Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada

sexta-feira, dezembro 11, 2009
Ilustração de carta simbolizando o e-mail.

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Capa do livro Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada, de Erving Goffman.por Sandra Mestre da Cunha – sandramdcunha@gmail.com
Copyright © 2003 Sandra Mestre da Cunha

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Conteúdo

1 Introdução — Apresentação do texto
2 Escolha do texto — Justificação
3 Principais interrogações
4 Contexto histórico
5 Estrutura
6 Procedimentos de observação
7 Principais conclusões
8 Universo teórico
9 Comentários

1 Introdução — Apresentação do texto

Goffman insere-se num grupo de autores da Escola de Chicago, que escrevem partindo de uma perspectiva Interaccionista Simbólica, corrente que se opõe ao Funcionalismo de Parsons (análise do macro-social). O Interaccionismo Simbólico centra o seu estudo nos contextos face-a-face da vida social, na interacção social presente na vida quotidiana que envolve a troca de símbolos? Quando interagimos com outros, procuramos constantemente “pistas” sobre o tipo de comportamento apropriado ao contexto e sobre como interpretar o que os outros pretendem.

Também Goffman explora os detalhes da identidade individual e social e das relações em grupo a um nível micro-sociológico observando a interacção social nas acções de todos os dias e foca a sua atenção na forma como cada um desempenha o seu papel e gere a impressão que causa nos outros em diferentes contextos.

Após já ter feito uma incursão no estudo da identidade individual e social através da sua obra, “The Pesentation of Self in Everiday Life”, em 1959, Goffman demostra grande interesse pelos casos desviantes com a obra em questão, “Stigma: Notes on the Management of Spoiled Identity”, de 1963 e “Asylums: Essays on the Social Situation of Mental Patinetes and Other Imnates” de 1961.

Estigma: Notas sobre a manipulação da Identidade deteriorada, é uma interessante viagem pela situação de indivíduos incapazes de se confinarem aos padrões normalizados da sociedade. São indivíduos com deformações físicas, psíquicas ou de carácter, ou com qualquer outra característica que os torne aos olhos dos outros diferentes e até inferiores e que lutam diária e constantemente para fortalecer e até construir uma identidade social.

Goffman analisa nesta obra, os sentimentos da pessoa estigmatizada sobre si própria e a sua relação com os outros ditos “normais”. Explora a variedade de estratégias que os estigmatizados empregam para lidar com a rejeição alheia e a complexidade de tipos de informação sobre si próprios que projectam nos outros, “Este livro, entretanto, ocupa-se especificamente com a questão dos ‘contactos mistos’? Os momentos em que os estigmatizados e os normais estão na mesma ‘situação social’, ou seja, na presença física imediata um do outro, quer durante uma conversa, quer na mera presença simultânea numa reunião informal”1

O texto que vou analisar é o segundo capítulo intitulado “Controle de Informação e Identidade Pessoal” e, trata essencialmente do indivíduo desacreditável e das suas estratégias de controle de informação que fornece aos outros.

2 Escolha do texto — Justificação

Escolhi esta obra devido ao interesse pessoal que nutro pela integração, adaptação e aceitação na sociedade, de pessoas consideradas detentoras de um estigma. Este interesse parte do meu conhecimento e relacionamento pessoal com pessoas que se encaixam nesta categoria seja, por deterem incapacidades físicas, nomeadamente um deficiente auditivo, seja por sofrerem de perturbações psicológicas como é o caso de uma doente maníaco-depressiva.

O facto de ter folheado o livro e lido algumas passagens durante a pesquisa que efectuei sobre as obras de Goffman, também pesou na minha escolha, pois fiquei bastante impressionada pela escrita simples, acessível e agradável de Goffman e, pela grande quantidade de exemplos e relatos apresentados durante todo o livro, o que torna a leitura mais agradável e menos monótona.

Dentro desta obra, escolhi o segundo capítulo por razões metodológicas. Dada a análise que me foi solicitada pelo professor, pareceu-me o capítulo mais capaz de fornecer os elementos necessários à feitura deste trabalho, tanto pelos temas tratados como pela sua extensão (maior do que os outros capítulos). Saliento no entanto que apesar de em certos pontos deste trabalho me dedicar realmente mais a este capítulo específico, o relaciono sempre com todos os outros capítulos e refiro-me ao livro completo em diversas etapas do trabalho.

