Capa livro Carpe Diem - CAPA DO MANUAL COM BORBOLETAS COLORIDAS, TÍTULO “MUDE SEU FALAR QUE EU MUDO MEU OUVIR – ACESSIBILIDADE – UM LIVRO ESCRITO POR PESSOAS COM DEFICIÊNCIA INTELECTIUAL AUTORES: ASSOCIAÇÃO CARPE DIEM, CAROLINA YUKI FIJIHIRA, ANA BEATRIZ PIERRE PAIVA, BEATRIZ ANANIAS GIORDANO, CAROLINA DE VECCHIO MAIA, CAROLINA REIS COSTA GOLEBSKI, CLAUDIO ARRUDA LEONE, THIAGO RODRIGUES.

Mude seu falar que eu mudo meu ouvir
Acessibilidade – um livro escrito por pessoas com deficiência intelectual

Dia: 19/11/2011 – sábado
Horário: 19h00
Local: Novotel Jaraguá
Endereço: Rua Martins Fontes, 71

Autores:  Associação Carpe Diem, Carolina Yuki Fijihira, Ana Beatriz Pierre Paiva, Beatriz Ananias Giordano, Carolina de Vecchio Maia, Carolina Reis Costa Golebski, Claudio Aleoni Arruda, Thiago Rodrigues.

Prefácio: Sem limites… para ser!
Por Marta Almeida Gil *

Alegria!

Essa é a primeira emoção que sinto ao escrever este texto, respondendo ao convite que me honra e me dá orgulho.

Alegria também é o que transmitem os jovens que freqüentam o Carpe Diem, que se definem como sendo o Carpe. Eles o são, mesmo, pois fazem essa instituição.

Alegria é o que transmite a equipe técnica e a coordenação. Afinal, não foi aleatoriamente que adotaram a borboleta como símbolo…

Conhecer e conviver com Bia Paiva, Thiago Rodrigues e Mariana Amato de forma mais próxima e freqüente tem sido um dos presentes da Vida. Suas reações, ações e atitudes são uma fonte de surpresa, encantamento e aprendizagem. Como esta, de chamar nossa atenção para a acessibilidade na transmissão de informações e conteúdo para pessoas com deficiência intelectual – uma necessidade e um direito!

Quem já tinha pensado nisso?

O intérprete de Libras (língua brasileira de sinais) é figura obrigatória em eventos, igrejas e em diversos programas de TV, vídeo e espetáculos.

Mas… pessoas com deficiência intelectual? Quem se lembra delas?

O famoso “manto de invisibilidade”, a que os profissionais que atuam no campo da Deficiência frequentemente se referem quando falam deste segmento parece ficar mais espesso e impenetrável ainda quando se trata de pessoas com deficiência intelectual.

Felizmente – para todos nós, não apenas para esse grupo – esta concepção começa a mudar. E este livro, escrito de forma criativa e participativa, tem e terá um papel primordial na concretização dessa mudança.

Ele é ousado, é bom que fique claro. Até onde sei, é o primeiro livro escrito por pessoas com deficiência intelectual para falar de seu direito à acessibilidade, seja no Brasil ou em outros países.

Vale lembrar que a proposta do Carpe Diem é igualmente ousada: eles acreditam, investem e praticam a autodeterminação. Como se isto não bastasse, nasceram desejando que um dia (e tomara que venha logo) a ONG não precise mais existir! Sim, porque a sociedade já teria se tornado inclusiva e eles poderiam dedicar sua expertise a outros temas.

Porém, o conceito do direito à acessibilidade não é apenas uma ousadia. Ele tem um sólido respaldo na Convenção sobre os Direitos da Pessoa com Deficiência, ratificada pelo Brasil com status de emenda constitucional, pelo Decreto legislativo 186/2008 e Decreto Executivo 6.949/09; ou seja, ela foi ratificada duas vezes, para não deixar nenhuma sombra de dúvida.

