Por Jamile Chequer e Diego Santos

O Fórum Social Mundial (FSM) completa 10 anos de existência. Nesse período, o Fórum se estabeleceu como espaço plural de discussão e construção de novas agendas. A edição de 2009, em Belém do Pará, reuniu cerca de 150 mil ativistas e representantes de movimentos sociais do mundo inteiro. Este ano, uma agenda reúne os diversos encontros pelo mundo. Nesta entrevista, a coordenadora do Ibase e integrante do Grupo de reflexão e Apoio ao processo FSM, Moema Miranda, faz um panorama do processo FSM 2010 e aponta alguns desafios que ainda precisam ser enfrentados.

Ibase: O que significa 10 anos de FSM?

Moema Miranda: O FSM nasceu em um mundo bastante diferente, no apogeu do pensamento neoliberal e em um momento no qual surgiam diversos questionamentos. Os movimentos sociais ainda estavam fragmentados e divididos. Era necessário que existisse um espaço aberto com a possibilidade de um diálogo amplo e que possibilitasse o aprofundamento da crítica ao neoliberalismo. Hoje o FSM significa isso, e representa ainda mais, a diversidade.

Ibase: Os primeiros FSM eram claramente um contraponto a Davos, hoje isso ainda permanece?

Moema: Nesse tempo pudemos perceber que Davos sofreu uma enorme derrota. Perdeu a centralidade e a força. O contraponto se mantém por que o Fórum Econômico Mundial ainda recebe os chefes de estado que discutem os pontos que regulamentam o sistema capitalista. Porém, é muito complicado ter pessoas importantes reunidas em um lugar para debater o sistema econômico enquanto em outras partes do mundo acontecem enchentes, secas e as calotas polares derretem.

Ibase: Você percebe uma mudança da leitura da mídia em relação ao processo FSM? De que forma?

Moema: A grande mídia busca sempre respostas simples e fáceis para questões complexas. Ainda não conseguimos transformar a leitura da mídia hegemônica. A mídia precisa entender a necessidade de questionar o modelo. O que vimos nos últimos anos é justamente o oposto disso, o FSM ganha cobertura mas sem que o modelo dominante seja questionado.

Ibase: Como será a dinâmica do encontro este ano? Quantos encontros estão sendo realizados pelo mundo?

Moema: Há uns quatro anos percebemos a necessidade de conferir à dinâmica do FSM uma característica de expansão e centralidade, uma vez que nem sempre os movimentos sociais poderiam estar em um único lugar. Com isso, foram criados, além dos Fóruns centrais, os Fóruns temáticos e regionais. Este ano, em janeiro, será realizado o Fórum grande Porto Alegre e, ao longo do ano diversos fóruns temáticos e regionais completam a agenda: Fórum da Crise civilizatória, Fórum de Educação na Palestina, Fórum das Américas, Fórum dos Sem-Estado, que este ano será realizado na Catalunha, Espanha, entre outros.

Ibase: Quais são as suas expectativas para o seminário internacional “10 Anos depois: desafios e propostas para um outro mundo possível”, em Porto Alegre?

Moema: É muito importante frisar que o seminário é uma atividade auto-gestionada e que não deve ser confundida com o próprio FSM. O evento contará com a participação mais de 50 palestrantes internacionais e diversas lideranças brasileiras também. O seminário é organizado pelo Grupo de Reflexão e Apoio ao processo FSM e pretende examinar os novos desafios com os quais nos confrontamos e projetar caminhos futuros que o FSM poderá percorrer, na desafiadora conjuntura global que se abre. Mas quer também realizar uma reflexão mais sistemática sobre o que fomos capazes de realizar até aqui, nossos erros e acertos, nossa dinâmica institucional, enfim é um seminário para uma reflexão estratégica.

Ibase: Quais são os desafios futuros do processo FSM?

Moema: O maior desafio que o processo FSM encontra atualmente é o de compor uma agenda comum entre os movimentos sociais que contemple a diversidade sem que haja fragmentação. É necessário que se avalie os temas e os discuta sob uma ótica comum, que não privilegie apenas uma bandeira, mas que a agenda de discussão esteja pautada na diversidade que os próprios temas propuserem.

Publicado em 08/01/2010.
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Fonte de informação: IBASE