Marcela e Michel
Marcela e Michel

Por Roberto Bíscaro, do Blog do Albino Incoerente.

Grande destaque na posse da Dilma foi o casal Michel e Marcela Temer. Um dos assuntos mais comentados no twitter e em sites. Dizem que a moça roubou a cena. Realmente, Marcela é muito bonita. Um famoso comentou que “não temos Carla Bruni, mas temos Marcela Temer. Estamos bem na fita.” Que sentimento de inferioridade mal velado é esse? O “mas” soa como se a nossa prata da casa valesse menos que a francesa. Eles têm Carla, nós, Marcela. Não precisamos de conjunção adversativa. Que recalque colonial de pôr a Europa como centro do mundo, não?

Na verdade, o centro das atenções foi a diferença de idade entre eles. Michel tem 70 anos ao passo que Marcela, 27. Indisfarçáveis nos comentários lidos, afloram 2 questões: preconceito e inveja.

Um comediante da moda ironizou que Marcela está com Temer por interesse e não por amor, fazendo comparação rasteira com o PT. Deixando o casal (e o PT) de lado e pensando em termos mais abrangentes: quem garante que amor intergeracional seja impossível? As veredas do coração e do desejo são mais complexas, fluídas e inclusivas do que supõe o senso comum. Que preconceito é esse de pensar que um homem ou uma mulher madura não possa conquistar o coração e o corpo de alguém mais jovem? Essa postura reflete a cultura hegemônica, que hipervaloriza a juventude e enxerga o mais velho como ultrapassado, decadente e sem atrativo. No mundo da obsolescência programada, não surpreende essa forma de preconceito. Mas, provoca pesar que formadores de opinião o reproduzam de modo tão leviano.

Dilatando ainda mais o raciocínio, quer dizer que a união de um cadeirante ou de uma pessoa albina com alguém que anda ou tem pigmento só seria possível na base do interesse? Jovem tem que casar com jovem, velho com velho, cadeirante com cadeirante; é essa a lógica ou a garantia para um “amor desinteressado”? Então, todo albino ou cadeirante teria que ter posses para arrumar alguém. E sabemos que não é assim que ocorre.

Vamos nos deter por um instante na questão do “interesse”. Atrelamos o termo à questão pecuniária ou a segundas intenções pouco honrosas. Algo feito por interesse sempre conota negatividade. Todas nossas relações, porém, são interesseiras. Calma, não virei cínico! Extirpemos a noção pejorativa do termo e reflitamos: por que João ou Maria conquistou seu coração? Porque o contato com eles interessa mutuamente, porque existe confiança, coisas compartilhadas, porque você se sente bem ao lado dele(a). Tem que haver algum bônus nas relações pessoais, caso contrário não as estabelecemos. Isso não é maquiavelismo, é simplesmente buscar a felicidade, objetivo último do ser humano, como já dizia Aristóteles na sua Retórica. A relação entre uma pessoa jovem e uma mais velha também é baseada no interesse. E quem diz que não pode haver interesses comuns entre pessoas de gerações distintas? A vida não é uma fórmula matemática, onde tudo é pré-determinado e sempre igual. Teria mais interesse comum um casal da mesma idade, no qual ele fosse executivo e ela dona de casa?

Outro comentário que li foi o fato de Marcela Temer haver sido vice-Miss em algumas ocasiões e agora estar casada com o vice-presidente. Sugeria-se que ela se casasse com Rubinho Barrichelo e torcesse para o Vasco. Nada entendo de esportes, mas a piada me pareceu referir-se ao fato de o piloto e o time de futebol não terem sido campeões em seus esportes. Entramos no segundo ponto da comoção Michel-Marcela, a inveja. Será que o piadista conseguiu chegar tão alto quanto Temer e a esposa? Considerando-se que temos uma presidente, talvez Marcela até seja a primeira-dama. Mas, a questão nem é essa…

O ponto é: ao invés de ficar bancando a raposa perante as uvas, as pessoas deviam se concentrar mais em suas próprias vidas. Se largassem mão de patrulhar as escolhas alheias, teriam mais idéias e energia para perseguirem seus próprios ideais e não ficar desperdiçando seu tempo em preocupações tolas. Certamente, conquistariam sucessos e não necessitariam gorar o dos outros. A gente tem que ser um pouco individualista, sim. Não no sentido de não nos preocuparmos com os demais, mas sim, para gerirmos nossa existência como a coisa mais preciosa deste mundo.

Outro dia uma mulher me perguntou quanto eu pagava para aparecer “em tantos” programas de TV. O tom era ácido, e não deixei por menos. Respondi que não eram “tantos” assim e acrescentei que o motivo para os convites era meu trabalho duro no blog. “Como não perco tempo pensando na sua vida, me sobra bastante para me concentrar na minha”, conclui, sangrando a jugular da invejosa.

O Brasil elegeu uma mulher divorciada para a presidência. Temos um casal intergeracional no vice-comando. Deveríamos saudar isso como bom exemplo de diversidade e quebra de preconceitos. Como sinal de que arranjos distintos de organização de vida são possíveis e factíveis. E não nos perdermos com invejas injustificadas, que servem mais para emperrar a vida de quem as sente.

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Fonte: Blog do Albino Incoerente