Um dos avanços da Convenção foi inserir a Deficiência na esfera dos Direitos Humanos. O artigo 9.o trata da acessibilidade lato sensu e o artigo 21 do acesso à informação, para mencionar apenas os dois direitos mais relacionados ao nosso tema.

O artigo 3 estabelece os princípios gerais da Convenção:

a. O respeito pela dignidade inerente, independência da pessoa, inclusive a liberdade de fazer as próprias escolhas, e autonomia individual;

b. A não-discriminação;

c. A plena e efetiva participação na sociedade;

d. O respeito pela diferença e pela aceitação das pessoas com deficiência como parte da diversidade humana e da humanidade;

e. A igualdade de oportunidades;

f. A acessibilidade;

g. A igualdade entre o homem e a mulher; e

h. O respeito pelas capacidades em desenvolvimento de crianças com deficiência e respeito pelo seu direito a preservar a sua identidade.

Ora, para que esses princípios se tornem realidade, pessoas com todos os tipos de deficiência precisam compreender as informações que estão fartamente disponíveis, porém nem sempre acessíveis.

Pessoas com deficiência, qualquer que seja ela, deparam-se frequentemente com o “não”, palavra curta, forte e que se pretende definitiva. O “inventário do não” é feito de maneira instantânea; basta um olhar e lá vêm as frases fatídicas: “não pode”, “não vai dar certo”, não faça”. E as justificativas – quando são dadas – também se baseiam no “não”: “É porque ele/ela não vê, ou não ouve, ou não anda, ou não tem uma perna, ou não tem raciocínio” ou “não está preparado”.

Assim, o limite ou a dificuldade que a pessoa tem – ou que o outro acha que ela tem, melhor dizendo – é reforçado e aumentado, pois recebe o peso do descrédito ou da negação de sua capacidade.

Parece que não ocorre, para aquele que diz o “não”, que o ser humano tem uma capacidade infinita, que lhe permite criar, ousar, procurar outros caminhos, talvez ainda não pensados. E daí, alguém tem que ser o primeiro, não?

E a tecnologia, então? A cada dia, ela nos surpreende, ampliando nossa capacidade, nossa força, nossos sentidos. Ela é uma ferramenta poderosa para derrubar o “não”.

As pessoas com deficiência intelectual vivenciam o “não” de uma forma ainda mais enfática, vindo de suas famílias, professores, profissionais, enfim, da sociedade como um todo, que as coloca sob tutela, de direito ou de fato.

Porém, esse cenário está mudando radicalmente, como demonstram Didi, Samuel Sestaro, Fernanda Honorato, Bia Paiva, Thiago Rodrigues, Mariana Amato, Breno Viola, João Vitor Mancini e outros, que assumem suas vidas, que sabem o que querem e lutam para consegui-lo, como todos nós.

Dificuldades, quem não as tem? Apoio, quem não precisa?

Eles mostram, na prática, que os limites estão cada vez mais tênues, cada vez menos impeditivos, pois a Inclusão avança e abre espaços cada vez mais amplos, envolvendo cada vez um número maior de pessoas – a ciranda cresce, outras pessoas vão chegando e se somam às outras.

Para dar conta das novas demandas, métodos são desenvolvidos, pesquisas são feitas; o conhecimento avança. As cidades se preparam para acolher, com dignidade e autonomia, seus habitantes que até então eram “invisíveis” e se tornam lugares bons e agradáveis para todos.

Essas e muitas outras mudanças só se concretizam porque as pessoas com deficiência – e nesse caso falamos especificamente daquelas com deficiência intelectual – estão presentes. Todos aprendemos, porque todos com-vivemos.

Elas afirmam, em voz cada vez mais forte: “Sim, nós podemos!”

* Socióloga, Coordenadora Executiva do Amankay Instituto de Estudos e Pesquisas, Consultora na área da Deficiência e colaboradora do Planeta Educação.

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