3 Principais interrogações

Na obra, que conforme o nome indica é um conjunto de notas sobre o controle da informação sobre si próprios que indivíduos estigmatizados fornecem aos normais, Goffman procura esclarecer a relação do estigma com a questão do desvio. Salienta no Prefácio do livro o desejo de analisar alguns trabalhos sobre o estigma para apurar as suas contribuições à sociologia; “Neste ensaio desejo rever alguns trabalhos sobre o estigma, especialmente alguns trabalhos populares, para ver o que eles podem fornecer à Sociologia”2. Informa ainda que utilizará um conjunto específico de conceitos relacionados com a informação social (informação que o indivíduo transmite directamente sobre si).

Relativamente ao capítulo que pretendo analisar, o que consegui apurar relativamente às interrogações de Goffman, foi que ele se pretende ocupar essencialmente do indivíduo desacreditável? aquele cuja característica ou defeito distinto que o torna diferente dos outros ditos normais não é ainda conhecida nem é imediatamente perceptível e, da questão da manipulação da informação sobre essa mesma característica ou defeito; “Exibi-lo ou aceitá-lo; contá-lo ou não contá-lo; revelá-lo ou escondê-lo; mentir ou não mentir e, em cada caso, para quem, como, quando e onde.”3 Conforme salienta mais à frente; “a manipulação da informação oculta que desacredita o Eu, ou seja, o encobrimento, é o segundo problema geral que desejo focalizar nestas notas”4. Neste capítulo Goffman trata também da questão da Visibilidade do estigma ou seja, pretende apurar “até que ponto o estigma está adaptado para fornecer meios de comunicar que um indivíduo o possui”5. No entanto, para isso há que “especificar a capacidade descodificadora da audiência”6, o que só poderá ser feito formulando melhor o conceito de identidade pessoal. Goffman afirma neste ponto a necessidade de tratar um factor relevante para o seu relatório, que é o grau de conexão informacional, “(…) dado o número de importantes factos sociais sobre o indivíduo, em que medida aqueles que conhecem alguns deles conhecem muitos?”7 Relativamente ao enco-brimento e ao processo de aprendizagem desta estratégia, Goffman pretende ainda considerar alguns dos problemas e consequências do mesmo. Seguidamente vais discorrer sobre as diversas técnicas de Controle de Informação dos desacreditáveis e sobre o Acobertamento.

Nos capítulos seguintes Goffman procura perceber melhor a diferença entre a identidade social e a identidade pessoal através da inserção no estudo da Identidade do eu ou identidade experimentada.

No capítulo quinto vai procurar relacionar o estudo do estigma com estudos de casos desviantes e, claro procurar definir Desvio, “(…) pode-se passar a encarar a relação entre o seu estudo e o estudo de assuntos próximos associados ao termo comportamento desviante”8.

4 Contexto histórico

É de salientar nesta altura, que Goffman integra em 1958 o Departamento de Sociologia da Universidade da Califórnia, Berkeley a convite de Herbert Blumer e aí se torna professor de Sociologia nos anos 60. Aliás, Estigma é precisamente um conjunto de notas sobre comportamentos desviantes que Goffman mantinha para as suas aulas de Sociologia do Desvio.

Durante a leitura destas notas denota-se alguma simpatia pela situação dos estigmatizados e talvez algum do seu interesse neste tema advenha do facto de Erving Goffman ser de origem judaica (minoria étnica estigmatizada, na América dos anos 60) , apesar de não se considerar judeu.

Viviam-se na América, tempos conturbados no que respeita à ordem social, gerados pelas tensões criadas pelas associações de defesa dos direitos das inúmeras minorias étnicas emigrantes estabelecidos na América nessa altura.

Também nesta altura se assiste nos EUA à redescoberta das Teorias de Interacção e ao consequente retorno ao individualismo a par do fim da hegemonia do funcionalismo. A emergência de uma sociologia crítica liderada por Wright Mills entre outros vai também influenciar Erving Goffman. Assiste-se nesta altura ao surgimento de inúmeros trabalhos sobre o tema do Estigma, conforme o salienta Goffman no prefácio desta obra, “Há mais de uma década vem sendo apresentada uma quantidade razoável de trabalhos sobre estigma — a situação do indivíduo que está inabilitado para a aceitação social plena”9. O seu estudo irá ter em conta dados de todos estes trabalhos e incidirá sobre o modo como se organiza a experiência no quotidiano, como se processa a interacção entre dois ou mais indivíduos em situação de co-presença física e especialmente sobre as formas de preservação da sua identidade através das técnicas de controle de informação.

