazer reflexão e, também neste caso, uma mudança de atitude: lutar coletivamente por seus direitos.

Mais ainda, acredito ser uma campanha por atitude aquela que pode colaborar para garantir a inclusão das pessoas com deficiência no trabalho, na escola, enfim, na sociedade em geral. Isso não apenas porque informação pode levar a uma atitude que faça a lei ser cumprida, por exemplo, que a vaga reservada seja respeitada ou que a calçada tenha boas condições. Isso também porque esta campanha pode, sobretudo, apresentar outra imagem da pessoa com deficiência e gerar novas atitudes em relação ao diferente. Atitudes que valorizem suas características, suas potencialidades, suas habilidades, seus desejos, seus sonhos. Em outras palavras, informação que gere uma atitude de respeito, de senso coletivo, de bem comum.

A Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, com valor constitucional, está aí, as armas e ferramentas para esta campanha estão aí, nós temos os caminhos, eles estão aí. Vamos mudar nossa atitude, buscar e cobrar novas atitudes dos outros, e construir a cada dia uma sociedade diferente. Quem quer?

* Manoel Negraes, 32 anos, cientista social, trabalha na Mobilização Social da Unilehu – Universidade Livre para a Eficiência Humana (Manoel@unilehu.org.br) e no Minuto da Inclusão, projeto do Instituto MID – Comunicação e Cidadania (Manoel.mid@gmail.com).

Fonte: O autor