Livro infantil aborda questões como o preconceito e a diversidade

segunda-feira, julho 27, 2009
Ilustração de carta simbolizando o e-mail.

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Envie por e-mail | Aumentar a fonte do texto. Diminuir a fonte do texto. | Por Equipe Inclusive

Um saci nasce com uma estranha condição: duas pernas! Mas o que poderia ser uma vantagem acaba se tornando um verdadeiro fardo para ele. Os outros sacis e os animais da floresta riem às suas custas e, em muitas situações, o saci de duas pernas acaba sendo excluído. Os coleguinhas de sala, por exemplo, sentem raiva porque ele é o único que consegue pular amarelinha.

Essa foi a forma, divertida e didática, que o escritor Djair Galvão Freire encontrou de apresentar para as crianças questões como o preconceito e as diferenças entre pessoas. De sua experiência como professor em escolas públicas, nasceu o livro O Saci de Duas Pernas, prestes a ter sua segunda edição lançada pela editora Anita Garibaldi.

Na imagem, a capa do livro "O Saci de Duas Pernas" constando o título do livro escrito na cor vermelha e, também, a ilustração do personagem Saci, com duas pernas, saltitando em um campo.

Na imagem, a capa do livro "O Saci de Duas Pernas" constando o título do livro escrito na cor vermelha e, também, a ilustração do personagem Saci, com duas pernas, saltitando em um campo.

Jornalista, natural do Rio Grande do Norte e radicado na capital paulista desde o inicio da década de 1990, Freire atuou em rádios e jornais de Natal e do interior potiguar. Em São Paulo foi colaborador da Agen (Agência Ecumênica de Notícias), do Movimento Nacional dos Direitos Humanos, do Grupo Tortura Nunca Mais e dirigiu o Jornal Página 1. É professor titular de História da rede municipal de ensino de São Paulo. Participou do projeto Educom. Rádio, da Prefeitura de São Paulo, e foi Coordenador de Projetos Educacionais do Centro Educacional Unificado (CEU) Vila Curuçá. Na entrevista a seguir o escritor fala sobre a sua obra e a importância de se discutir o preconceito entre as crianças desde a infância.

Por que é importante lidar com a diversidade desde a infância?
É fundamental porque é o único caminho para a construção de uma sociedade que tenha como base o respeito e o crescimento sadios. A família é o núcleo onde o assunto deveria ser insistentemente tratado, pois temos parentes com caras, jeitos, gestos e características diversas. Sempre que os pais são cuidadosos, lidam bem com a diversidade, a chance de uma criança crescer reproduzindo preconceitos é muito pequena, eu diria praticamente nula. Mesmo que ela encontre terreno fértil em outros locais. Claro que cabe à escola fomentar essa cultura de paz, de convivência e de respeito, pois é nela que os futuros adultos passarão pelo processo de formação complementar. E a escola é o ambiente onde a diversidade familiar é ampliada para a diversidade social.

Como você trabalhava, na prática, a questão do preconceito com seus alunos?
Sempre trabalhei como prática pessoal ao longo da vida e não poderia ser diferente na sala de aula. Foi um elemento da minha formação que levei à sala, em geral buscando razões históricas, pesquisas, redação, leitura, cinema, música. E, também, noticiário que abordava essas questões, mesmo que de forma velada.

Como eles correspondiam?
A reação deles partia da reprodução dos preconceitos que estão na mídia, nos grupos de convivência social ou familiar, mas acabavam evoluindo quando eu pedia para que a gente se colocasse no lugar de quem sofre preconceito. Ainda mais com a diversidade nas salas, diferenças socioeconômicas etc, muita gente que achava engraçado no início das discussões sempre acabava se envergonhando de reproduzir o que repetia. Nem sempre isso dava um resultado prático, pois a criança volta para casa e para seus núcleos de convivência e é pressionada a reproduzir comportamentos preconceituosos.

Até que ponto o preconceito interfere na formação e na aprendizagem de uma criança?
Interfere muito, de forma negativa, faz a criança se sentir menor, incapaz, sem condições de ir à frente, e pode também despertar comportamentos agressivos. Isso é ruim para a formação, pois a vida é feita de elementos diversos, a sociedade idem. A aprendizagem é afetada diretamente porque a preocupação de quem sofre preconceito é sempre buscar meios de fugir daquela situação, de mudar, de se “adaptar”, ver-se forçado a buscar modelos que não são os reais, e até alterar comportamentos, roupas, estilo, modos de ser e de se apresentar. Isso quando não gera o conflito absurdo de levar a criança a abandonar a escola, no caso das vítimas do chamado “bulliyng” – a intimidação na escola.

O que precisa ser feito para diminuir ou mesmo acabar com preconceito entre as crianças nas escolas?
Precisamos entender que este é um processo longo, que exige persistência e atenção de pais, especialistas, professores, diretores, amigos, da sociedade como um todo. Quanto mais o assunto for abordado, e de maneira transparente, honesta e firme, menos haverá terreno para que ele prolifere no ambiente escolar. Entendo que toda escola deve ter uma política interna, uma pedagogia, definida nesse sentido. Não tolerar preconceitos, não achar que isso é “normal”, como achávamos décadas atrás quando crianças eram agredidas por suas diferenças e isso era visto como “brigas de adolescentes”. O estado, a escola, a família, as diversas instâncias sociais devem tomar o combate ao preconceito como medida número um. Isso não pode ser visto meramente como atividades que chamamos de “projetos”. São atitudes, ações e discussões que eliminem todos os focos de reprodução do preconceito. Para isso, cinema, teatro, literatura, contos, brincadeiras, debates etc são elementos poderosos para a superação desse estágio.

