''Inclusão é o privilégio de conviver com as diferenças''

terça-feira, abril 22, 2008
Ilustração de carta simbolizando o e-mail.

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Envie por e-mail | Aumentar a fonte do texto. Diminuir a fonte do texto. | Por Equipe Inclusive

Maria Teresa Mantoan

O que é inclusão?

É a nossa capacidade de entender e reconhecer o outro e, assim, ter o privilégio de conviver e compartilhar com pessoas diferentes de nós. A educação inclusiva acolhe todas as pessoas, sem exceção. É para o estudante com deficiência física, para os que têm comprometimento mental, para os superdotados, para todas as minorias e para a criança que é discriminada por qualquer outro motivo. Costumo dizer que estar junto é se aglomerar no cinema, no ônibus e até na sala de aula com pessoas que não conhecemos. Já inclusão é estar com, é interagir com o outro.

Que benefícios a inclusão traz a alunos e professores?

A escola tem que ser o reflexo da vida do lado de fora. O grande ganho, para todos, é viver a experiência da diferença. Se os estudantes não passam por isso na infância, mais tarde terão muita dificuldade de vencer os preconceitos. A inclusão possibilita aos que são discriminados pela deficiência, pela classe social ou pela cor que, por direito, ocupem o seu espaço na sociedade. Se isso não ocorrer, essas pessoas serão sempre dependentes e terão uma vida cidadã pela metade. Você não pode ter um lugar no mundo sem considerar o do outro, valorizando o que ele é e o que ele pode ser. Além disso, para nós, professores, o maior ganho está em garantir a todos o direito à educação.

O que faz uma escola ser inclusiva?

Em primeiro lugar, um bom projeto pedagógico, que começa pela reflexão. Diferentemente do que muitos possam pensar, inclusão é mais do que ter rampas e banheiros adaptados. A equipe da escola inclusiva deve discutir o motivo de tanta repetência e indisciplina, de os professores não darem conta do recado e de os pais não participarem. Um bom projeto valoriza a cultura, a história e as experiências anteriores da turma. As práticas pedagógicas também precisam ser revistas. Como as atividades são selecionadas e planejadas para que todos aprendam? Atualmente, muitas escolas diversificam o programa, mas esperam que no fim das contas todos tenham os mesmos resultados. Os alunos precisam de liberdade para aprender do seu modo, de acordo com as suas condições. E isso vale para os estudantes com deficiência ou não.

Como está a inclusão no Brasil hoje?

Estamos caminhando devagar. O maior problema é que as redes de ensino e as escolas não cumprem a lei. A nossa Constituição garante desde 1988 o acesso de todos ao Ensino Fundamental, sendo que alunos com necessidades especiais devem receber atendimento especializado — preferencialmente na escola —, que não substitui o ensino regular. Há outra questão, um movimento de resistência que tenta impedir a inclusão de caminhar: a força corporativa de instituições especializadas, principalmente em deficiência mental. Muita gente continua acreditando que o melhor é excluir, manter as crianças em escolas especiais, que dão ensino adaptado. Mas já avançamos. Hoje todo mundo sabe que elas têm o direito de ir para a escola regular. Estamos num processo de conscientização.

A escola precisa se adaptar para a inclusão?

Além de fazer adaptações físicas, a escola precisa oferecer atendimento educacional especializado paralelamente às aulas regulares, de preferência no mesmo local. Assim, uma criança cega, por exemplo, assiste às aulas com os colegas que enxergam e, no contraturno, treina mobilidade, locomoção, uso da linguagem braile e de instrumentos como o soroban, para fazer contas. Tudo isso ajuda na sua integração dentro e fora da escola.

Como garantir atendimento especializado se a escola não oferece condições?

A escola pública que não recebe apoio pedagógico ou verba tem como opção fazer parcerias com entidades de educação especial, disponíveis na maioria das redes. Enquanto isso, a direção tem que continuar exigindo dos dirigentes o apoio previsto em lei. Na particular, o serviço especializado também pode vir por meio de parcerias — e deve ser oferecido sem ônus para os pais.

Estudantes com deficiência mental severa podem estudar em uma classe regular?

