Fórum Social Mundial 10 anos - grande Porto Alegre.

Por Vinícius Carvalho, jornalista do Portal da RTS

As crises ambiental, econômica e social estão se fundindo em uma só crise que marcará necessariamente uma transição civilizatória, defenderam este mês integrantes do coletivo Crise e Oportunidade no Fórum Social Mundial (FSM). Criado há dez anos como reação ao Fórum Econômico Mundial – bastião do capitalismo financeiro global –, o FSM mobilizou este ano mais de 35 mil participantes de 39 países na grande Porto Alegre e em Salvador. Em pauta, propostas contra o agravamento das desigualdades sociais, o atual modelo financeiro e as mudanças climáticas.

“Não é possível mais falarmos em crises diferentes, porque todas têm a mesma origem. Mas a questão ambiental é de todas a mais urgente”, defendeu a intelectual americana Susan George, responsável pela conferência de abertura do Fórum Social Mundial Temático, em Salvador. “Podemos voltar atrás no caso da injusta distribuição de riqueza ou do colapso financeiro. Mas uma vez que a questão climática saia do controle, não temos nenhuma chance de voltar atrás e recomeçar”, argumentou.

O que está em jogo, avisa, é vencer o atual modelo de desenvolvimento, que celebra a expansão do consumo e coloca aos países pobres a meta de reproduzir, em seus próprios países, as condições de vida dos países ricos – o que já se sabe ser materialmente impossível. Segundo relatório divulgado pelo Worldwatch Institute (WI), cerca de 7% da população mundial são responsáveis por 50% das emissões de gases do efeito estufa, enquanto os três bilhões de pessoas mais pobres emitem apenas 6%. Se todos consumissem a mesma quantidade de recursos que os americanos, por exemplo, o planeta conseguiria sustentar apenas 1,4 bilhões de pessoas, ou um quinto da atual população mundial.

O relatório chama de consumismo a orientação cultural que leva as pessoas a acharem contentamento, aceitação e significado para as suas vidas através do que possuem e utilizam. “Temos um deslocamento ético fundamental pela frente: parar de nos admirar com a fortuna dos afortunados, como se fossem símbolos de sucesso. A ética do sucesso deve estar centrada no que cada um de nós contribui para melhorar o planeta, e não no quanto consegue arrancar dele, ostentando fortunas e escondendo os custos”, avisa o economista Ladislau Dowbor, um dos autores do documento de referência do coletivo Crise e Oportunidade – grupo de intelectuais de diversos países dedicado a esboçar sugestões concretas contra a crise.

Para isso, diz Ladislau, um dos pontos de partida será alterar a forma como o mundo mede a riqueza. Diferentemente do PIB, que considera apenas a produção de bens e serviços para medir o progresso de uma nação, integrantes do grupo voltaram a rediscutir o conceito de Felicidade Interna Bruta (FIB), que surgiu a partir de uma experiência implantada em 1972 no Butão. Neste pequeno país da região do Himalaia, na Ásia, a conta passou a incluir também aspectos como padrão de vida; boa governança; estado de saúde; educação; diversidade cultural; resiliência ecológica; vitalidade comunitária; uso equilibrado do tempo; e bem estar psicológico.

Escândalo social

A mudança é mesmo urgente. Segundo estudo da Universidade das Nações Unidas, 2% das pessoas têm mais da metade das riquezas mundiais, enquanto os 50% mais pobres concentram menos de 1% – desigualdade que só se acentua ano após ano. Se em 1960 a renda apropriada pelos 20% mais ricos era 70 vezes o equivalente dos 20% mais pobres, na virada do século já era da ordem de 140 vezes.

Os caminhos para dobrar estas desigualdades já são em parte conhecidos. Segundo as Nações Unidas, custaria US$ 300 bilhões tirar da miséria um bilhão de pessoas que vivem com menos de um dólar por dia, custo ínfimo se considerados os trilhões transferidos para grupos econômicos financeiros na última crise financeira.

Se levar educação básica para todos custaria investimentos de US$ 6 bilhões por ano até 2015, como indica a ONU, apenas a indústria cosmética nos EUA movimenta, anualmente, cerca de US$ 8 bilhões. Se levar água e esgotos para todos, outro objetivo do milênio, custaria investimentos anuais de US$ 9 bilhões até 2015, só o mercado europeu de sorvetes movimenta anualmente US$ 11 bilhões. E não é só. O planeta produz quase um quilo de grãos por dia por habitante, mas um bilhão de pessoas ainda passa fome, sendo que dez milhões de crianças morrem de fome e de falta de acesso à água limpa todos os anos.

“Não existe uma bala de prata que resolverá a crise. O que sabemos é que por essa lógica econômica que está aí resolver problemas essenciais não rende”, cobrou Ladislau. Para o senegalês Bernard Tchuigoua, do Forum du Tiers Monde, o que está em jogo é o próprio sentido de humanidade. “Na África há suporte para qualquer país que proponha ações na área de segurança e combate ao terror, mas nada para quem proponha combater a pobreza”, criticou.

