Ciganos em foto histórica

A falta de conhecimento e de pesquisas sobre a condição de vida dos ciganos no Brasil, aliada à inexistência de políticas públicas, alimenta o preconceito

Nascido em um acampamento do grupo cigano Calom, no interior da Bahia, o professor doutor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), Jucelho Dantas da Cruz, de 48 anos, foi o único de 11 filhos a cursar o ensino superior. Alfabetizado pelos irmãos mais velhos, completou os estudos quando a família se estabeleceu na cidade de Ibirapitanga, no interior do estado.

Por causa do preconceito na escola, os pais de Jucelho, que sempre incentivaram o acesso ao ensino, preferiam educar as crianças nos acampamentos. Essa prática, adotada por muitas famílias, reflete-se até hoje no baixo índice de escolaridade entre os ciganos nômades, a maioria do grupo Calom.

O problema da discriminação perseguia os ciganos não apenas nos bancos escolares. “Isso [preconceito] foi o que mais aconteceu na minha vida”, contou Jucelho. “Até os meus 15 anos, eu era nômade e, principalmente quando mudávamos, montados em animais, com aquela carga toda, sofríamos preconceito do pessoal que, ao longo da estrada, nos tinha como malfeitores e ladrões. O local podia ter ladrão de toda espécie, mas quem levava a culpa éramos nós.”

De uma família Rom, grupo de situação financeira melhor do que a dos Calom, a advogada Mirian Stanescon, de 61 anos, nunca viveu acampada. Filha de uma família de caldeireiros que vendia panelas para instituições militares, ela conta que convenceu os pais a deixá-la estudar. Mas não podia contar as ofensas que ouvia.

“Se meu time ganhava é porque eu tinha feito feitiço. Se sumia um lápis ou borracha de um colega, a primeira pasta a ser revistada era a minha. Foi assim muito tempo”, afirma.

Representando os ciganos no conselho da Secretaria de Promoção da Igualdade Racial (Seppir), Mirian diz que os ciganos de hoje ainda têm desafios para estudar: convencer os pais e vencer o bullying. Para muitas comunidades, a melhor escola é a família, que pode ensinar as tradições e os costumes.

Criado longe dos acampamentos, na capital fluminense, o professor de música da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), Antonio Guerreio, de 62 anos, cujo pai era Calom e a mãe inglesa, do clã Rom, não teve problemas na escola, mas fala da discriminação que persegue os ciganos mesmo adultos. Por isso, segundo ele, poucos assumem sua ascendência.

“Estava em um hotel em Porto Seguro onde a atendente me viu conversando com um dos líderes ciganos locais. Na hora de pagar a conta, ela não aceitou meu cheque, desconfiou que o dinheiro poderia ser roubado. Tive que pagar de outro jeito”, diz.

De acordo com o professor aposentado da Universidade Federal de Goiás (UFG) Ático Vilas-Boas da Mota, que estuda a cultura e a história cigana no Brasil, o preconceito contra esses povos é “coisa antiga” e ocorre porque a população em geral não aceita pessoas que vivem de forma diferente.

Já para a estudiosa Cristina da Costa, que tem cinco livros publicados sobre essa minoria, a falta de conhecimento e de pesquisas sobre a condição de vida dos ciganos no Brasil, aliada à inexistência de políticas públicas, alimenta o preconceito.

As informações são da Agência Brasil.
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Fonte: Correio 24 horas