http://topicosemautismoeinclusao.blogspot.com/2008/05/assim-caminha-educao.html

O conjunto de absurdos do coordenador da Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia :

Como costuma acontecer em todos os níveis de educação…quando os estudantes não aprendem a culpa só pode ser deles mesmos (veja as notícias abaixo)

Assim caminha a nossa educação, magnânima, infalível, perfeita.

Quer dizer, para ser perfeita mesmo só se as escolas conseguissem se livrar dessas coisinhas que atrapalham, chamadas de alunos (do latim alumni =sem luz)

Fabio Adiron

Comentários de Romeu Kazumi Sassaki

No Brasil, notícias sobre a baixa (para não dizer “má”) qualidade da educação, nos três níveis escolares, têm saído na mídia freqüentemente há décadas. Esta notícia sobre o curso de medicina da Ufba seria apenas mais uma. Porém, ela traz no bojo três aspectos extremamente graves, nocivos:

[1] O aspecto da responsabilidade pelo fracaso escolar. Dificilmente uma escola assume tal responsabilidade, mesmo porque, no caso da Faculdade de Medicina (Famed), o coordenador prof. Antonio Natalino Manda Dantas disse: “Temos um corpo docente muito qualificado com 90% dos professores com mestrado ou doutorado. Além disso, temos boa infra-estrutura”. O equivocado raciocínio dele é óbvio: Se quase todos os professores são mestres ou doutores, a culpa pelo fracaso escolar só pode ser dos alunos. Só que ele parece preferir ignorar um outro raciocínio, este sim uma expressão da verdade: “Se o aluno não aprendeu, é porque o professor não soube ensiná-lo”. Gostei do reitor da Ufba, prof. Naomar Almeida (leia mais sobre ele após o item 3), por dizer à Band FM de Salvador que o prof. Natalino, como é conhecido na Ufba, deveria averiguar/investigar primeiro como está o ensino, o que está errado na metodologia dos professores e na Famed enquanto instituição, e não culpar os alunos.

[2] O aspecto da forma como a aprendizagem escolar ocorre. Segundo a notícia dos jornais, o coordenador “atribui a nota baixa ao baixo QI dos alunos”. É inadmissível, inacreditável, que até diretores e professores universitários ainda percebam o ser humano como possuindo apenas uma inteligência, a lógico-matemática, mensurável pela aplicação de baterias de testes de QI. Interessante é que o próprio coordenador, sem se dar conta, admite que existem múltiplas inteligências ao apontar “como principal medida para atender às solicitações do MEC a reformulação da grade curricular, iniciada em 2007, prevendo a inserção precoce do aluno no contato com pacientes, o que significa maior ênfase à prática”. Apontar a necessidade de prática em hospitais e postos de saúde já é um bom sinal, mas a reformulação não pode resumir-se nisso. É necessário também mudar as formas pelas quais os professores ensinam dentro das salas de aula. Além disso, há a questão da avaliação do aprendizado. O coordenador geral do Diretório Acadêmico da Famed/Ufba, Gabriel Schnitman, concorda que há muito a melhorar e lembra, entretanto, que o boicote dos alunos ao Enade, promovido em campanhas nacionais pela Executiva Nacional dos Estudantes de Medicina, também influenciou o resultado. “Os estudantes acreditam numa avaliação formativa e processual”, explica Schnitman. Sabemos que a avaliação formativa e processual, também conhecida como avaliação ipsativa, é completamente diferente da avaliação tradicional que se dá por meio de provas e exames pontuais. É também a melhor forma de avaliar a aprendizagem.

[3] O aspecto do preconceito racial. Não saiu nos jornais que publicaram a notícia sobre o curso de medicina da Ufba. Mas eu assisti ao noticiário pela TV em que aparece o prof. Antonio Natalino Manta Dantas, coordenador da Faculdade de Medicina (Famed)/Ufba. Ele, na TV, atribuiu a nota baixa ao “baixo QI dos baianos em geral”. E, para reforçar esse argumento, disse o seguinte: “O povo baiano tem QI mais baixo que a média nacional, ele não tem aquele desenvolvimento intelectual” (sic), “O baiano toca berimbau porque este tem só uma corda, se tivesse mais cordas o baiano não conseguiria tocar” (sic). E disse mais, citando o Olodum: “Os instrumentos de percussão do Olodum só têm sons e ritmos: tucutum-tucutum-tucutum… não vejo superioridade intelectual nisso” (sic). A íntegra de tais declarações está no áudio gravado pela Band FM de Salvador.

Portanto, o prof. Natalino ofendeu a dignidade dos alunos da Famed (entre os quais podem estar alguns alunos com deficiência) e ofendeu a dignidade dos habitantes da Bahia (15,6% dos quais têm deficiência, segundo o IBGE 2000). O reitor da Ufba, prof. Naomar Almeida, foi entrevistado e se posicinou chocado com as declarações do prof. Natalino. Disse que, como reitor, não poderia demiti-lo porque o cargo do prof. Natalino é eletivo e somente a Famed poderia tomar essa decisão. Mas o prof. Almeida disse que já requereu à Famed a exoneração do prof. Natalino, por considerar “abominável, discriminatório, reacionário e conservador” (sic) o teor das declarações, que extrapolaram a conduta esperada de um gestor acadêmico. E espera qua Promotoria Pública se pronuncie sobre este “ilícito penal, crime de racismo” (sic).

Fábio, como você disse, assim caminha a educação…


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