O ensino da filosofia e da sociologia: Contribuição para a inclusão escolar

sexta-feira, julho 31, 2009
Ilustração de carta simbolizando o e-mail.

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Envie por e-mail | Aumentar a fonte do texto. Diminuir a fonte do texto. | Por Equipe Inclusive

por Guga Dorea

O Ministério da Educação e Cultura homologou a decisão do Conselho Nacional de Educação (CNE) que obriga todas as escolas do ensino médio a implantarem em sua grade curricular, até agosto de 2007, as disciplinas de filosofia e de sociologia. Como toda regra, há sempre aqueles que criticam. A principal dúvida, em relação a essa lei, é quanto à defendida autonomia das escolas para criarem seus currículos. Correta ou não, dizem esses críticos, essa resolução deveria partir dos próprios estabelecimentos de ensino.

Apesar de já ser obrigatório em muitos Estados, vale ressaltar essa decisão. Afinal, de acordo com o CNE, serão mais de nove milhões de estudante em 23. 561 escolas públicas e particulares atingidos pela medida. É nesse contexto que tenho como objetivo, com esse artigo, abrir um debate sobre os possíveis efeitos dessa lei no âmbito escolar e, conseqüentemente, na vida social dos alunos do ensino médio. Para completar, pretendo ainda buscar uma conexão com a também obrigatória inclusão escolar da chamada pessoa com deficiência.

Sem a pretensão de esgotar o tema, começo então trazendo a tão pouco compreendida transdisciplinalidade. Quem já nos ajudou a pensar muito sobre essa questão foi o antropólogo Edgar Morin. Para ele, não é mais possível imaginar conteúdos programáticos estanques, como as que são denominadas como ciências biológicas e exatas, de um lado, e as humanas de outro, o que exige, por parte do sistema de ensino, uma desfragmentação cada vez maior das disciplinas.

Segundo Morin, as escolas insistem ainda em uma espécie de “hiperespecialização” que transforma todas disciplinas em compartimentos isolados entre si. Parcelar o conhecimento em prateleiras fechadas, enfatiza ele, não explica mais a realidade ou a complexidade dos dilemas enfrentados atualmente pela sociedade contemporânea. “O conhecimento das informações ou dos dados isolados é insuficiente. É preciso situar as informações e os dados em seu contexto para que adquiram sentido” (p. 36 ).

Esse ensino extremamente fracionado, afirma Morin, tende a levar a uma preocupação excessiva apenas com a especialização, pois a escola, ao cercear as partes do saber, não ensina os alunos a contextualizar e organizar o aprendizado diante das incertezas de um mundo cada vez mais imprevisto e plural em relação às diferenças humanas. Tal processo não poucas vezes gera uma desresponsabilização do indivíduo em tecer algo maior do que si próprio na relação com o outro. Enquanto isso, conclui o antropólogo, a escola, da forma como ela continua a ser conduzida,

“pode também cegar e conduzir a excluir tudo aquilo que não seja quantificável e mensurável, eliminando, dessa forma, paixões, emoções, dores e alegrias. Da mesma forma, quando obedece estritamente ao postulado determinista, o princípio da redução oculta o imprevisto, o novo e a invenção” (p. 42).

Trata-se aqui de entender que essa maneira de ensinar confunde e reduz o verdadeiro sentido do que é educar com a simples transmissão de conteúdos pré-determinados. Colocar como obrigatória o ensino de filosofia e sociologia, nesses moldes, pode gerar um efeito inesperado, ou seja, o surgimento de mais duas matérias desvinculadas dos outros conteúdos, correndo-se sérios riscos delas passarem a ser vistas pelos alunos como não significativas para a realidade concreta de suas vidas.

Agora, se elas estiverem nutrindo as outras disciplinas, talvez o ensino como um todo se torne mais interessante. Nessa perspectiva, será papel do professor conseguir demonstrar que filosofia e sociologia estão intimamente ligadas à existência e aos problemas individuais e coletivos de cada um de seus alunos. Deve-se buscar, nesse sentido, a união dos conhecimentos, tendo como princípio básico a criação do que o próprio Morin chamou de “consciência terrena”, na qual todos tenham dentro de si um sentimento recíproco de que coexistimos com modos de ser e de viver singulares.

