Inclusive - inclusão - várias figuras multicoloridas de mãos dadas: um cadeirante, um muito alto, um muito baixo e outros olhando para direções diversasPor Gil Pena *

Li com interesse o artigo recente de Ana Elizabeth Cavalcanti na edição virtual da Revista Mente Cérebro Link abrirá em uma nova janela ou aba. (Edição 218, março 2011). Causou-me espanto sua avaliação de que o discurso da inclusão tornou-se hegemônico. É difícil crer que minorias tão diversas como as pessoas com deficiência tenham conseguido tornar hegemônico seu discurso, quando a educação que se pratica quase sempre é de exclusão do diferente, não apenas aquele com deficiência intelectual, mas também aquele com deficiências sensoriais e físicas, para não mencionar pessoas com outros rótulos (dislexia, transtornos de atenção, hiperatividade), não necessariamente ligados a qualquer deficiência. Embora questionável, a afirmação de que os surdos “pensam exatamente o contrário” indica que não há hegemonia do pensamento inclusivo. O depoimento da professora, contra a inclusão, bem ilustra que a atitude do professorado ainda não é inclusiva. Seu desconforto, por outro lado, indica que pode estar ocorrendo uma mudança de postura, pelo menos contra a exclusão. É mesmo possível, que tratar as coisas pelo binômio inclusão-exclusão possa não ser a melhor forma.

Dialeticamente, representam tese e antítese, mas não são os únicos pontos possíveis. Existe um caminho, um processo: é a direção, o sentido, que interessa mais. Há um princípio indiscutível, salientado pela própria autora, de que “todas as crianças, independentemente de suas condições, têm direito e devem ter acesso a escolarização de qualidade.” Esse é o sentido da inclusão. Não é um ponto abstrato de chegada, mas um processo orientado na direção de que as pessoas possam ter uma educação, inclusive escolar, de qualidade.

Há exclusões históricas – a escravidão, a educação segregada por sexo, o Apartheid – que podem nos ajudar a entender como a diferença pode originar a discriminação. Em determinados momentos da história, houve quem justificasse esse discurso segregador, apenas por supor que possíveis mudanças implicariam em um ‘processo’ novo, desconhecido, apesar de acreditar que, em princípio, essa segregação devesse não existir.

Os problemas observados no processo da inclusão surgem, em parte, da dificuldade de entender que espaço é esse, do qual determinadas pessoas estão excluídas. Não se trata apenas de um espaço físico, uma carteira ou uma sala especial. Trata-se de um espaço de convivência: é nesse viver junto onde ocorre a formação do ser humano: não é na sala de aula, não é no esforço do professor, nem no cérebro do aprendiz: o aprendizado ocorre na relação. Se não houver uma interação congruente entre aquele que ensina e aquele que aprende, não se produz aprendizado, nem mesmo com todos os esforços do professor.

O aprendizado humano é particularíssimo nesse aspecto, ele ocorre na relação humana. É estranho constatar que profissionais da educação ainda desconhecem esse particularíssimo modo de aprendizagem. Os educadores têm procurado estabelecer métodos particulares, para esse ou aquele aluno, mas o aprendizado segue sempre uma mesma linha, consistindo na aquisição de ferramentas da cultura, sempre na interação com o outro e na superação das dificuldades. A força motriz dessa superação é a própria vocação ontológica humana de construir-se como ser humano. Nessa construção, operam-se desvios culturais, estendem-se pontes cognitivas, na superação de obstáculos. Ler pelo tato, “ouvir” pela leitura labial, são exemplos de superação, propiciados por ferramentas culturais.

Deixar de oferecer a qualquer um a possibilidade de superação, da sua construção como humano, que é o que constitui o processo educativo, é furtar-lhe a humanidade. O fato de a educação, já há muito tempo, estar usurpando a algumas pessoas essa possibilidade, não deve servir de argumento para que adiemos esse processo de inclusão. Trata-se de entender a escola como espaço humano de convivência, e que as pessoas – toda pessoa – têm direito a compartilhar desse ambiente. O fato de que, historicamente, não o tenham ocupado, não implica que tenhamos que continuar negando-lhes tal direito. O desconforto do professor, em sua fala não inclusiva, decorre não da imposição de um discurso ideológico, hegemônico, dos defensores da inclusão, mas do desconforto que é deixar de oferecer um tratamento humano, a quem lhe é de direito. Esse desconforto é um convite a reflexão, passo inicial para reconfigurarmos o mundo.

* Gil Pena é médico patologista e dedica-se a estudos na área da educação.

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Fonte: O Autor