Como os pais podem colaborar nessa questão?
Primeiramente, não sendo preconceituosos ou revendo suas práticas nesse sentido. A escola precisa provocar esse debate com os pais, mesmo que num primeiro momento se viva algum clima de aparente constrangimento. Isso deve ser feito pelo bem dos estudantes, da sociedade, de todos nós. Em casa, claro, a família é responsável por ampliar esse debate, se seu compromisso for em não ver o filho envolvido em situações embaraçosas, como o preconceito provoca. Ver TV e discutir com os filhos os conteúdos ajuda muito, provocar o debate e, principalmente, provar com atitudes. Esse é o segredo que todo mundo conhece, mas nem todos aplicam no cotidiano.

É possível incluir, de fato, crianças com deficiência na escola regular?
Não só é possível como é necessário. Não só porque está na lei, mas porque essa convivência provou que acrescenta muito aos dois lados. Crianças que convivem com amiguinhos que se comunicam por meio da Língua de Sinais aprendem um novo código, podem ser estimulados a buscar no outro o que este tem de melhor. Este é, fundamentalmente, o que tento fixar na escolha do Saci de Duas Pernas como personagem do meu livro.

Como avalia hoje a inclusão escolar?
A inclusão escolar não pode continuar sendo refém de um modismo, como aconteceu durante algum tempo. Em todo lugar que se chegava, no princípio, alguém repetia que ali se “trabalhava com inclusão”, fosse escola, empresa, igreja, ONG, etc. Depois, todos os governos passaram a incluir a palavra nos seus programas e ações, embora a prática não fosse ainda tão clara assim. Outro dia eu debatia com professores e lembrei o seguinte: se dependesse da quantidade de programas, entidades, governos e empresas que dizem “incluir” as pessoas, certamente o Brasil não teria mais ninguém “excluído”, tantos são os programas e “discursos” de inclusão que temos. Ironias à parte, vejo que hoje a inclusão escolar tornou-se uma prática mais concreta, feita com bases mais sólidas e com grande número de pessoas realmente comprometidas, sérias. Ainda é pouco, pois o caminho é longo para que conseguirmos superar esse atraso de décadas. Basta lembrar que nossa sociedade tem em mente a inclusão como uma espécie de “purgação”, de diminuir dramas de consciência. Ou seja, de ter “dó” dos que estão sendo vitimizados pelo preconceito ou que são excluídos socialmente, quando a mudança nem sempre passa pelo apoio financeiro ou social, e sim pela postura da sociedade, do cidadão, da cidadã, do administrador, do professor, do diretor da escola, do gerente.

Como você espera que o livro O Saci de Duas Pernas repercuta entre as crianças?
Espero que elas se divirtam com a figura do Saci e, ao mesmo tempo, vejam nela o amigo, o colega, o vizinho, o irmãozinho ou aquele outro que gosta de respeito, tanto quanto elas gostam. Que aprendem a se colocar no lugar dos outros, enquanto se deliciam com a história cheia de personagens do nosso folclore. E que também provoquem os pais, os outros amigos e amigas que insistirem nessa bobagem de reprodução dos preconceitos, mostrem o quanto isso prejudica. A lição é melhorar cada vez mais a geração do futuro.

Quando foi o lançamento da primeira edição?
Lancei numa escola pública da Capital, EMEF Professor Carlos Pasquale, em dezembro de 2008. Na ocasião, fui convidado a levar esse debate a diversas cidades. Em janeiro de 2009, viajei a convite da Fundação José Augusto, do governo do Estado do Rio Grande do Norte, onde lancei o livro em sete cidades – começando por Natal. Em vários desses municípios, realizei debates em diversas instituições, inclusive em escolas. Aqui em São Paulo, debati o tema com professores de escolas públicas de Itaquaquecetuba, na região do Alto Tietê, entre abril e maio passados, e também estive em cidades da região de Presidente Prudente, em abril, dentre as quais Paraguaçu Paulista, Adamantina, Presidente Bernardes, Iepê e Prudente. O Brasil é muito grande e a carência por discussões desse porte são ainda maiores, principalmente nas pequenas e médias cidades brasileiras, onde nem todo escritor pode ou quer ir. Minhas primeiras experiências nesses locais me indicaram que estou no caminho certo, e quero ampliar esse trabalho com o apoio de educadores, prefeituras, governos estaduais e da nova editora.

O que a segunda edição trará de novo em termos de conteúdo?
A segunda edição é, na verdade, a ampliação da primeira, que foi uma produção independente que lancei por um selo editorial aqui de São Paulo. Agora, neste segundo semestre, sairá a segunda edição pela editora Anita Garibaldi. Nossa meta é atingir mais e mais cidades de São Paulo e de outros estados do país.

SERVIÇO

Para saber mais sobre o livro O Saci de Duas Pernas acesso o blog:

www.sacideduaspernas.blogspot.com.

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Fonte de informação: Rede SACI

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