Estas notas não possuem muitas referência ao contexto da altura e, entre as poucas que descobri saliento: “Recentemente, surgiram os documentos que informam sobre o estado de saúde do seu portador, e o seu uso geral é defendido”10, “(…) comportamento desviante — uma expressão actualmente em moda que foi, de um certo modo, evitada aqui até agora, apesar da conveniência do rótulo”11.

Nas notas de rodapé verifica-se o recurso de Goffman a exemplos retirados de um leque muito extenso de obras e artigos de variadíssimos autores e fontes, na sua grande maioria dos anos 50, 60. Goffman também chama a atenção por diversas vezes a obras anteriores da sua autoria:

● Referente a uma abordagem geral da patologia da interacção e da inquietação, ver “Alienation from Interaction” Human Relations, X (1957), pp.47-60

● Para uma distinção entre as identidades pessoal e de papel ver “The Presentation of self in Everiday Life”, op.cit., pp.60.

● Sobre as relações e tipos de reconhecimento ver “Behaviour in Public Places” (Nova York, Free Press of Glencoe, 1963), cap.7, pp.112-123

● Sobre os ex-pacientes mentais ver o estudo do autor no St. Elizabeths Hospital Washington D.C., parcialmente incluído em “Asylums” (Nova York, Doubleday & Co., Anchor Books, 1961)

5 Estrutura

Esta obra era inicialmente, como já referi, um conjunto de notas sobre interacção social e comportamentos desviantes no quotidiano, para as aulas de sociologia em Berkeley que Goffman leccionava. O estigma, a socialização dos estigmatizados, a manipulação da informação sobre o seu defeito e as reacções encontradas em situações de interacção social são descritas e analisadas ao longo de 158 páginas divididas em 5 capítulos. Os primeiros quatro capítulos analisam a forma pela qual controlamos a circulação de informação que nos poderá desacreditar. O quinto capítulo foca o desvio em si e desafia o estudo do comportamento desviante como uma legítima subdivisão da sociologia. Goffman, para continuar a fazer fé ao seu estilo, não apresenta qualquer capítulo de conclusões nem um anexo metodológico. Após um pequeno prefácio, Goffman inicia a sua apresentação com uma comovente história sobre uma rapariga que nasceu sem nariz, retirada do que me parece ser uma carta a uma conselheira emocional.

No primeiro capítulo é proposta a definição de Estigma, que não é apenas um atributo pessoal mas uma forma de designação social — “Uma estigma é, então, na realidade, um tipo especial de relação entre atributo e conceito, embora eu proponha a modificação desse conceito, em parte porque há importantes atributos que em quase toda a nossa sociedade levam ao descrédito”12 e a análise da sua relação com a identidade social de cada um.

O segundo capítulo que vou descrever com maior pormenor, dado ser o alvo da minha análise, encontra-se organizado por nove pontos nos quais Goffman se ocupa do Controle da Informação e Identidade Pessoal. Começa por salientar a diferença entre o indivíduo desacreditado e o desacreditável, isto é, entre aquele que apresenta aos normais uma discrepância visível entre a sua identidade social real e a sua identidade virtual e entre aquele cujo estigma ou “defeito” não é imediatamente visível nem ainda conhecido pelos outros — é neste caso que se coloca a questão da manipulação da informação sobre esse mesmo defeito.

E a Informação Social, transmitida pela própria pessoa a quem se refere, através de símbolos, é precisamente o segundo ponto tratado neste capítulo. Os símbolos são divididos por Goffman em três tipos: símbolos de prestígio, símbolos de estigma e desidentificadores (símbolos que tendem a quebrar um imagem lançando sérias dúvidas sobre a validade da identidade virtual).

