Daniella Forchetti

A arte propicia ir além das barreiras arquitetônicas e de comunicação. Possibilita criar um diálogo entre as pessoas. E como é possível trabalhar a inclusão através da arte? A proposta de dança inclusiva surgiu do crescente movimento mundial que vem ocorrendo em criar programas que valorizem a participação de todos, em especial pessoas com deficiência, tanto em atividades sociais, pedagógicas e culturais.

A dança por si só é  geradora de possibilidades expressivas, seja do eu ou de um grupo. A proposta de Dança Inclusiva é proporcionar à todos os participantes igualdade de condições para desenvolver seu potencial e criar formas para que ele se sinta integrado.

A arte possibilita que a pessoa entre em contato consigo mesma, reconhecendo seu potencial e desafios. Procurando manter uma visão otimista da situação, utilizei da palavra desafio no lugar de falta, como motivadora do desenvolvimento da pessoa. Ela não deixa de ser encarada, mas dada as devidas proporções, sendo um facilitador para que a pessoa entre em contato com sua realidade.

Visando contribuir com esse movimento criei o Projeto Arteiros há 10 anos, em fevereiro de 2000, em São Paulo, com o objetivo inicial de trabalhar a expressão corporal com pessoas com múltiplas deficiências e surdocegos. A metodologia era baseada nos estudos de Laban – Dança Educativa Moderna e Van Djck adaptada às pessoas com deficiência. Dessa forma, foi criado um modelo contemporâneo em que a dança inclusiva valoriza à participação de todos, aprendendo com suas diferenças e
semelhanças.

Atualmente nossos objetivos principais são desenvolver neste trabalho a consciência corporal, criatividade, socialização, comunicação e autonomia de todos os participantes. Os grupos costumam ser mistos, tendo pessoas com e sem deficiência. As formações dos grupos são feitas por habilidades e não por deficiência. Dessa forma, o grupo naturalmente se torna aberto. A comunicação permeia a todo momento a construção do diálogo entre os participantes, favorecendo o uso de sistemas de comunicação alternativa ou suplementar e da Língua Brasileira de Sinais (Libras). Essas formas diferenciadas de comunicação fazem parte de nossa criação coreográfica e de nossas apresentações em grupo, seja pelo uso dos sinais, objetos referenciais ou figuras do PCS ou COMPIC (figuras pictográficas e ideográficas).

Como forma de contribuir para a exploração do movimento e descoberta de si e da existência do mundo procurei utilizar da Dança Moderna Educativa, como base do trabalho. Essa “nova técnica de dança estimula o domínio do movimento em todos os aspectos corporais e mentais, ampliando-se na dança moderna como uma nova forma de dança cênica e social”(Laban, pg.16).  Nas escolas  o uso dessa técnica é variado: possibilita a expressão, a retomada da consciência do seus movimentos, preserva a espontaneidade dos movimentos, colabora na expressão criativa e cultiva a capacidade de fazer parte de danças coletivas.

Já para o psicólogo Van Djck as crianças com múltiplas deficiências e surdacegas têm dificuldade em distinguir a si mesma, sendo os outros prolongamentos do seu próprio corpo. Por isso, a separação do eu e do outro é essencial para o desenvolvimento de sua  representação e simbolização, imprescindíveis para aquisição e desenvolvimento de sua linguagem. Essa criança com deficiência descobre que seu corpo é um veículo com o qual poderá explorar o mundo através do movimento e da interação com o adulto.

Atualmente, após um curso para formação de professores em Danceabillity com Alito Alessa e em Danzaterapia com Maria Fux, foi possível aperfeiçoar meu trabalho de contato e improvisação e desenvolver uma nova possibilidade de criação em dança contemporânea.

Na minha experiência com Danças Circulares Sagradas foi possível desenvolver a socialização, já que ela busca retomar antigas formas de expressão de diferentes povos e culturas, buscando uma forma mais orgânica de expressar os sentimentos.

Também realizo um trabalho específico para mulheres através da dança do ventre e danças orientais. Desenvolvemos a auto-estima e o auto-cuidado das participantes, valorizando seu corpo, visando sua saúde global e interação em grupo. A dança se integra aos elementos da natureza e ela passa a se sentir parte dela.

Este programa já foi implementado em 9 instituições que desenvolvem atendimento às pessoas com deficiência. Participaram do projeto mais de 200 pessoas, entre crianças, adultos e idosos, 70% tinham algum tipo de deficiência.  Atualmente ele está sendo realizado na Estação Especial da Lapa.  Atualmente estão participando 90 pessoas, de 15 à 75 anos, 70% possuem alguma deficiência ou dores crônicas. Todos os trabalhos são oferecidos gratuitamente para os participantes. Esse trabalho antes de mais nada visa resgatar a qualidade de vida dos participantes, desenvolvendo valores como respeito e cooperação fundamentais para que haja um bom diálogo e compreensão entre as pessoas. Com esse projeto foi possível observar o resgate da auto-estima; a valorização dos participantes junto a seus familiares, possibilitando enxergar o potencial desses indivíduos. E, vivenciar  em grupo experiências que valorizam o diálogo/socialização dos participantes através de comunicações alternativas;

BIBLIOGRAFIA

FORCHETTI, D. A HISTÓRIA DE IAGO: o menino guerreiro no mundo da comunicação alternativa, PUC/SP, 2000.

______________   Fonoaudiologia e Liguagem Oral: práticas do diálogo. A prática fonoaudiológica na Surdocegueira e na Múltipla Deficiência Sensorial. Revinter, Rio de Janeiro, 2006.

FREIRE, P. Ação Cultural para a Liberdade e outros Escritos. Considerações em torno do ato de estudar. Paz e Terra, São Paulo, 1987.

LABAN,R. Dança Educativa Moderna (edição traduzida e ampliada por Lisa Ullmann) Ícone editora, São Paulo, 1990.

MOMMENSOHN,M. & PETRELLA,P. Reflexões sobre Laban, o mestre do movimento. Summus Editora, São Paulo, 2006.

VAN DJCK,J. Movimento e Comunicação com crianças rubéolicas. Conferência pronunciada na Reunião Geral Anual – ONCE, Espanha, Maio, 1968 ( Mímeo: Tradução Dalva Rosa).