Quando ensinei filosofia e sociologia para cursos universitários de comunicação e direito, notei uma nítida cisão curricular entre as intituladas disciplinas especializadas e as teóricas, como se o exercício de profissões como essas nada tivessem a ver com filosofia e sociologia, ou melhor, com a realidade social, política e econômica da realidade na qual eles estarão inseridos e exercerão suas atividades profissionais.

A TRANSDISCIPLINALIDADE E A INCLUSÃO ESCOLAR

Continuando nessa linha de raciocínio, vem a seguinte questão: o que essas duas disciplinas podem auxiliar na inclusão social da pessoa vista como deficiente? Há uma tendência sociológica, alguns dizem que inevitável no mundo de hoje, dos jovens procurarem suas “tribos” para se relacionarem. Nelas há todo um modo de ser o mais homogêneo possível, incluindo a. mesma linguagem e até formas semelhantes de se vestir e de se comportar socialmente.

Nesses modos circunscritos de viver, o que estiver fora – do que pensadores como Gilles Deleuze e Félix Guattari chamaram de “territórios existenciais” – é taxado como “estranho”, limitando, conscientemente ou não, a troca com os concebidos negativamente como diferentes. “Como conversar e até ter uma certa amizade com alguém que não fale a mesma língua dos pertencentes a meu grupo, sem ser mal visto e interpretado pelos seus integrantes, sobretudo daquele que encarna a figura do líder”?

Se indagações como essa vale entre os chamados “normais”, quanto mais em relação a um possível relacionamento com aqueles que sempre foram estigmatizados como inferiores e que, portanto, eram (e ainda são) obrigados a passar por um processo de “normatização” para serem inseridos e reconhecidos no convívio social.

É necessário, portanto, promover um paralelo entre essa visão filosófica e o mundo atual, no sentido de que ainda somos acostumados a pensar em uma divisão hierárquica entre “nós” e “eles” ou entre “normais” e “anormais”. Muitas escolas, mesmo algumas “inclusivas”, continuam a reproduzir esse modelo excludente: “eles são apenas um pouco diferentes dos outros”.

Frases como essas, que pretendem explicar o que é a Síndrome de Down, já fazem parte do senso comum. Mas cabem aqui algumas ressalvas: que outros são esses? Eles são “diferentes” em relação a que modelo de “normalidade”? E quem definiu essa normalidade? E mais: como definir o que é como se desenvolve o chamado atraso no desenvolvimento intelectual?

O próprio pensamento filosófico está aí para nos ajudar a pensar sobre essas questões. Já tratei em artigo anterior, publicado por essa mesma revista, o quanto alguns conceitos filosóficos tendem a justificar a produção histórica da separação dos seres humanos em “iguais” e “diferentes”. A partir do instante em que, como dizia Platão, todos nós temos que nos basear em um modelo ideal de sociedade, resta a exclusão aos que não se assemelham a esse modelo ou ainda a busca, muitas vezes angustiante, para se aproximar dele e passar a participar do “seleto” clube dos “iguais”.

Caso os professores de sociologia e filosofia consigam, além de conectar as suas disciplinas às outras, afetar os alunos para que eles se indaguem sobre essas temáticas, o que significa redimensionar posturas normatizantes de existência, talvez um verdadeiro desejo pela inclusão se desenvolva no âmbito escolar. Tal processo, na verdade, deve ser iniciado desde a educação infantil. No entanto, como já mostrou Mantoan, a escola ainda reproduz vícios do passado ao se pautar por um currículo estagnado e pela idéia de um aluno ”modelo” cada vez mais homogeneizado, caracterizando os demais como “atrasados” nesse galopante processo de ensinar.

“Sabemos que o ensino básico como um todo (educação infantil, educação fundamental e ensino médio) é prisioneiro da transmissão dos conhecimentos acadêmicos e os alunos de sua reprodução, nas aulas e nas provas. A divisão do currículo em disciplinas como a matemática, a língua portuguesa, etc, fragmenta e especializa os saberes e faz de cada matéria escolar um fim em si mesmo e não um dos meios de que dispomos para esclarecer o mundo em que vivemos e entender melhor a nós mesmos” (p.187).