O terceiro ponto trata da Visibilidade do estigma, ou seja, “até que ponto o estigma está adaptado para fornecer meios de comunicar que um indivíduo o possui”13. A exposição de Goffman segue então, no quarto ponto, para a análise específica do conceito de Identidade Pessoal, pois “todo o problema da manipulação do estigma é influenciado pelo facto de conhecermos ou não, pessoalmente o indivíduo estigmatizado” 14 e para a apresentação do que Goffman entende por Biografia do indivíduo (quinto ponto).

No ponto seis é tratado o facto dos “normais” conhecerem ou não pessoalmente o indivíduo estigmatizado, regulando este facto as expectativas que mantêm acerca do mesmo e as biografias que elaboram para ele.

No ponto seguinte, Goffman ocupa-se do Encobrimento do estigma (factor crucial na análise destes casos, no seu entender) e dos diversos tipos de “ameaças” à identidade social virtual que o “desmascarar” do encobrimento pode desencadear. Avança depois para a análise das diversas Técnicas de Controle de Informação usadas pelos indivíduos que pretendem ocultar um “defeito” secreto.

O último ponto do capítulo trata da questão do Acobertamento15 por parte de estigmatizados com defeitos conhecidos, imediatamente visíveis ou passíveis de serem detectados facilmente (trata-se aqui de gerir a tensão causada pelas reacções ao seu estigma).

No terceiro capítulo da obra fala-se do Alinhamento Grupal e Identidade do Eu, enquanto que no capítulo seguinte, Goffman estuda o conceito do Eu e o seu Outro, ou seja, a situação específica do estigmatizado e a sua resposta à situação em que se encontra. No último capítulo, intitulado Desvios e Comportamento Desviante, Goffman analisa a relação entre estigmatizados e comportamentos desviantes, sugerindo em conclusão (que abordarei mais à frente) o estudo dos casos desviantes como um campo específico da disciplina.

6 Procedimentos de observação

Como já referi e, como é típico em Goffman, esta obra não inclui qualquer anexo metodológico. Assim, o que mais é sugerido pelas abundantes notas de rodapé, como procedimento de observação utilizado é o incessante recurso a estudos já efectuados, sobre o mesmo tema ou assuntos relacionados, por diversos sociólogos, psicólogos, médicos, entre tantos outros, bem como o recurso a depoimentos pessoais de indivíduos na situação de estigmatizados. Presumo também que a observação directa tenha tido algum peso nas suas observações. Apesar de não encontrar qualquer referência a experiências directas ou pessoais, Goffman passou um ano numa instituição psiquiátrica em contacto com pacientes mentais, seus familiares e amigos o que decerto lhe possibilitou observar bastantes situações de interacção social no que concerne casos desviantes.

O método de Goffman no estudo da interacção social do quotidiano não se baseia na manutenção da ordem social, ao contrário da sociologia tradicional, mas sim na análise de como essa ordem social se pode desmoronar, as causas e consequências desse desmoronamento e a forma como os indivíduos reagem a estas situações16. Daí o seu interesse por comportamentos desviantes e disso são prova as suas duas obras, Asylums (1961) e Stigma (1963).

Como também já referi, esta obra é um conjunto de ensaios, baseados em experiências quotidianas de diversos indivíduos em que o autor busca uma Teoria Geral nunca afirmando no entanto que a tenha descoberto ou encontrado. Trata-se de uma forma aberta e exploratória de expor ideias em que o autor pode utilizar dados de variadissimas fontes: amigos, jornalistas, cientistas sociais, médicos, depoimentos anónimos, etc… Depreendo pela forma indiferenciada de referência e tratamento a estes, que Goffman professa o mesmo respeito por todos, quer se trate de um médico ou cientista social de renome, quer se trate de um popular com uma história pessoal. Goffman refere-se ainda ao uso de conceitos específicos ao que pretende estudar, “Essa tarefa me permitirá utilizar um conjunto específico de conceitos”17.

Para terminar saliento ainda o recurso a exemplos imaginários de situações de interacção social que apoiem o seu raciocínio, como se pode verificar na pág. 74, segundo parágrafo, ou na pág. 103, 13a. linha, entre outros18.