Enquanto a virada não vem, o planeta cobra seu preço. Segundo dados das Nações Unidas, o mundo já enfrenta a maior onda de perda de biodiversidade desde a extinção dos dinossauros, há 65 milhões de anos. Nada menos que 40% da população de 3 mil espécies animais e vegetais desapareceram nos últimos 40 anos, até 52% das aves estão ameaçadas de extinção e 35% dos manguezais já foram dizimados.

Nesta onda massiva de extinção, quem sofre cada vez mais com a devastação são os pobres. De 24 serviços ambientais avaliados pela ONU, 15 estão em declínio. Estes incluem o fornecimento de água doce, a produção da pesca marinha, a regulação de desastres naturais e a capacidade dos ecossistemas agrícolas de controlar pragas. Como os mais pobres dependem de forma mais imediata dos serviços ambientais para sua sobrevivência e não têm como pagar por alternativas, muitas vezes não resta a estas populações outra opção que não o exílio. “O atual modelo de civilização está em crise e não é mais possível remendá-lo. Estamos destruindo o planeta para uma pequena parte da população mundial”, destacou a senadora Marina Silva, em Porto Alegre.

Soluções concretas

No futuro, os jovens não trabalharão antes dos 25 anos de idade e terão a graduação universitária como piso, enquanto as jornadas de trabalho poderão ser reduzidas para dez horas semanais. A mudança imaginada pelo presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Marcio Pochmann, poderia começar a ser financiada com fundos públicos provenientes do imposto sobre os lucros financeiros mundiais, que hoje correspondem a dez vezes a riqueza da economia real. Por um lado, a decisão permitiria o acesso de mais pessoas ao mercado de trabalho, mesmo diante do crescimento populacional. Por outro, garantiria também maior acesso de todos ao lazer e à formação continuada.

Propostas como estas estão entre as primeiras sugestões apresentadas pelo membros do FSM como reação à crise. Entre as mais frequentemente sugeridas está a taxação das transações especulativas. Segundo a proposta de James Tobin, uma taxa de 0,20% sobre cada transação reduziria drasticamente a lucratividade dos que têm como atividade o constante movimento de capitais, e não o investimento na economia real e no investimento produtivo. “Os presidentes Nicolas Sarkozy (França) e Angela Merkel (Alemanha) já manifestaram apoio à taxa Tobin. Precisamos entender que o mercado não distribui apenas bens, mas também miséria e pobreza”, avalia o alemão Peter Wahl, dirigente da organização Economia, Ecologia e Desenvolvimento (Weed).

Para Wahl, o sistema tributário também precisa ser reformulado, privilegiando atividades produtivas e penalizando as especulativas. “Outra coisa é discutirmos a taxação das grandes riquezas em favor do equilíbrio social. No Brasil, 78% das pessoas ganham até três salários mínimos e gastam cerca de 40% em carga tributária. Quem ganha mais de 30 salários mínimos paga o equivalente a 25% em imposto. Isso é inaceitável”, disse no FSM  Artur Henrique da Silva, presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT).

Outra proposta envolve o cancelamento das dívidas dos países pobres, atreladas a investimentos em favor do desenvolvimento. O caso valeria para o próprio Brasil, segundo defende o articulista do EcoDebate Valdir Guedes Junior. No ano de 2008, diz, foram R$ 282 bilhões gastos com a dívida, o que corresponde a 32% do orçamento da União. Isto significa que o valor gasto com saúde é cerca de seis vezes menor que o empregado no pagamento da dívida, educação é mais de 12 vezes menor. “E se este dinheiro fosse investido na área climática?”, pergunta.

Durante o encontro, o gerente da Unidade de Desenvolvimento Territorial do Sebrae Nacional, Juarez de Paula, destacou também a oportunidade de investimento em novas tecnologias como vetor de mudança na cultura dos processos produtivos. Para ele, a crise deve abrir frentes de inovação em cinco grandes temas: energia, água, produção de alimentos, moradia e transporte. “Um mundo novo vai precisar de um novo modelo de negócio, com foco nos pequenos negócios locais – que geram muito mais empregos. Óbvio que para isso são necessárias também tecnologias novas e sustentáveis”, afirmou.

A projeção é confirmada pelo Ipea, que mapeou o emprego no país. Segundo o estudo, o Brasil tinha 38,4 milhões de pessoas trabalhando em empresas com até dez funcionários em 2008, o que equivale a 54,4% de todos os postos de trabalho do país e a 57,2% da massa de rendimento do trabalho, que é a soma dos rendimentos de todos os trabalhadores.  Ainda de acordo com o Ipea, a cada três ocupações abertas no segmento privado não-agrícola entre 1989 e 2008, duas foram em empresas com até dez trabalhadores.
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Fonte: RTS