Crianças brincam num arco-íris

Diogo Francisco da Silva Estevam colocou uma banquinha com notebooks no calçadão do centro da cidade de Colatina, Espírito Santo, para pedir que as pessoas votassem na história que escreveu para o 6º Concurso Causos do Eca. O causo é sobre Wesley, um menino de dez anos que perdeu a pai aos três e que não vai à escola porque trabalha arduamente, vendendo amendoim, para ajudar a mãe a criar os cinco irmãos. “Quando ia trabalhar eu chegava tarde em casa e, no outro dia de manhã, eu não conseguia acordar para ir à escola, porque estava muito cansado. Fora as outras vezes em que eu acordava e sentava no sofá para esperar dar a hora de ir para a escola e acabava dormindo de novo”, escreveu Diogo. Para poder parar de trabalhar, e estudar, Wesley deixou a família, em Vitória, e foi morar na casa da tia, em Colatina. Voltou à escola e frequenta o Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) do bairro São Vicente. “Foi no CRAS que me deram a ideia de escrever a história, mas eu não esperava ganhar”, conta Diogo. Foi o CRAS, também, que cedeu os notebooks para Diogo fazer sua campanha.

O causo de Wesley, “O Ex-Vendedor de Amendoim“, recebeu 15 mil votos pela internet e é, na verdade, a história de vida do próprio Diogo. Ela foi eleita como a melhor entre as 21 finalistas, pelo Juri Popular do concurso. Esta foi a primeira vez, desde que o Causos do Eca começou, que houve uma votação por juri poplar. Na noite de ontem, o menino, hoje com 13 anos, subiu ao palco para receber seu prêmio, ao lado de um dos irmãos e com uma bandeira de Colatina nas mãos. Diogo chorava, a plateia chorava (vieram 33 pessoas de Colatina para a premiação), dessa vez por conta de um final feliz.

“Fiquei feliz em voltar a estudar, conhecer outras pessoas e ganhar material escolar. Tornei-me um menino feliz, porque parei de trabalhar e tive condições de frequentar a aula descansado, meu direito à educação foi garantido. (…) Hoje muita coisa mudou, acredito mais em mim, o que antes não ocorria porque sempre me diziam que eu fazia tudo errado e que eu não sabia de nada”, escreveu o menino, comemorando, entre outras coisas, o fato de ter aprendido, finalmente, a brincar.

O Concurso Causos do ECA é promovido pelo Portal Pró-Menino, da Fundação Telefônica, para divulgar histórias reais de vidas transformadas pela correta utilização do Estatuto da Criança e do Adolescente. Este ano o estatuto completou 20 anos desde sua promulgação, em 13 de julho de 1990. Ainda está longe de ser praticado em sua plenitude: no próprio livro “Causos do ECA: Muitas histórias, um só enredo”, que divulga os causos finalistas, a  socióloga Miriam Maria José dos Santos pergunta porque, afinal, Diogo precisou se afastar da família para conseguir frequentar uma escola. “Onde estava o poder público com os programas Bolsa Família, programas de geração de renda, oferta de creches para os irmãos pequenos e acompanhamento ao acesso e sucesso escolar de Wesley?”, escreve Miriam.

Parte da resposta a essa pergunta está no livro dos Causos do Eca. São exemplos do trabalho de professores, conselheiros, promotores e também de pais e de crianças e adolescentes para aplicar o estatuto. Este ano houve um recorde no número de causos inscritos — foram 1196 histórias –, o que é uma mostra do trabalho de formiga de milhares de pessoas para fortalecer o Sistema de Garantias a crianças e adolescentes. De 2009 a 2010, o amento no número de inscrições foi de 53%. A violação dos direitos foi o tema mais presente (53,8%) mas, na maioria das histórias, as intervenções para combatê-la foram bem sucedidas e mostraram que soluções para problemas como o Diogo envolvem a participação de muitos atores. No caso dele, a mãe que tomou a decisão difícil de mandá-lo para outra cidade, a tia que o recebeu, a escola e, fundamentalmente, o CRAS.

Cerca de mil pessoas participaram da cerimônia de premiação, no Memorial da América Latina, da qual participaram finalistas de nove Estados, além do Distrito Federal e onde foi lançado o livro. Neste ano, às duas tradicionais categorias – “ECA como Instrumento de Transformação” e “ECA na Escola” – somaram-se a premiação por Júri Popular, três menções honrosas e uma categoria especial, criada à parte, para funcionários do Grupo Telefônica. Neste ano, às duas tradicionais categorias – “ECA como Instrumento de Transformação” e “ECA na Escola” – somaram-se a premiação por Júri Popular, três menções honrosas e uma categoria especial, criada à parte, para funcionários do Grupo Telefônica.

A Fundação Telefônica entregou R$ 15 mil a cada um dos primeiros colocados de cada categoria, enquanto os segundos lugares receberam R$ 10 mil e os terceiros, R$ 5 mil, cada. A premiação por Júri Popular recebeu prêmio no valor de R$ 10 mil. Veja aqui os finalistas e os causos vencedores. O livro — assim como os causos dos concursos anteriores — pode ser visto, na íntegra, no Portal Pró-Menino.

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Fonte: A Rede