7 Principais conclusões

As principais conclusões encontradas no capítulo analisado, começam por dizer respeito à relação do estigma com a identidade pessoal; segundo Goffman o facto de se conhecer pessoalmente o estigmatizado e de se poder vir a estabelecer com ele uma rotina diária de normalização da interacção, não reduz necessariamente o menosprezo. “(…), deve-se continuar a ver que a familiaridade não reduz necessariamente o menosprezo”19. No entanto, toda a questão da manipulação do estigma facto de que “em geral, as normas relativas à identidade social (…), referem-se aos tipos de reportórios de papeis ou perfis que consideramos que qualquer indivíduo pode sustentar”20.

Para Goffman a descoberta de um estigma num indivíduo prejudica não só a situação social corrente mas também as relações já estabelecidas e a imagem que os outros terão dele no futuro, ou seja, a sua reputação as consequências da descoberta de um estigma podem prolongar-se por toda a vida do indivíduo… Goffman refere ainda que um indivíduo pode ser conhecido por grupos de pessoas que possuem sobre ele um conjunto de informações diferentes não sendo no entanto essas diferenças incompatíveis umas com as outras em situações de contacto simultâneo com dois ou mais desses grupos. “Dou por estabelecido, então, que os contactos aparentemente causais da vida quotidiana podem, ainda assim, constituir algum tipo de estrutura que prende o indivíduo a uma biografia e, isso a despeito da multiplicidade de eus que o papel e a segregação de audiências lhe permitem” 21.

Relativamente ao encobrimento do estigma, Goffman refere que “(…) a extensão do encobrimento pode variar, de um encobrimento involuntário e momentâneo, num extremo, ao clássico tipo de encobrimento total, no outro”22. Goffman não concorda com a suposição de que o fenómeno do Encobrimento leva o indivíduo a vive num alto nível de tensão e ansiedade por ter de manter uma imagem falsa que poderá colapsar a qualquer momento, “Acho que o estudo cuidadoso de pessoas que se encobrem mostraria que nem sempre há esta ansiedade e que nesse ponto, as nossas concepções tradicionais sobre a natureza humana podem enganar-nos seriamente”23. Saliento neste ponto que não concordo com o autor pois aceito com maior convicção a existência, no indivíduo que encobre um estigma, de uma grande tensão e até terror perante a possibilidade de vir a ser desmascarado
do que uma existência despreocupada perante a ameaça. Goffman também não explica nem justifica a sua opinião!

Para concluir, e relativamente à manipulação do estigma, este pode afectar não só o indivíduo estigmatizado como também familiares e amigos que o ajudem no processo de encobrimento perante outros. A principal conclusão de Goffman no entanto desemboca na sugestão de tratar o estudo dos casos de comportamento desviante dos indivíduos estigmatizados como um campo específico da sociologia, categorizando os indivíduos pelo que têm de  comum (o estigma) é possível separá-los de outros campos da disciplina e estudá-está intimamente relacionada com o facto de se conhecer pessoalmente ou não o indivíduo estigmatizado. Relativamente ao ponto sobre a Biografia do estigmatizado, Goffman atenta para o los pelo que realmente é específico neles24.

8 Universo teórico

Já referi e expliquei na Introdução como Goffman se insere na corrente do Interaccionismo Simbólico. Foi também grandemente influenciado por Herbert Blumer assim como evidentemente, por George Herbert Mead. Nesta obra, Goffman recorre a variadíssimos autores de numerosas disciplinas diferentes, como a diversos sociólogos, médicos, psicólogos, jornalistas, etc… No capítulo em questão, Goffman faz alusão a numerosos trabalhos entre os quais destaco os de: B.Wolfe, G.J.Flemming, A.Hartman, Robert Murphy (trabalho não publicado, “On social Distance and the Veil”, Harold Garfinkel, Anthony Perkins, Rolph, Warfield, Chevigny etc…

9 Comentários

No decorrer da leitura desta obra, fica-se com a noção de que o autor nutria uma certa simpatia por pessoas estigmatizadas e demonstra também a ideia de que todos nós, os ditos normais, de certa forma somos estigmatizados ou, pelo menos, corremos o risco de nos tornar-mos num deles. Desta forma está também implícita a noção de que todos nós controlamos de diversas formas a informação que transmitimos aos outros, a imagem que damos de nós próprios. Erving Goffman através das suas obras chamou a atenção para pequenos pormenores da interacção quotidiana que de outra forma, por se encontrarem tão imbuídos nas nossas acções de todos os dias, dificilmente daríamos conta da sua extrema importância nos processos da interacção quotidiana face-a-face. Situações sociais diversas e os comportamentos-resposta adequados a cada uma delas constituem um dos níveis mais essenciais da hierarquia da organização social humana25.

