Introdução

Soroban é o nome dado ao ábaco japonês, que consiste em um instrumento de cálculo surgido na China a cerca de quatro séculos. A escrita em kanji (ideogramas) é idêntica à chinesa, sendo inclusive a pronúncia uma aproximação à original chinesa. Ábaco é o nome genérico atribuído aos contadores em geral. Além dos modelos japonêses antigo e moderno, existem o chinês (suan pan), o romano (abacus), o grego (abax), o azteca (nepohualtzitzin), o russo etc.

O soroban começou como um simples instrumento onde eram registrados valores e realizadas operações de soma e subtração. Posteriormente foram desenvolvidas técnicas de multiplicação e divisão. Atualmente já são conhecidas técnicas para extração de raízes (quadrada e cúbica), trabalho com horas, minutos e segundos, conversão de pesos e medidas. No soroban podemos operar com números inteiros, decimais e negativos.

O objetivo do uso do Soroban é realizar contas com rapidez e perfeição, buscando alcançar o resultado sem desperdícios. Ele ajuda a desenvolver concentração, atenção, memorização, percepção, coordenação motora e cálculo mental, principalmente porque o praticante é o responsável pelos cálculos, não o instrumento. A prática do soroban possibilita realizar cálculos em meio concreto, aumenta a compreensão dos procedimentos envolvidos e exercita a mente.

Como o soroban chegou ao Brasil

O soroban chegou ao Brasil com os primeiros imigrantes japoneses, em 1908, para uso próprio. O modelo de então era o de cinco contas, que seria substituido pelo de quatro contas a partir de 1953, com os primeiros imigrantes da era pós-guerra (Segunda Guerra Mundial).

O primeiro divulgador de shuzan, a arte de calcular com o soroban, foi o professor Fukutaro Kato, que em 1958 publicou o primeiro livro do gênero no Brasil: “Soroban pelo Método Moderno”. Prof. Kato também fundou a Associação Cultural de Shuzan do Brasil (ACSB), que organiza campeonatos anuais.

Origens

As origens primeiras do ábaco remontam a um método de calcular usando sulcos na areia e pequenas pedras. A primeira alteração foi a substituição da areia por uma tábua de argila; a seguir, as contas passaram a ser orientadas por uma haste que as trespassava. O modelo chinês, devido ao sistema de pesos e medidas hexadecimal, possui duas contas na porção superior e cinco na inferior, possibilitando registrar valores de ‘0’ a ’15’ (sistema hexadecimal), em cada coluna. A primeira adaptação feita no Japão para o sistema decimal foi a retirada de uma das contas superiores. Podia-se escrever desde o ‘0’ até o ’10’ em cada ordem, totalizando 11 possíveis valores. Como o Japão utiliza o sistema decimal, apesar da diferença de ordens por classe, foi natural que a quinta conta da porção inferior fosse retirada para a obtenção dos 10 valores, dando origem ao soroban moderno.

Outra modificação feita ocorreu com o formato das contas. Originalmente redondas ou ovaladas, passaram a um formato lenticular, com secção transversal hexagonal. Esta pequena mudança possibilitou aumentar a velocidade de manipulação e a precisão dos movimentos, já que o volume livre entre cada conta/distância entre a área de contato de uma conta e outra aumentou e o contato do dedo com a conta passou a estar menos sujeito a deslizes.

Embora a presença da calculadora eletrônica faça-se notar em tantos lugares hoje em dia (calculadoras de mesa, de bolso, em agendas eletrônicas, em relógios etc.), cada vez mais pessoas têm percebido que o exercício do pensar está sendo relegado a segundo plano, sempre em favor da comodidade de apertar alguns botões e ter a resposta pronta, “de bandeja”. De fato, por mais que o ábaco tenha surgido em uma época sem caixas registradoras e controle computadorizado de estoque, seu valor como instrumento de exercício mental, de treino de atenção e concentração, entre outros, não entra em choque nem muito menos é ofuscado pelas máquinas que realizam milhões de cálculos por segundo.

É conveniente ressaltar que o uso constante do soroban feito por algumas pessoas tornou possível a competição saudável e esportiva entre seus usuários e os de máquinas de calcular eletrônicas e que essa disputa já tem permitido que os usuários do soroban a vençam. Por ser o soroban um meio em que os valores podem ser modificados tão facilmente quanto são registrados, ganha-se tempo nas operações, evitando-se ter de armar a conta antes de realizá-la.