O professor também deve deixar, como diria Deleuze, a partir do filósofo Espinosa, ser afetado pelo aluno, não mais se proclamando como um profissional pronto e unicamente especialista. Ora, se pensarmos que a idéia de normalidade foi uma criação filosófica e sociológica, nada como romper essa visão hierárquica do que é educar, revelando aos alunos, como já o fez o sociólogo Boaventura dos Santos, que é possível lutar pela igualdade quando a diferença nos inferioriza e pelo direito a sermos diferentes quando a idéia de igualdade busca a aniquilação da própria diferença.

Finalizo esse artigo com um poema do músico Arnaldo Antunes: “Todas as coisas do mundo não cabem numa idéia. Mas tudo cabe numa palavra, nesta palavra tudo”. Nesse contexto, a palavra “tudo” basta para que as diferenças, lembrando que todos nós temos singularidades e potencialidades próprias, possam coexistir mutuamente, o que significa não mais se fechar em “guetos” e sim abrir espaços para a conexão com o outro, mesmo que ele não atinja o mesmo ritmo. Enquanto nossas escolas continuarem a acreditar que todos os seus alunos cabem em uma única forma de ensinar, investindo em um platônico aluno idealizado, talvez enfrentemos ainda muitas barreiras para criar uma sociedade realmente inclusiva e democrática.

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Sobre o autor:

Guga Dorea é Jornalista e doutor em Sociologia. Atua hoje em dia como professor de cursos de pós-graduação em Educação Inclusiva e do curso de especialização em síndrome de Down, organizado pelo Centro de Estudos e Pesquisas Clínicas (CEPEC), além de pesquisador e articulista nas áreas social, educacional e inclusiva. É também integrante do Instituto Futuro Educação, uma entidade sem fins lucrativos que tem como forma de atuação projetar e propor cursos, seminários e oficinas que abrangem desde a filosofia e a sociologia da diferença até a educação democrática e inclusiva. Contato:  gugadorea@uol.com.br

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4 Responses to “O ensino da filosofia e da sociologia: Contribuição para a inclusão escolar”

  1. Jociel Moreira on 30 de abril de 2010 at 17:59

    A leitura deste artigo trouxe-me informações valiosas sobre o ensino de filosofia e sociologia, propocionando uma grande reflexão ao ensino e sua real importância na vida do aluno.

  2. gabriela ribeiro de souza on 14 de junho de 2010 at 15:20

    Nossa a sociologia e a filosofia hoje ainda enfluencia muito no ramo escolar,sim…

  3. gabriela ribeiro de souza on 14 de junho de 2010 at 15:26

    traz tambem muita informação para nós próprios pesquisadores da net,prescisamos e buscamos da informação parao nosso mundo escolar.Deixando nosso mundo de connhecimento muito mais equilibrado,deixando a nossa vida de aluno mais completa…!Valeu

  4. Heitor Carvalho on 8 de dezembro de 2010 at 13:53

    Sabemos que, o devido reconhecimento da Filosofia e Sociologia como disciplinas essenciais a formação humana ainda não é reconhecida por todos. Mas, verificamos iniciativas preciosas de inúmeros intelectuais e Docentes de todos os campos do saber, que pelo excelente trabalho de desempenha no Magistério e como formadores de uma visão crítica na Sociedade Contemporânea, aos poucos vão despertandos as consciência do sono dogmático. É evidente que, temos muito ainda a fazer.Porém, cada pessoas que conseguimos demonstrar o inestimável valor destas ciências. Verificamos que sua compreensão da vida, do mundo, das religiões, sofrem profundas e significativas transformações, que permitirão, num futuro bem próximo, a concretização do que idealizamos na construção de um novo Ser Humano integrado com o cosmo. Deixo aqui um conselho a todos os Amigos do Conhecimento, para divulgem cada vez mais suas iniciativas,para que, os recursos e materiais didático que temos possam atingir realmente aos desbravadores desta nova era, que procura superar seus limites existencias, á fim de colaborar na construção de uma Educação de qualidade e o devido reconhecimento de seus Educadores. Espero ter contribuído na motivação de todos os leitores e Docentes conprometidos. Sendo assim, disponho meu E-mail para quem desejar receber algum material utilizado por mim. Além de ser uma oportunidade de trocarmos idéis e experiências, que com certeza enriquecerão a todos. heitorv.carvalho@yahoo.com.br OBS: Favor identificar-se e apresentar o que deseja receber ou enviar, para que eu possa ajudá-lo. Desde já agradeço vossa atençao. Prof. Heitor Carvalho / MG.

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