Fotos de mãos representando as letras do alfabeto da língua brasileira de sinais, Libras
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Projecto aborda exercício de cidadania em comunidades em desvantagem

A Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto apresenta hoje, terça-feira, um projecto de investigação, a desenvolver nos próximos 14 meses, sobre a problemática da surdez e a forma como exercem a sua cidadania.

O estudo – integrado num projecto europeu, designado Profacity, que investiga comunidades que, de alguma forma, vivem à margem (cidadanias profanas) – pretende, no nosso caso, debruçar-se sobre a surdez e a forma como os surdos constroem a sua vida em sociedade. Do mesmo modo, pretende identificar quais as fragilidades no exercício da sua cidadania.

“Esta investigação visa contribuir para a discussão e a reflexão sobre as condições que favorecem a fragilização e/ou promoção dos processos de construção de cidadania dos surdos”, explica Orquídea Coelho, coordenadora na equipa portuguesa.

O trabalho de campo

Ao longo dos próximos 14 meses, esta equipa vai estudar comunidades educativas com alunos surdos; contextos informais de sociabilidade, ou seja, espaços onde convivem, como teatros ou eventos desportivos; e, ainda, contextos de proximidade, isto é, como vivem em família.

O trabalho será levado a cabo junto de surdos isolados que não têm uma língua comunitária, bem como junto de surdos em pleno exercício de cidadania como, por exemplo, dirigentes associativos, que são, muitas vezes, “quem acaba por fazer pressão visando alterações legislativas que contribuam para uma cidadania plena”, acrescentou Orquídea Coelho.

De acordo com os investigadores, a análise incidirá em iniciativas cívicas de propriedade democrática, relacionando-as com três dimensões estruturantes: as atestações de identidade, a língua e os códigos sociais e os recursos de urbanidade.

A equipa portuguesa é composta por 18 elementos. Integra investigadores surdos e ouvintes, entre os quais docentes e investigadores em Ciências da Educação, bolseiros de investigação, intérpretes de língua gestual portuguesa, formadores surdos, professores ouvintes de alunos surdos, mestrandos e doutorandos da área das Ciências da Educação e das áreas de especialização em surdez e educação.

O projecto é lançado hoje para que daqui a dois anos haja uma permuta de experiências com os parceiros europeus (França, Eslovénia, Bélgica e Holanda). O Profacity visa estudar cidadanias profanas, ou seja, experiências de cidadania por parte de pessoas, grupos e/ou comunidades em desvantagem e/ou falta de recursos que põem em causa o seu direito a ter direitos, no que se refere ao exercício efectivo dos seus direitos democráticos e de cidadania.

“Este projecto – em que cada país escolhe um grupo alvo para estudar- visa perceber as vivências e práticas de grupos ou comunidades onde o exercício efectivo dos seus direitos estaja colocado em causa e, ainda, a forma como reconfiguram e transformam o exercício da cidadania”, defendeu a coordenadora.

Em Portugal, esta fase do projecto contará com 14 meses para daqui a dois anos começar-se a cruzar informações com os parceiros europeus.

No final do projecto, ficar-se-á a saber como é que vivem várias comunidades que, de alguma forma, estão à margem. Como vivem, como exercem a sua cidadania, quais as fragilidades e pontos fortes nesse exercício e como transformam essas mesmas dificuldades.

Fonte: Jornal de Notícias – Portugal

 http://jn.sapo.pt/PaginaInicial/Sociedade/Interior.aspx?content_id=1461790