Soroban e pessoas com deficiência visual

O início do uso do soroban por pessoas cegas ou com baixa visão (visão sub-normal), nos anos 40 e 50, veio melhorar o trabalho matemático antes feito no cubaritmo realizado por essas pessoas, consistindo em uma grade onde são colocados cubos com os números em braille. as contas são montadas como em tinta, como usualmente utilizada por pessoas sem deficiência.

Essencialmente, a estrutura e o funcionamento do soroban adaptado para pessoas com deficiência visual não diferem do soroban moderno usado por videntes. As duas únicas mudanças operadas dizem respeito ao deslizamento das contas e às referências utilizadas.

A leitura dos valores no soroban adaptado é feita da mesma forma que em braile: pelo tato. Por isso as contas não podem deslizar livremente, como no soroban convencional. Para contornar este problema, o soroban deve contar com um dispositivo que mantenha as contas em determinada posição:

  • soroban adaptado japonês: feito com placas que tombam para frente ou para trás;
  • soroban adaptado espanhol: produzido pela ONCE, trava as contas em posição;
  • soroban adaptado brasileiro: conta com um tapete de borracha, fazendo com que o praticante tenha de imprimir mais força para mover as contas.

Ainda que haja à venda calculadoras sonoras falantes, a prática de cálculos com o soroban supre a falta de instrumentos à mão, pois permite, com o tempo, que o praticante desenvolva habilidades de cálculo mental, ou seja, começa-se a efetuar os cálculos sem o apoio físico do instrumento.

Colocação e leitura de números

  • todas as contas valem uma unidade;
  • todas as contas têm valor ‘1’ e cada fileira representa uma ordem (unidade, dezena, centena etc.).

O Soroban é composto de diversas colunas, cada uma representando uma unidade, dezena, centena, etc. Cada coluna, por sua vez, contém duas partes: uma em cima e outra embaixo. As peças da parte de cima se chamam godamas porque go significa cinco e as peças da parte de baixo se chamam ichidamas porque ichi significa um. Dama significa peça.

A coluna das unidades, independente da classe (unidade, milhar, milhão), será sempre uma das colunas com um ponto de referência sobre a barra central (primeira coluna à esquerda, no soroban adaptado). A escolha do ponto de referência a ser usado é livre, mas dependendo às vezes de quantas casas decimais ocupará a resposta (unidade, dezena, centena, milhar etc.).

O número ‘1’, por exemplo, é registrado movendo-se uma conta inferior para junto da barra central, logo abaixo do ponto; o número ‘2’, duas contas; o ‘3’, três contas; o ‘4’, quatro contas.

O número ‘5’ é registrado movendo-se apenas a conta superior para junto da barra central. Os números de ‘6’ a ‘9’ são compostos pelas contas inferiores e superiores, ou seja, move-se a conta superior e seu complemento em contas inferiores.

Por exemplo, o 5 é feito com apenas uma conta na parte superior (5), o 6 com a combinação de uma conta na parte superior (5) e uma na inferior (1 unidade), o 7 com uma conta na parte superior (5) e duas na inferior (2 unidades), o 10 com duas contas na parte superior (5.5), o 11 com duas contas na parte superior (5.5) e uma na inferior (1 unidade), etc.

As demais ordens (dezena, centena, unidade de milhar etc.) são registradas à esquerda, como na escrita indo-arábica.

Se não houver contas encostadas na barra central (hari), que separa as duas porções, diz-se que o soroban está zerado.

Nomenclatura

As partes que compõem o soroban:

  • TAMA: contas – unidade de referência.
  • WAKU: moldura, pode ser feita de madeira ou de plástico.
  • HARI: barra divisória, separa as contas (TAMA) de valor 1 e 5.
  • TEIITEN: ponto de referência, indica a ordem das unidades de cada classe.
  • KETA: haste, feita de bambu, por onde deslizam as contas (TAMA).
  • GODAMA: conta de valor 5.
  • ICHIDAMA: conta de valor 1.

Conclusão

Ainda hoje o Soroban é utilizado no Japão, em vez de uma calculadora, por diversos profissionais. Depois de dominada a técnica Shuzan, seu uso pode ser tão rápido quanto o de uma calculadora. Toda criança japonesa estuda seu uso dos 5 aos 8 anos. Pessoas com deficiência visual que passam por ensino especializado a utilizam em todo o mundo.

Fonte: Bengala Legal