Notas

1 Goffman, Erving, Estigma-Notas sobre a Manipulação da Identidade deteriorada, 1980, Brasil, Zahar Editores, p.21-22.
2 Goffman, Erving, Estigma-Notas sobre a Manipulação da Identidade deteriorada, 1980, Brasil, Zahar Editores, p. 7
3 Goffman, Erving, Estigma-Notas sobre a Manipulação da Identidade deteriorada, 1980, Brasil, Zahar Editores, p. 51
4 Goffman, Erving, Estigma-Notas sobre a Manipulação da Identidade deteriorada, 1980, Brasil, Zahar Editores, p. 52
5 Goffman, Erving, Estigma-Notas sobre a Manipulação da Identidade deteriorada, 1980, Brasil, Zahar Editores, p. 58
6 idem
7 Goffman, Erving, Estigma-Notas sobre a Manipulação da Identidade deteriorada, 1980, Brasil, Zahar Editores, p. 74
8 Goffman, Erving, Estigma-Notas sobre a Manipulação da Identidade deteriorada, 1980, Brasil, Zahar Editores, p. 151
9 Goffman, Erving, Estigma-Notas sobre a Manipulação da Identidade deteriorada, 1980, Brasil, Zahar Editores, p.7
10 Goffman, Erving, Estigma-Notas sobre a Manipulação da Identidade deteriorada, 1980, Brasil, Zahar Editores, p.70
11 Goffman, Erving, Estigma-Notas sobre a Manipulação da Identidade deteriorada, 1980, Brasil, Zahar Editores, p.151
12 Goffman, Erving, Estigma-Notas sobre a Manipulação da Identidade deteriorada, 1980, Brasil, Zahar Editores, p.13
13 Goffman, Erving, Estigma-Notas sobre a Manipulação da Identidade deteriorada, 1980, Brasil, Zahar Editores, p.58
14 Goffman, Erving, Estigma-Notas sobre a Manipulação da Identidade deteriorada, 1980, Brasil, Zahar Editores, p.65
15 Apesar de usar a palavra brasileira parece-me que a palavra correspondente em português seja acobardamento
16 Baseei-me em Simon Williams, Goffman Interaccionism and the Management of Stigma in Everyday Life
17 Goffman, Erving, Estigma-Notas sobre a Manipulação da Identidade deteriorada, 1980, Brasil, Zahar Editores, p.8
18 Não transcrevo os exemplos por serem de fácil detecção e por uma questão de poupança de espaço e tempo
19 Goffman, Erving, Estigma-Notas sobre a Manipulação da Identidade deteriorada, 1980, Brasil, Zahar Editores, p.63
20 Goffman, Erving, Estigma-Notas sobre a Manipulação da Identidade deteriorada, 1980, Brasil, Zahar Editores, p.74
21 Goffman, Erving, Estigma-Notas sobre a Manipulação da Identidade deteriorada, 1980, Brasil, Zahar Editores, p.84
22 Goffman, Erving, Estigma-Notas sobre a Manipulação da Identidade deteriorada, 1980, Brasil, Zahar Editores, p.91
23 Goffman, Erving, Estigma-Notas sobre a Manipulação da Identidade deteriorada, 1980, Brasil, Zahar Editores, p.98
24 Goffman, Erving, Estigma-Notas sobre a Manipulação da Identidade deteriorada, 1980, Brasil, Zahar Editores, p.158
25 Strong, P.M., The importance of Being Erving: Erving Goffman, 1922-198

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2 Responses to “Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada”

  1. ELSON BRITO on 25 de fevereiro de 2011 at 18:24

    QUERO AGRDECER PELO ESCLARECEDOR TEXTO SOBRE MANIPILAÇÃO DA IDENTIDADE DETERIORADA DE GOFFAN. COMO POSSO RECEBER ESSES ARTIGOS POR E-MAIL?

  2. Equipe Inclusive on 24 de março de 2011 at 18:38

    Informe-se com a autora
    sandramdcunha@gmail.com
    Att,
    Patricia Almeida
    Equipe Inclusive

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