Sem dúvida. A inclusão não admite qualquer tipo de discriminação, e os mais excluídos sempre são os que têm deficiências graves. No Canadá, vi um garoto que ia de maca para a escola e, apesar do raciocínio comprometido, era respeitado pelos colegas, integrado à turma e participativo. Há casos, no entanto, em que a criança não consegue interagir porque está em surto e precisa ser tratada. Para que o professor saiba o momento adequado de encaminhá-la a um tratamento, é importante manter vínculos com os atendimentos clínico e especializado.

A avaliação de alunos com deficiência mental deve ser diferenciada?

Não. Uma boa avaliação é aquela planejada para todos, em que o aluno aprende a analisar a sua produção de forma crítica e autônoma. Ele deve dizer o que aprendeu, o que acha interessante estudar e como o conhecimento adquirido modifica a sua vida. Avaliar estudantes emancipados é, por exemplo, pedir para que eles próprios inventem uma prova. Assim, mostram o quanto assimilaram um conteúdo. Aplicar testes com consulta também é muito mais produtivo do que cobrar decoreba. A função da avaliação não é medir se a criança chegou a um determinado ponto, mas se ela cresceu. Esse mérito vem do esforço pessoal para vencer as suas limitações, e não da comparação com os demais.

Um professor sem capacitação pode ensinar alunos com deficiência?

Sim. O papel do professor é ser regente de classe, e não especialista em deficiência. Essa responsabilidade é da equipe de atendimento especializado. Não pode haver confusão. Uma criança surda, por exemplo, aprende com o especialista libras (língua brasileira de sinais) e leitura labial. Para ser alfabetizada em língua portuguesa para surdos, conhecida como L2, a criança é atendida por um professor de língua portuguesa capacitado para isso. A função do regente é trabalhar os conteúdos, mas as parcerias entre os profissionais são muito produtivas. Se na turma há uma criança surda e o professor regente vai dar uma aula sobre o Egito, o especialista mostra à criança com antecedência fotos, gravuras e vídeos sobre o assunto. O professor de L2 dá o significado de novos vocábulos, como pirâmide e faraó. Na hora da aula, o material de apoio visual, textos e leitura labial facilitam a compreensão do conteúdo.

Como ensinar cegos e surdos sem dominar o braile e a língua de sinais?

É até positivo que o professor de uma criança surda não saiba libras, porque ela tem que entender a língua portuguesa escrita. Ter noções de libras facilita a comunicação, mas não é essencial para a aula. No caso de ter um cego na turma, o professor não precisa dominar o braile, porque quem escreve é o aluno. Ele pode até aprender, se achar que precisa para corrigir textos, mas há a opção de pedir ajuda ao especialista. Só não acho necessário ensinar libras e braile na formação inicial do docente.

O professor pode se recusar a lecionar para turmas inclusivas?

Não, mesmo que a escola não ofereça estrutura. As redes de ensino não estão dando às escolas e aos professores o que é necessário para um bom trabalho. Muitos evitam reclamar por medo de perder o emprego ou de sofrer perseguição. Mas eles têm que recorrer à ajuda que está disponível, o sindicato, por exemplo, onde legalmente expõem como estão sendo prejudicados profissionalmente. Os pais e os líderes comunitários também podem promover um diálogo com as redes, fazendo pressão para o cumprimento da lei.

Há fiscalização para garantir que as escolas sejam inclusivas?

O Ministério Público fiscaliza, geralmente com base em denúncias, para garantir o cumprimento da lei. O Ministério da Educação, por meio da Secretaria de Educação Especial, atualmente não tem como preocupação punir, mas levar as escolas a entender o seu papel e a lei e a agir para colocar tudo isso em prática.

“Estar junto é se aglomerar com pessoas que não conhecemos. Inclusão é estar com, é interagir com o outro”

Bibliografia

Direitos das pessoas com deficiência: garantia de igualdade na diversidade, Eugênia Augusta Fávero, 342 págs., Ed. WVA, tel. (21) 2493-7610, 40 reais

Inclusão Escolar: O que é? Por quê? Como fazer?, Maria Teresa Eglér Mantoan, 96 págs., Ed. Moderna, tel. 0800-172002, 11 reais

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14 Responses to “''Inclusão é o privilégio de conviver com as diferenças''”

  1. Magnovanda on 11 de março de 2009 at 17:19

    MUITO LEGAL ESSA REPORTAGEM. VOU ASSISTIR UM SEMINÁRIO NA UESC-ILHÉUS-BA SOBRE INCLUSÃO PARA AUTONOMIA COM ESSAMESMA AUTORA. ABRAÇOS

  2. Lúcia Medeiros on 22 de março de 2009 at 2:28

    Parabéns! Isso é ter espirito humanitário.

