Palavras soltas em construção gráfica

Por Roberto Bíscaro, do Blog do Albino Incoerente

Não muito antigamente, aprendíamos que policial em inglês era “policeman” e o feminino, “policewoman”. Modernamente, professores que ainda ensinam assim estão defasados. O mais adequado é ensinar “police officer”, porque indica policiais dos dois gêneros. O movimento feminista foi um dos responsáveis por essa mudança no idioma. Muitas palavras deixaram de ser sexistas. Outros grupos, como negros e os GLBTT, também pressionaram e pressionam a língua a fim de serem representados menos preconceituosa ou negativamente.

Verificaram-se mudanças vocabulares não apenas em decorrência direta dos movimentos pelos direitos civis. Termos como “blind” foram questionados e novas terminologias foram propostas, como, por exemplo, “visually challenged”.

Em que pese algum exagero politicamente correto em alguns casos, alterações terminológicas têm sua importância, mormente no que concerne à auto-estima dos grupos e indivíduos designados pelos novos termos.

Palavras são realmente importantes. Pensamos através delas, nos explicamos e construímos nossas identidades por meio delas, interagimos com os outros especialmente pelo meio verbal. Destarte, o vocabulário usado pra nos referir a nós mesmos e que os demais utilizam para se pronunciarem sobre nós é arma conseqüente na luta interna e externa que travamos pra obter (auto-) respeito.

Vejamos alguns exemplos, com relação a nós, pessoas com albinismo.

PESSOA COM ALBINISMO
Frequentemente, procuro usar essa expressão ao invés de apenas “albino”, a não ser quando fica estranho, como no nome do blog ou em orações carregadas de palavras ou preposições. A tendência de se usar a expressão “pessoa com” antes do nome da característica genética é precisamente para tornar patente que somos PESSOAS com essa peculiaridade, mas, somos mais do que isso. “Albino”, “diabético”, “aidético” e afins nos reduzem a uma essência única! Parece que somos “albinos” o tempo todo e somente albinos, quando não é verdade.

Na maior parte do tempo, sequer me recordo de que sou albino, porque possuo uma miríade de outras identidades! Sou professor, amigo, filho, cliente, ciumento, fã roxo da Princesa Diana (viram? Quando se trata de Lady Di, viro até colorido!).

Proponho que em português adotemos também a variante “pessoa albina”. Sem a preposição, talvez fique mais fácil para falar ou inserir em orações escritas. Não temos que esperar que criem palavras ou expressões definidoras para nós; somos perfeitamente capazes e livres pra fazê-lo.

SOFRO DE…
Essa deveria ser riscada do mapa e esquecida para todo o sempre! “Sofrer de albinismo”, sofrer de diabetes”? Humillhantemnte melodramático… Quando era moleque havia um desenho animado onde havia um leão e uma hiena. Essa última, passava o tempo todo dizendo “ó dia, ó vida, ó azar!” Sofrer de…” parece expressão dessa hiena!

Geralmente, não “sofremos” por conta do albinismo e sim porque não há políticas púbicas de saúde específicas para nós, porque muitos não conseguem trabalho ou apenas arrumam sub-empregos, porque vivemos numa sociedade não preparada para nossas especificidades.

“Sofrer de albinismo” tem o insidioso poder nefasto de desviar a atenção do problema mais premente! Além do mais, nos coloca em posição de pobres objetos indefesos de piedade. Respeito a gente conquista, se dando ao respeito primeiro!

VÍTIMA DO….
Vítima? Onde foi o terremoto, enchente ou erupção vulcânica? “Vítima do albinismo”, “vítima da AIDS”… Mais melodrama constrangedor!

A não ser que você queira se sentir como a hiena do desenho animado, não se descreva ou deixe que o descrevam assim! “Vítima” nega nossa capacidade de ação. Para os que gostam de filosofia, existe razão mais séria para rechaçarmos o termo, segundo nos ensina a norte-americana Susan Sontag: “vítimas (referindo-se ao vocábulo e não à pessoas) sugere inocência. E inocência, pela inexorável lógica que governa todos os termos relacionais, sugere culpa.” (SONTAG, Susan. Illness as metaphor and AIDS and its metaphors. New York: Anchor Books, 1990. p. 99)

PORTADOR DE…
Essa expressão na lista de indesejáveis talvez pegue muita gente de surpresa. Tenho visto inúmeros sítios, matérias de jornais, projetos de lei e textos acadêmicos – todos repletos de boas intenções, às quais agradeço de coração! – com essa infeliz expressão: “portador disso ou daquilo”.

Por que não “pessoa”? Por que essa objetificação? Já pensaram a respeito? Porta-copo, porta-CD, porta-avião… Quer dizer que sou um “porta-albinismo?” Se ainda fosse porta-avião, tudo bem; venderia a aeronave e ficaria rico!

A gente porta arma, RG e sei lá mais o quê.
Somos pessoas com albinismo, seres humanos multifacetados e capazes e não objetos/receptáculos para guardar albinismo!

Nas quase 650 postagens, certamente devo ter caído em alguma das armadilhas agora denunciadas. Reconheço ser difícil cambiar arraigados hábitos vocabulares, mas, devemos tentar.

Especialmente nós, pessoas com albinismo. Enquanto nos auto-definirmos como “vítimas”, “sofredores” ou “portadores”, os outros continuarão a nos perceber dessa forma.

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Fonte: O autor