    Preciso de notícias sobre inclusão de pessoas especiais no mercado de trabalho.
    Motivo: sou estudante do curso de Serviço Social e estou fazendo um projeto de inclusão destes no mercado de trabalho mas com capacitação, ou seja, tenho que desenvolver este projeto no meu local de estágio (APAE Uberlândia) estou adorando e quero me especializar, aprender a lidar com eles e ajudá-los no que puder a terem dignidade e igualdade em nossa sociedade.

    Um grande abraço e obrigado por vces existirem.

  3. agenciainclusive on 23 de março de 2009 at 2:47

    Lucia, voce pode realizar uma busca aqui mesmo no site da Inclusive que encontrara muito material. Do lado direito, mais embaixo, ha um box onde vc pode digitar as palavras chaves que quer encontrar.

    Abs
    Equipe Inclusive

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  6. valdilene on 28 de março de 2010 at 23:30

    ola! precisa de mas noticia sobre educaçao especial
    motiva sou esdudante d pedagogio estou fazendo tcc sobre
    alunos com deficiencia.

  7. Equipe Inclusive on 29 de março de 2010 at 22:32

    Oi Valdilene

    Sugiro que cadastre seu e-mail na nossa newsletter diária.

    Um abraço
    Lucio Carvalho
    Equipe Inclusive

  8. Edinice Ferreira Leal on 31 de março de 2010 at 12:45

    Boa tarde! estou fazendo meu tcc de serviço social, e visitando a página para inscrição do Simpósio que vai ter na UESC, entao aproveitando a oportunidade, resolvir pedir que colabore comigo mandando assuntos relacionados a inclusão escolar e assuntos voltados para os direitos das pessoas deficiêntes ter acesso as escolar regulares de ensino. Aguardo a colaboração EDINICE 31/03/2010

  9. valdemir Ribeiro on 27 de janeiro de 2011 at 15:36

    ESTA REPORTAGEM É FANTASTICA, POIS SEM A INCLUSÃO DE TODOS O ENSINO SI TORNARIA MERAMENTE EXCLUDENTE. E, O CONHECIMENTO RESTRITO A POUCOS.

  10. Sônia on 17 de fevereiro de 2011 at 23:02

    Boa noite!

    Vou começar meu ttc estou precisando de um título sobre inclusão!

    Desde já agradeço a coloboração de tdos1

    Att, Sônia.

  11. karollinny on 7 de junho de 2011 at 11:07

    bom parabens por esta reportagem.voce ajudas muitas pessoas a saber o que e inclusao.

  12. Layane Ruela on 29 de dezembro de 2011 at 14:37

    fiz artigos cientificos e apresetaçoes em semnarios e congressos a respeito da inclusao baseados em seus escritos juntamente com outros autores que seguem a mesma vertente, é necessario que seja divulgado mais abertamente a questao da inclusao para que ela seja efetivada em sua totalidade! admiro Maria Teresa Egler Mantoan

  13. marcia on 2 de janeiro de 2012 at 19:09

    Gostaria de receber em meu e-mail tudo sobre inclusão. Trabalho na área da Educação Infantil, sou monitora e vejo como é importante estar atento a inclusão. Estou cursando Libras pela prefeitura do nosso municipio. Sempre que houver algo gostaria de receber.

    Desde já agradeço. Pois gostei muito de ter lido o resumo da inclusão

  14. sabrina on 7 de abril de 2013 at 11:09

    gostei muito do artigo.
    gostaria de saber como comprar o livro, trabalho na area da educação e quero sempre mim manter informada.
    caso for possível a compra do livro qostaria de uma orientação. aguardo sua resposta .
    obrigada.

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